VIAGENS NO MEU PLANETA - EXPEDIÇÕES

logo:jipes Camel Trophy «Tierra del Fuego» Logo: Jipes
NOS CONFINS DA PATAGÓNIA

Em 1998, um reporter das «Viagens no Meu Planeta» teve o privilegio de acompanhar as duas últimas etapas do Camel Trophy «Tierra del Fuego» até ao "fim do mundo". De Santiago do Chile a Ushuaia, na Argentina, atravessando a Patagónia e a Terra do Fogo, os portugueses viajam sempre com o sentimento presente de reviver a passagem de Fernão de Magalhães por estas paragens, há mais de 500 anos.

Texto e fotos: Alexandre Coutinho

Um estrondo ensurdecedor rasga subitamente o silêncio, vibrante e aterrador como um trovão. A pouco mais de 200 metros do glaciar, as atenções centram-se de imediato no último desprendimento de gelo que se abate sobre as águas dos lagos Brizo Rico e de Los Tampenos. A violência do desmoronamento desfaz a parede do glaciar, num misto de estilhaços de gelo e de grande blocos, que partem à deriva feitos icebergues, numa longa e inexorável transformação em água.

O glaciar Perito Moreno, um dos últimos glaciares vivos do Planeta, estende-se numa frente de cinco quilómetros que avança continuamente sobre o lago Argentino. Sob a pressão incalculável do glaciar, a falésia de gelo estala e não resiste ao estrangulamento das montanhas que formam as margens do lago, ao choque térmico e à fusão das suas moléculas em água. Ciclicamente (o último caso ocorreu em 1988), as tensões acumuladas nesta luta de titãs provoca um desprendimento geral de toda a parede, que atinge, em média, os 50 a 60 metros de altura. Um dia, o degelo dos glaciares da Patagónia será um barómetro do aquecimento global do Planeta.

Um pouco mais a sul, já do lado chileno, pontifica o glaciar Grey, no centro do estonteante desfilar de vales, lagos, rios e montanhas que constituem o Parque Nacional de Torres Del Paine. Criado em 1959 e declarado "reserva da biosfera" pela UNESCO, em 1978, é conhecido pelos seus penhascos ("Cuernos del Paine") que se elevam a 2600 metros. É, provavelmente, o melhor parque natural de toda a América do Sul. Os seus 240 mil hectares abrigam mais de uma centena de espécies de aves e duas dezenas de mamíferos, entre os quais pumas, raposas, lebres, veados e guanacos. O guanaco (da família dos lamas) é um dos animais mais emblemáticos da Patagónia. Desloca-se, geralmente, em manadas de 20 ou 30 indivíduos, mas não é difícil encontrar animais isolados. Nas montanhas e ao largo da costa avista-se com frequência o rei dos Andes, o condor, com o seu voo majestoso e uma envergadura de asa que pode chegar aos três metros.

Território de extremos

Dependendo das definições, a Patagónia é a região mais austral da América do Sul, rodeada pelos oceanos Pacífico e Atlântico e tendo por limites, a norte, os rios Colorado e Bío-Bío. Esta enorme península com mais de um milhão de quilómetros quadrados corresponde a um terço do Chile e da Argentina, mas é habitada por apenas cinco por cento da população dos dois países. Verdadeira espinha dorsal, os Andes (com picos acima dos sete mil metros) fazem da Patagónia um território de extremos naturais: a oeste, a faixa de montanhas chilenas densamente povoadas de florestas; a este, a meseta semi-árida argentina.

«Em Puerto Montt, só temos duas estações: a do Inverno e a dos comboios», o comentário ouvido da boca de um guia turístico poderá, certamente, ter algo de exagerado. Mas o vento frio e a chuva que cai ininterruptamente naquela manhã de Agosto (Inverno, no Hemisfério Sul), faz temer o pior relativamente ao clima da Terra do Fogo. As próprias casas de madeira (a matéria-prima por excelência da região) são pintadas das mais variadas cores para contrastar com o tempo frio e cinzento. As temperaturas médias não ultrapassam os 10 graus centígrados, no Verão, e os zero graus, no Inverno. Os ventos sopram com maior intensidade na Primavera e no Verão, e as precipitações anuais são da ordem dos 600 milímetros.

Deixando para trás a civilização, é o regresso aos grandes espaços, às paisagens onde os olhos se abrem, grandes, e os pensamentos fluem sem se fixarem numa qualquer referência conhecida. Apesar de deslumbrante, a região nunca recuperou da catástrofe ecológica da queima da floresta nativa pelos pioneiros, no início do século. O objectivo era desbravar o mato para abrir campos de pastagens e culturas, mas ninguém contava que o clima conservasse os troncos caídos ao longo de décadas. Ainda hoje, largas extensões da Patagónia chilena são constituídas por vastos cemitérios de árvores centenárias. Estima-se que foram destruídos, desta forma, mais de dois milhões de hectares de floresta virgem.

