Refúgios em Tempo de Guerra - I

Textos e fotos: Alexandre Coutinho

ver Parte II

Se está farto de ouvir falar em guerras e atentados, se quer fugir à recessão e se ainda acredita que há lugares paradisíacos no mundo, não espere nem mais um minuto e siga as nossas indicações.

O turismo e os transportes aéreos, foram os primeiros sectores de actividade a sentir o impacte dos atentados terroristas nos Estados Unidos. Muitas viagens de férias e negócios foram canceladas ou adiadas sine die, por receio de novos atentados com recurso aos aviões, pelo regresso do medo de voar ou, simplesmente, por efeito da fobia que se apoderou das autoridades em matéria de segurança dos aeroportos. Outras pessoas, ainda, optaram por não viajar para destinos mais longínquos, de forma a não ficarem retidos nessas paragens em caso de guerra.

Por outro lado, algumas regiões do planeta, como o Médio Oriente e o Norte de África foram de imediato classificadas como instáveis ou perigosas para viajantes ocidentais, conhecidos os antagonismos e o ódio nutridos por algumas comunidades islâmicas mais fundamentalistas.

Em contrapartida, determinados destinos valorizaram-se como alternativas seguras para viagens de lazer, revelando-se como verdadeiros refúgios para todos aqueles que não abdicam da liberdade de viajar ou para os que queiram pôr-se, desde já, a salvo e longe de qualquer cenário de guerra.

O editor das Viagens no Meu Planeta seleccionou seis destes destinos, que não hesita em recomendar nos próximos meses, mesmo em caso de uma hipotética terceira guerra mundial. São todas ilhas que oferecem a paz, tranquilidade e riquezas naturais mais do que suficientes para garantir a sua sobrevivência. Para mais, em todas elas a língua mais falada é o português, o que contribui para uma melhor adaptação.


AÇORES, arquipélago português constituído por nove ilhas e situado em pleno Oceano Atlântico. Todas as ilhas poderão constituir lugar de refúgio, excepto a Terceira, por abrigar a base americana das Lajes, que constitui um alvo militar de importância estratégica em caso de guerra. Recomenda-se, em particular as ilhas das Flores e do Corvo.

Ilha das Flores e Ilha do Corvo: As Ilhas perdidas no Atlântico

Ilha das Flores Na rota de ligação entre a Europa e a América (curiosamente, já situada na placa continental americana), é crescente o número de iates que fazem escala na Ilha das Flores, atraídos pela sua posição geográfica e pelos serviços de apoio dos portos das Lajes e de Santa Cruz. Todas as ilhas açorianas são conhecidas pelo verde das suas pastagens ou pelo azul das suas lagoas, mas nenhuma terá, porventura, tantas cascatas e cursos de água a serpentear pelas encostas, colinas ou falésias como as Flores. A Cascata da Ribeira Grande, na Fajãzinha, com uma queda de água de centenas de metros, é a mais impressionante de uma série de duas dezenas de cascatas, muitas das quais se precipitam para o mar.

Além das acolhedoras vilas (Santa Cruz e Lajes das Flores) e povoações (Fajã Grande, Fajãzinha, Lajedo ou Ponta Delgada), onde se podem saborear os melhores peixes e mariscos, muitas são as atracções naturais. Destaque para as sete lagoas situadas no seu planalto central, no lugar das crateras vulcânicas que deram origem à formação da ilha: a lagoa Funda ou Verde, a mais funda e com margens revestidas de hortênsias; a Branca, a Seca, a Comprida, a Rasa; a Lomba, mais afastada e rodeada de pastos; e a Funda das Lajes, a maior e, talvez, a mais bonita.

Pelo facto de ser a mais ocidental do arquipélago, a Ilha das Flores é a mais exposta aos caprichos do clima do Atlântico. Quando menos se espera, o viajante pode ficar retido durante uma semana na ilha, impedido de voar ou navegar para o exterior.

