VIAGENS NO MEU PLANETA - EXPEDIÇÕES

logo:jipes Expedição Terrano II Sul-América Logo: Jipes
DAS PRAIAS CARIOCAS AO DESERTO DE ATACAMA

No ano em que o Entreposto levou a cabo a sua terceira grande expedição de todo-o-terreno (Terrano II Tibete), as Viagens no Meu Planeta recordam os momentos altos da expedição de 1994 (Terrano II Sul-América), que contou com a participação de 16 carros, num percurso de 15 mil quilómetros através da América do Sul, das praias do Rio de Janeiro, no Brasil, até à imensidão das pampas da Argentina. Pelo meio, a travessia da cordilheira dos Andes, do deserto de Atacama e dos lagos salgados bolivianos

Texto e fotos: Alexandre Coutinho

Rodar a 120 km/h num imenso lago salgado com uma área equivalente à do Algarve; passear por entre "geysers" e furnas vulcânicas a mais de 4000 metros de altitude; e visitar as colónias de flamingos cor-de-rosa que encontram refúgio nestas paragens recônditas do planeta. Foram estes os pontos altos da terceira e última etapa da Expedição Terrano II Sul-América, entre Cusco e Buenos Aires, que tive a oportunidade de completar.

A expedição, constituída por três dezenas de aventureiros e envolvendo 16 viaturas, foi organizada pelo Entreposto e dirigida por José Megre. Começara dia 25 de Agosto, no Rio de Janeiro. O objectivo era percorrer, em cerca de um mês, perto de 15 mil quilómetros, passando pelo Pantanal e pela Amazónia brasileiros, inflectindo depois para os Andes bolivianos, para os desertos do Norte do Chile e para as pampas argentinas.

A previsível dureza do percurso levou ao reforço da suspensão e outros elementos mecânicos dos jipes utilizados, bem como à montagem de depósitos suplementares. E, como nalgumas zonas se iria circular acima dos 4000 metros de altitude, cada carro levava garrafas de oxigénio. Os primeiros efeitos do "el soroche" ou mal de altitude começam a fazer-se sentir, logo a partir dos 3000 mil metros, em consequência da rarefacção de oxigénio no ar. Os médicos e os viajantes com quem falámos tinham-nos alertado para o cansaço, dores de cabeça e grande dificuldade em fazer exercícios físicos, ou mesmo uma simples caminhada num passo mais atrevido pelas ruelas da cidade. Para minorar estes efeitos, recomenda-se o tradicional "mate" ou chá de folhas de coca, servido amíude nos hotéis e restaurantes e, nos casos mais persistentes, uma simples aspirina.

A primeira etapa terminou na capital boliviana, La Paz, proporcionando aos participantes uma visita ao lago Titicaca - o mais alto do mundo - e aos veículos uma revisão completa aos turbos e injectores, vítimas de uma azarada experiência com combustível de má qualidade. Entre La Paz e Cusco, no Peru, viveu-se uma das semanas mais intensas da viagem, descendo dos Andes à floresta amazónica (Brasil), atravessando os rios de batelão, aprendendo a pescar piranhas e pondo em prática as técnicas de condução em pistas de lama escorregadia. A chegada a Cusco, término da segunda etapa, foi celebrada como um verdadeiro regresso à civilização. Três dias para visitar a antiga capital do império inca, perder-se nas lojas de artesanato e proceder às necessárias reparações nas viaturas, nomeadamente, o reforço dos apoios dos amortecedores que mais sofreram com a dureza das pistas.

Cusco Herdeira de um património ímpar de construções do período inca e de três séculos de influência da arquitectura hispânica, Cusco oferece ao visitante uma atmosfera difícil de descrever por simples palavras. Para melhor compreender o segredo desta harmonia, nada melhor do que caminhar no centro da cidade e nas imediações da Plaza de Armas. Aqui, as ruas são ladeadas de muros de pedra talhada que testemunham a grandeza dos antigos templos inca, sobre os quais, os "conquistadores" espanhóis edificaram palácios e igrejas. A beleza das varandas de madeira ricamente decoradas e trabalhadas; La Catedral; a igreja de La Compañia; e a igreja Santo Domingo, nã deixam ninguém indiferente, mas os mais recentes terramotos puseram a nu algumas construções inca e relançaram o debate sobre quais os mounumentos que se deveriam preservar.