Ao passar, de novo, a fronteira da Argentina, a paisagem muda radicalmente. De um lado, a floresta e as encostas de montanha batidas pelo vento e pela neve, do outro, a paisagem sem fim de um deserto de pedras ou as pampas de vegetação rasteira, uma planície apenas entrecortada por rios e desfiladeiros. Ao longe, o cone e a cratera de um vulcão extinto.

As pistas são largas, de bom piso, mas traiçoeiras nas curvas e nos desníveis. Apesar das distâncias, estas pistas estão perfeitamente sinalizadas, ao contrário do que sucede no Peru e na Bolívia. No ar, o pó típico de toda a região andina entra progressivamente no carro, nas roupas e, claro, no nariz.

À entrada do Parque Nacional de Pali-Aike, três jovens raposas Zorro Gris aguardam com muita curiosidade a azáfama dos fotógrafos para captar a sua imagem através das objectivas. Foram introduzidas pelos colonos com a missão específica de neutralizar a população excedentária de lebres, também elas introduzidas pelos pioneiros uns anos antes. Este é, por excelência, o território dos nandús, primos do avestruz africano, mas bem mais pequenos.

Subitamente, as montanhas dos Andes desaparecem, dando lugar a uma "pampa" a toda a largura do horizonte e uma costa entrecortada por múltiplos riachos e estreitos que o mar envolve tranquilamente.

Na pista de Fernão de Magalhães

Chegámos ao fim da América do Sul enquanto continente (Cabo Virgenes) e, finalmente, ao célebre Estreito de Magalhães. Do outro lado, a ilha da Terra do Fogo, baptizada com este nome por Fernão de Magalhães, dada a enorme quantidade de fogueiras acesas pelos índios Onas e Yamanas nas suas margens. Os índios mantinham-nas acesas noite e dia, como forma de protecção contra o frio e para cozinhar os alimentos.

Atravessámos o estreito de «ferry boat» (cerca de 20 minutos) na sua zona mais estreita, para Punta Delgada. De Puerto Arenas a Porvenir, a largura do estreito requer quase duas horas para ser transposta.

«Las Malvinas son argentinas», pode ler-se em todos os postos fronteiriços e zonas militares. Nas principais localidades existem memoriais à guerra das Malvinas que opôs a Argentina ao Reino Unido em 1983, com palavras de ordem e de vingança de uma derrota mal digerida. Por outro lado, a definição da fronteira entre o Chile e a Argentina no labirinto de ilhas e estreitos da Patagónia constitui um quebra-cabeças que está longe de ser resolvido. Herança da guerra ou simples estratégia de intimidação do "inimigo", largas faixas da margem do Estreito de Magalhães estão minadas, mas sinalizadas para evitar acidentes com a população local. Curiosamente, a grande maioria nem sabe que Hernando de Magalhanes era um navegador português.

A Terra do Fogo é uma ilha sensivelmente do tamanho da Irlanda, que constitui como que uma miniatura de toda a Patagónia. A fronteira foi traçada à régua, deixando a metade ocidental ao Chile (região de Magallanes) e a metade oriental à Argentina (Província Tierra Del Fuego). O Norte é muito menos montanhoso do que o Sul, estendendo-se ao longo de pastagens para gado ovino e bovino. A estrutura agrária está organizada em "estâncias" que adoptam designações inspiradas nos ranchos norte-americanos (Florida, Califórnia, etc...). Aqui as pistas de terra são mais estreitas, mas rolantes, ondulando com a orografia do terreno.

A ilha também foi cenário de uma corrida ao ouro, da qual ainda existem ferrenhos resistentes, apesar de o filão ter acabado há muito. Marco histórico dessa época áurea, a draga mineira construída no Reino Unido em 1910 e despachada de barco para a Terra do Fogo que jaz no leito seco de um rio outrora próspero.

Aparecem os primeiros lagos gelados e tudo indica que as montanhas vão regressar à paisagem. Finalmente, Ushuaia («baía que penetra até ao poente», na língua dos índios Yamanas). A cidade mais meridional do Planeta foi erigida numa belíssima baía do Canal Beagle e está rodeada por montanhas cobertas de neve. O cenário ultrapassa tudo o que o visitante esperaria do fim do mundo, a escassos 130 quilómetros do Cabo Horn e a pouco mais de mil quilómetros da Antárctida.

Fundada a partir de uma missão anglicana em 1871, Ushuaia foi escolhida, no início do século, para a construção de uma colónia penal. Mas cedo ganhou galões como base naval da Marinha Argentina (1950) e foi sempre crescendo ao ponto de ter duplicado a sua actividade nos últimos 12 anos. Hoje, vivem na cidade entre 42 e 45 mil pessoas e chegam continuamente novos habitantes. Como capital da Província da Terra do Fogo, alberga cerca de cinco mil funcionários públicos, e como zona livre de impostos, atraiu as mais variadas indústrias: electrónica, pesca e turismo.

Expedição ou rali-paper?