Ilha do Corvo Quando se avista a ilha a partir das Flores, em dias de céu limpo, o Corvo atrai pelo verde vivo da vegetação que recobre as suas encostas montanhosas. No Topo, distinguem-se as casas de Vila Nova do Corvo, a mais pequena e menos populosa vila de Portugal. Não é fácil chegar ao Corvo. Primeiro, há que contar com a bondade dos elementos, especialmente o estado do mar, já que o barco constitui o meio de transporte mais expedito e natural de abastecimento dos corvinos. No Inverno, o vento e a ondulação deixam a ilha isolada ao longo de várias semanas.

O desembarque é feito no porto, no interior do molhe de abrigo. Não muito distante, está igualmente o aeródromo, onde aterram pequenos aviões da SATA duas vezes por semana. O Caldeirão, apenas visível em dias descobertos de nevoeiro, constitui a grande atracção da Ilha do Corvo. É a imensa cratera (com um perímetro de 3400 metros e uma profundidade de 300 metros) que resta do fenomenal vulcão que esteve na origem da ilha, onde repousa agora um lago tranquilo. Alguma agricultura (milho) e gado bovino (carne, leite e queijo) constituem as principais actividades económicas e a fonte de subsistência dos corvinos desde os primeiros anos de povoamento (meados do século XVI), mas a ilha é muito pobre.


CABO VERDE, arquipélago atlântico composto por dez ilhas, das quais se destacam duas - S. Vicente e Boavista - que representam dois estilos de vida e ambientes distintos. A primeira, mais dinâmica e empreendedora, a segunda, mais tranquila e repousante.

Ilha da Boavista e Ilha de S. Vicente: Um segredo bem guardado

Ilha da Boavista A Ilha da Boavista é, ainda, um segredo bem guardado, apesar de se encontrar a pouco mais de meia hora de voo da vizinha Ilha do Sal, destino único de muitos turistas que demandam as ilhas de Cabo Verde todos os anos. Com efeito, apenas, os viajantes e os turistas mais informados seguem para a Boavista, disfrutando dos seus extensos areais desertos, do seu mar cor de esmeralda e da hospitalidade natural das gentes da ilha.

Sol, mar e praia constituem os maiores atractivos, para além da gentileza da sua população e da gastronomia local, tipicamente caboverdiana e reforçada pela abundância de bom peixe e marisco. É o local ideal para quem procura umas férias repousantes, longe do bulício dos grandes centros turísticos. A tranquilidade e a paz reinantes explica, também, as razões da escolha dos seus imensos areais pelas tartarugas marinhas, em época de desova (Primavera e Verão).

Apesar dos seus 620 quilómetros quadrados (é a terceira maior ilha do arquipélago), a Boavista é uma das ilhas mais áridas, secas e baixas (o seu ponto mais elevado, o Pico da Estância, tem 380 metros) de Cabo Verde, mas não menos rica na diversidade de paisagens e passeios que possibilita aos visitantes.

Sal-Rei, a "capital", é uma pequena vila de casario colorido e de inspiração europeia, com alguns testemunhos de um rico passado comercial, quando a ilha exportava sal, tinturas para têxteis, algodão, gado, cal e cerâmica em grandes quantidades. Seja dia ou noite, Sal-Rei vive a calma e tranquilidade de uma vila onde, praticamente, não circulam automóveis e se pode ir a pé a todo o lado. É como se o tempo estivesse suspenso por uns dias, uma sensação verdadeiramente incomparável.

S.Vicente é uma ilha bastante seca, ocasionalmente bafejada por uma precipitação mais abundante no fim do Verão (Agosto ou Setembro) que sacia a terra ressequida e transforma a paisagem árida das suas serras em encostas verdejantes. A mais emblemática é o Monte Cara (pela silhueta de um rosto humano que o seu recorte apresenta), junto à Baía do Porto Grande e a mais elevada é, precisamente, o Monte Verde (774 metros). A agricultura e a criação de gado estão confinadas aos vales férteis que rasgam o centro da ilha, mas S.Vicente depende das produções agrícolas com origem nas ilhas vizinhas de S.Antão e S.Nicolau ou da importação de bens alimentares de Portugal, Brasil e Holanda. Com 227 quilómetros quadrados, é a terceira ilha mais pequena (depois da Brava e do Sal) entre as dez que constituem o arquipélago de Cabo Verde.

Mindelo Muito centrado na cidade do Mindelo ou na Praia da Baía das Gatas (celebrizada pelo festival anual de música que ali é organizado desde 1984), o turismo ainda não se afirmou como motor de desenvolvimento em S.Vicente. Esta situação é tanto mais injusta, porquanto a ilha dispõe de outras praias com grandes potencialidades - casos da Praia Grande, da Praia de Salamansa, da piscina natural de Porto do Calhau e da Praia de S.Pedro (junto ao aeroporto), muito elogiada pelos praticantes de windsurf.

A cidade do Mindelo é uma das poucas cidades do mundo onde se respira uma atmosfera invulgar e muito própria, que é sempre difícil descrever por palavras. Ao clima ameno, pautado por uma temperatura suave, juntam-se a harmonia do traçado das ruas e as reminiscências da arquitectura portuguesa em edifícios admiravelmente preservados. Todavia, a atmosfera do Mindelo é indissociável da hospitalidade e do calor humano das suas gentes. É difícil encontrar melhor receptividade e simpatia que a dos caboverdianos. Do atendimento nas lojas, hotéis e restaurantes aos taxistas, passando pelos simples transeuntes que cruzamos na rua e nos indicam uma direcção, todos se revelam prestáveis e exprimem uma hospitalidade natural para com os estrangeiros, especialmente, se forem portugueses.


S. TOMÉ E PRÍNCIPE, arquipélago de duas ilhas, situado no Golfo da Guiné. A recente eleição do novo Presidente da Republica, Fradique de Menezes poderá pôr fim às quesílias internas e à instabilidade política e social que caracterizou os últimos anos.

Ilha de S. Tomé e Ilha do Príncipe: O coração de África

S. Tomé Se gosta de umas férias de aventura, de partir à descoberta de praias desertas e da selva tropical, do contacto com as populações locais e, sobretudo, de África, vai ficar maravilhado com este paraíso perdido no meio do Golfo da Guiné, mesmo em cima da linha do equador. Longe dos principais fluxos turísticos e empobrecido por uma excessiva dependência da cultura do cacau (cujo preço já viu melhores dias e enfrenta, hoje, a concorrência de maiores produtores), S. Tomé e Príncipe conserva ainda intactas todas as suas potencialidades. Nos últimos anos, multiplicou-se o número de unidades hoteleiras e existem projectos para a construção de novos empreendimentos. Além de alguns europeus, o alvo preferencial são os sul-africanos, sobretudo, os amantes da caça submarina e da pesca grossa em alto mar. As águas de S. Tomé fervilham de peixe e marisco e são o domínio privilegiado do atum, dos golfinhos, dos espadartes, da barracuda gigante, do "Blue Marlin" e todos os seus primos, inclusive, do tubarão.

E, para além das pescarias, o que tem S. Tomé e Príncipe para oferecer aos visitantes?

Um clima ameno ao longo de todo o ano, apenas um pouco mais quente nos meses de Verão no hemisfério Sul (Dezembro a Fevereiro); uma população hospitaleira, que o acolherá de braços abertos; praias desertas de areia branca, rodeadas de coqueiros que vão até à beira mar; paisagens deslumbrantes no interior da ilha, com cascatas, vegetação luxuriante e, até, selvas impenetráveis, onde reinam macacos, papagaios e as terríveis cobras pretas (cuja mordedura é venenosa).

Ilha do Príncipe A pequena Ilha do Príncipe, situada ao Norte de S. Tomé não tem, infelizmente, muito mais a oferecer do que a sua companheira de arquipélago. Merece uma visita de um dia ou dois e só os mais estóicos viajantes encontrarão aqui motivos para permanecer mais tempo (à excepção dos turistas alojados no complexo de "bungalows" do Ilhéu Bom Bom, gerido por sul-africanos e com estadias pagas a peso de ouro).

Os edifícios da vila de Stº. António encontram-se em acelerado estado de degradação, a luz eléctrica falta com frequência, o alojamento limita-se à Pensão Palhota e a dois restaurantes. As limitações estendem-se à falta de viaturas para alugar e à quase total ausência de estradas para percorrer a ilha (entretanto, reconquistadas pela selva). Destaque, mesmo assim, para a praia Banana, o miradouro da roça Belo Monte e a praia Évora. A única forma de dar a volta à ilha, é de piroga!


ATLAS DOS DESTINOS A EVITAR EM VIAGENS DE FÉRIAS OU NEGÓCIOS

Afeganistão - País de acolhimento de bases militares de terroristas e principal alvo de retaliação dos Estados Unidos, em caso de ataque militar.
Irão - Regime fundamentalista islâmico, onde a segurança dos ocidentais poderá estar em risco em caso de guerra.
Iraque - Ditadura anti-americana e anti-ocidental.
Paquistão - Único país a reconhecer o regime Taliban do Afeganistão. No centro do teatro de guerra, caso os americanos optem por um ataque militar.
Iémen - País islâmico com algumas zonas controladas por guerrilheiros, onde os ocidentais correm o risco de ser raptados.
Algéria - Grupos fundamentalistas ameaçam todo e qualquer ocidental.
Serra Leoa - País sem lei, nem qualquer tipo de salvaguarda de garantias ou direitos individuais.
Caxemira - Riscos de rapto por parte da guerrilha que reivindica a autonomia do território da Índia.
Sri Lanka - Terrorismo interno dos grupos Tamil.
Angola - Segurança precária devido às acções de guerrilha da UNITA, falta de infraestruturas e corrupção.
Sudão - País em guerra civil.
Somália - País em guerra civil.
Burundi - Guerra tribal entre Tutsis e Hutus.
Congo - Corrupção activa e passiva.
Israël/Palestina - Guerra não declarada, mas efectiva, entre judeus e palestinianos.
Coreia do Norte - Ditadura comunista fechada.
Filipinas (Ilha de Mindanao) - Raptos da guerrilha islâmica local.
Chipre - A sua localização estratégica no Mediterrâneo foi decisiva para a instalação de bases militares britânicas que, hoje, constituem um alvo preferencial em caso de alastramento do teatro de guerra àquela região.
Egipto - Ocasionalmente fustigado por ataques terroristas contra turistas, perpetrados por organizações extremistas islâmicas como a Al-Jihad e a Gama'a Al-Islamiyya, o Egipto poderá passar, muito rapidamente, de país islâmico pró-ocidental a um destino de risco elevado a evitar.
Aceh (Indonésia) - Alguns territórios da Indonésia já se encontravam a "ferro e fogo" muito antes dos atentados do dia 11 de Setembro, nos Estados Unidos. A ilha de Aceh continua a ser palco de uma autêntica guerra civil entre cristãos e muçulmanos, que só terminará com a independência do território e um possível desmembramento da própria Indonésia.
Turquemenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Kirquistão e Cazaquistão - Estas antigas repúblicas soviéticas são, maioritariamente, habitadas por populações islâmicas e encontram-se numa posição delicada no presente teatro de guerra: A Norte, a vizinha Rússia, aliada dos Estados Unidos no combate aos Taliban do Afeganistão e apoiante da guerrilha da Aliança do Norte; a Sul, o próprio Afeganistão, de onde receberam milhares de refugiados nos últimos anos; na Fé, a pressão para não quebrar os laços de solidariedade da religião islâmica, que os impede de combater outros povos muçulmanos. Egipto - Ocasionalmente fustigado por ataques terroristas contra turistas, perpetrados por organizações extremistas islâmicas como a Al-Jihad e a Gama'a Al-Islamiyya, o Egipto poderá passar, muito rapidamente, de país islâmico pró-ocidental a um destino de risco elevado a evitar.

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