No templo do sol de Machu Picchu

Machu Picchu Situada próximo da fronteira entre a Bolívia e o Peru, Machu Picchu foi um dos pontos de visita obrigatórios. A última cidade dos incas, é um daqueles lugares especiais que só encontra paralelo nas ruas de Pompeia, no templo de Angkor-Vat, no Camboja, ou na Grande Muralha da China. Foi descoberta por acaso, em Julho de 1911, pelo arqueólogo americano Hiram Bingham, que se encontrava na região em busca da cidade de Vilcabamba, último bastião dos incas na sua luta contra os espanhóis.

Terá vivido o seu período aúreo entre os anos 1200 e 1400, mas o mistério adensa-se em torno das reais motivações que levaram os incas a fundá-la. Santuário religioso? Residência das favoritas dos imperadores incas? Refúgio de facções rivais nos anos de luta pelo domínio do império? Qualquer destas hipóteses é verosímil para os arqueólogos, mas a estrutura das ruas, templos e casas demonstra que a cidade foi construída e organizada de uma forma metódica, visando a satisfação das necessidades dos seus habitantes.

Machu Picchu É possível distinguir uma ampla zona agrícola, constituída por dezenas de socalcos escavados na encosta da montanha e dotados de um complexo sistema de irrigação; um centro religioso dedicado ao culto do deus sol; uma praça central com uma área próxima de um campo de futebol; uma zona industrial e dois bairros residenciais servidos por labirintos de intermináveis escadarias.

A rígida estratificação social que caracterizava a sociedade inca reflecte-se na arquitectura. A nobreza e os sacerdotes habitavam o chamado "bairro alto". Os artesãos e escravos acotovelavam-se no bairro pobre, em ruelas estreitas e casas pequenas, sobranceiras à falésia.

De uma coisa os ricos e pobres de Machu Picchu não se podiam queixar, quando acordavam de manhã e assomavam a cabeça à janela: o ar puro, o deslumbrante panorama das montanhas circundantes, o declive das encostas verdejantes, com o rio Vilcanota a serpentear 700 metros mais abaixo.

Ao contrário dos modernos visitantes, que chegam ao vale de comboio e vencem de autocarro o desnível que os separa da cidadela, os nativos palmilhavam os 33 quilómetros do Trilho Inca traçado na cumeada da montanha. Dotado de inúmeras passagens secretas e de pontes levadiças que podiam ser retiradas em caso de ameaça externa, este percurso constitui, ainda hoje, um desafio para os caminhantes dispostos a despender quatro dias e três noites para chegar a Machu Picchu.

Nos mercados de Chinchero e Pisac

Chinchero Na mais recôndita aldeia do Peru, o que mais surpreende o visitante é o colorido dos trajes e adornos usados pelos habitantes. Chinchero, a escassos 30 quilómetros de Cusco, oferece todos os domingos a riqueza e variedade dos seus dois mercados. Um, vocacionado para turistas e instalado junto à igreja colonial e às ruínas do templo inca, expõe cerâmicas, tapetes, ponchos e bijuterias diversas; o outro, bem no centro da aldeia, é o local de reunião e troca de bens de primeira necessidade.

Por entre frutas, couves e hortaliças misturam-se os mais modernos sabões e os cheiros intensos do peixe frito ou da "parrillada" de carne grelhada. A "chicha", uma cerveja rústica feita a partir da fermentação de milho, é a bebida de eleição para os nativos. Na ocasião, celebram o ritual ancestral de partilhar com a terra umas gotas, em sinal de reconhecimentos e comunhão de espírito. Hoje, a tradição ombreia com os sinais mais evidentes da sociedade de consumo, em que a omnipresente Coca-Cola se assume como símbolo máximo. Os peruanos contra-atacam sem grande sucesso com a sua Inca-Kola, um refresco quase intragável de sabor a pastilha elástica e rebuçado.

lamas No largo do mercado de Pisac, destaca-se a imponente estátua erigida em homenagem "al heróico caudillo martir Bernardo Tambohuasco, cacique de Pisac", que liderou em 1780 uma das últimas revoltas contra os invasores espanhóis. Esta povoação mantém uma intensa actividade agrícola, cultivando as terras férteis do vale e alguns dos centenários terraços ou socalcos construídos pelos seus antepassados nas encostas das montanhas circundantes.

Altiplano Rumo a Sul, em direcção à cidade de Arequipa, sucedem-se as pequenas aldeias de casas construídas com tijolos de adobe e habitadas por gente pobre, mas muito curiosa e interessada em assistir a esta inesperada "invasão" de forasteiros. O pó levantado pelos carros anunciava ao longe a nossa presença nas pistas do Altiplano, com passagens a 5000 metros de altitude. Neste cenário de montanha, abundam os rebanhos de lamas, alpacas e vicunhas, que fornecem aos nativos a lã e a carne que constituem a base da sua sobrevivência. Muitos deles, não falam uma única palavra de castelhano, perpetuando a sua língua materna, o "quechua".

Os "geysers" de El Tatio e o salar de Uyuni

Deserto de Atacama Restava vencer o deserto chileno de Atacama e os lagos salgados da Bolívia. O Atacama faz fronteira entre o Peru e o Chile, cobrindo grande parte da faixa costeira do Pacífico. É um vazio poeirento e quase lunar, onde se situam as maiores minas de cobre do mundo, Calama. É, sem dúvida, um lugar agreste e inóspito, mas onde não existe monotonia de formas e relevo. As extensões de pedras e areia distribuem-se por entre montanhas e dunas em forma de meia lua moldadas pelo vento. A tonalidade das cores quentes varia em função da luminosidade dos raios solares, e a resistência de plantas e animais que o habitam não páram de nos surpreender.

Passado S. Pedro de Atacama (um oásis no meio do deserto), entra-se novamente na Bolívia, desta vez para visitar a região dos "salares" (lagos salgados), dos "geysers" de El Tatio e das caldeiras de água escaldante e vapores de enxofre que se libertam das entranhas da terra, a a 4380 metros de altitude, que nos recordam as furnas açorianas da ilha de S. Miguel.

Dia após dia, a paisagem continua a surpreender, combinando os mais diversos tons ocres e castanhos das rochas com as lagoas verdes e vermelhas, onde as colónias de flamingos rosa se refugiam para nidificar. As lagunas Verde e Colorada são apontadas como as de maior relevo, mas outras há com mais encanto e beleza. No horizonte, ergue-se o vulcão Licamcabur (5980 metros), que se mantém parcialmente em actividade.

Salar de Uyuni Para Sul, em direcção à Argentina e à medida que diminui a altitude, a paisagem enriquece-se de vegetação e relevo, com destaque para o "canyon" da cordilheira de Lipez que conduz à vila de Tupiza. Restava o último grande atractivo da viagem, o salar de Uyuni. Imagine-se a rolar por uma imensidão plana a perder de vista, entrecortada de "ilhas" de rocha vulcânica povoadas por solitários cactos. Está em pleno coração dos Andes bolivianos, no meio de um lago salgado do tamanho do Algarve.

Na linha do horizonte, onde o céu azul se confunde com o branco resplandecente do sal, adivinham-se os primeiros contornos da montanha e avista-se a primeira luz da aldeia de Jirira, a 3370 metros de altitude. O objectivo parece próximo mas ainda dista umas boas dezenas de quilómetros. É preciso prestar atenção às margens mais traiçoeiras e às zonas de menos consistência, onde um jipe se pode afundar por inteiro. O ciclo do salar princípia na estação das chuvas, entre Outubro e Abril, quando a terra absorve a água e a encaminha para os salares. Na estação seca, ao emergir de novo e evaporar-se para a atmosfera, a água das lagoas deposita à superfície este sal mineral, em parte aproveitado pelos habitantes das margens do Uyuni, sob a forma de blocos que são, depois, exportados para os países vizinhos.

Apesar de habituados à visita de turistas, geólogos e outros forasteiros, os habitantes de Jirira desenterraram o "machado de guerra" e abriram valas no caminho de acesso à aldeia. A caravana não poderia passar sem previamente acordar uma portagem que permitisse a comunidade beneficiar da sua visita. Acalmados os ânimos mais exaltados, o jantar foi servido nos bancos da escola local, que serviu igualmente de tecto por duas noites.

A Expedição Terrano II Sul-América aproximava-se do fim. Restavam, apenas, dois dias de viagem para atravessar as pampas argentinas, passar pelas cidades de Tucumán e Córdoba e chegar a um merecido descanso em Buenos Aires.

Expedição Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal
Expedição Seguinte