Expedição de aventura ou gigantesco rali-paper? O Camel Trophy «Tierra del Fuego» 98 percorreu com sucesso, durante três semanas, as pistas e montanhas da Patagónia chilena e argentina, numa prova disputada por 20 equipas de outros tantos países, entre os quais Portugal. E, tal como no ano passado, na Mongólia, o Camel Trophy experimentou uma fórmula bem diferente da tradicional caravana de jipes, onde as equipas de cada país se revezavam no comando da expedição, abrindo caminho por entre a selva, construindo pontes e estradas onde fosse necessário.

Longe vão, também, os anos em que o «Camel» era uma prova para homens de barba rija, amantes de todo-o-terreno puro e duro. De acordo com o modelo do Camel Trophy ecológico, o jipe leva os concorrentes até onde legalmente possa levá-los. Isto é, os carros estão proibidos de sair dos trilhos existentes e, muito menos, de fazer corta-mato. É aí que entram em cena as bicicletas de montanha, as canoas e, este ano, os esquis, raquetas e «snowboards», como equipamentos indispensáveis para chegar aos locais onde estão os preciosos pontos que ditarão a classificação final e por troféus das equipas.

Em substituição das antigas «special tasks» vividas, muitas vezes, entre todos os concorrentes (o lendário «espírito Camel»), a prova passou a privilegiar o espírito competitivo mais comum ao desporto. Ao contrário das provas realizadas na Mongólia - concentradas nos «meeting points» e dando total liberdade aos participantes nos percursos de ligação -, o «Tierra del Fuego» assemelhou-se mais a um rali de todo-o-terreno, com um «roadbook» contendo mais de duas centenas de «discovery» e «adventure locations», que as equipas podiam visitar entre o nascer e o pôr-do-sol, recolhendo o máximo de pontos possíveis. Em consequência, não havia tempo a perder, nem para almoçar ou jantar, quando mais para contactar as populações locais ou fotografar a paisagem. A maior tirada, entre Puerto Ibañez, no Chile, e El Calafate, na Argentina, foi de 914 quilómetros, completada em 18 horas de condução.

Não se poderá dizer que a organização arrumou o «espírito Camel» na gaveta, mas testemunhámos que, por força de só se encontrarem nos «meeting points», metade dos concorrentes chega ao fim da prova sem conhecer a outra metade! Naturalmente, as afinidades culturais e linguísticas cedo conduziram os portugueses a um maior contacto com espanhóis, canários e argentinos (ao ponto de o castelhano se tornar a segunda língua oficial do «Camel», depois do inglês).

Pela primeira vez, na história do Camel Trophy, os concorrentes mal precisaram de cozinhar e montar tendas, procurando ao fim do dia um tecto mais sólido e o conforto de uma pensão, hotel ou "cabanas" (estalagens) da vila mais próxima. Quando não havia, um palheiro ou uma escola primária de aldeia também serviam. Tudo, menos perder tempo a montar e desmontar tendas sob a chuva, o vento e o frio. Enfim, um «Camel» mais civilizado.

Em 1998, cada equipa era constituída por duas viaturas: um Land Rover Freelander para os concorrentes e dois jornalistas, que transportava algum material, e um Land Rover Defender conduzido por um «support driver» da organização e mais dois ou três jornalistas, além do restante equipamento e bagagens, bicicletas, esquis, pranchas de «snowboard», canoas insufláveis e jerricans de água e combustível, só para citar os mais pesados.

O Camel Trophy «Tierra del Fuego» partiu de Santiago do Chile, seguindo em direcção a Ushuaia, na Argentina. Em Pucon as equipas escalaram em conjunto o vulcão Villarica (2847 metros); mais a sul, foi a vez de experimentarem as fortes sensações de um «rafting» em águas bravas, no rio Futaleufú, e de uma caminhada sobre os gelos do glaciar Grey.

Ao longo do percurso, realizaram-se diversas provas de canoagem em rios ou lagoas, percursos de bicicleta de montanha, descidas de pistas de esqui, etc... Cada equipa era livre de optar pelas provas a fazer, de acordo com a sua estratégia, aptidão técnica ou capacidade física. Longe de rumar a Ushuaia pelas pistas mais rolantes, o Camel Trophy levou mesmo os concorrentes aos confins da Patagónia. Pelo meio, não se livraram de alguns "atascanços" na lama ou na neve.

Os franceses foram os mais premiados, conquistando o tão cobiçado troféu de vencedores e o prémio atribuído aos desportos andinos (esqui e «snowboard»), seguidos dos sul-africanos (que ganharam os troféus de condução e de espírito de equipa) e pelos ingleses. Portugal terminou em quinto lugar, a escassos 22 pontos das Canárias, e a Espanha (representada pela primeira equipa totalmente feminina que disputou um Camel Trophy) conquistou o sexto lugar e o troféu Land Rover. A vitória nas bicicletas de montanha foi para a Suíça e, na canoagem, para a Itália.

Expedição Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal