logo:jipes Ilha de Goreia - Senegal Logo: Jipes
MEMÓRIAS DA ILHA DOS ESCRAVOS

Longe vai o tempo dos escravos na ilha de Goreia. O antigo entreposto de homens é hoje uma atracção turística para quem passa por Dakar, a pouco mais de um quarto de hora de "ferry-boat". Mas, algo de místico permanece ainda na atmosfera da ilha, acentuado pela luz suave do entardecer no ocre das casas arrumadas em ruas estreitas traçadas a régua e esquadro. A ilha foi declarada Património Mundial pela UNESCO, em 1978.

Texto e fotos: Alexandre Coutinho

As reduzidas dimensões da ilha de Goreia - 900 metros de comprimento, por 400 metros de largura máxima, num total de 28 hectares - não permite a circulação de automóveis. Os passeios são todos feitos a pé, entre o Castel (resultante de fortificações datadas de várias épocas) e o Fort d'Estrées (construído entre 1852 e 1856), terminando geralmente com um copo na esplanada da Hostellerie du Chevalier de Boufflers - o único hotel da ilha -, nome que evoca o Governador do Senegal, entre 1785 e 1787.

Sob uma capa de aparente modernidade, feita de muito comércio e serviços, a cidade de Dakar continua 100% africana: suja, poluída, com um trânsito caótico e fervilhante de pessoasOs portugueses foram os primeiros europeus a estabelecer uma feitoria na ilha de Goreia (1444), a partir da qual organizavam todo o comércio com o continente. Após 150 anos de domínio português, a ilha mudou de mãos por várias vezes (holandeses, ingleses e franceses). O seu nome deriva do holandês, Goe-ree - o porto -, por oferecer um excelente porto de abrigo, protegido de eventuais ataques vindos do continente e ponto de partida de navios negreiros. Daqui partiram mais de 15 milhões de escravos em direcção à América (Louisiana, Cuba e Haiti), dos quais seis milhões não sobreviveram à viagem através do Atlântico.

Catedral de Dakar, para uma minoria de católicos. A maioria da população (80 a 85% segundo diversas fontes) é musulmanaO nosso velho guia descreve com uma emoção que o passar dos anos e o número infinito de vezes que já entrou na Maison des Esclaves (construída pelos franceses em 1786) não conseguiu atenuar, as condições sub-humanas por que passaram em Goreia, antes de embarcarem pela "porta de não retorno" - direito às américas ou às mandíbulas dos tubarões (sorte a que eram votados os mais fracos e doentes).

Em cubículos que não excediam oito metros quadrados, amontoavam-se até 40 homens ou mulheres. Daqui saiam, apenas, uma vez por dia para fazerem as suas necessidades; ao lado, as raparigas estavam proíbidas de sair e dispunham somente de um buraco no chão; uma centena de crianças eram arrumadas num estreito corredor, onde a taxa de mortalidade rondava os 60%. Por cima, os traficantes dispunham de aposentos espaçosos, com grandes janelas acessíveis por uma escadaria, cozinha e varanda com vista para o mar.

Artesanato. Dakar é uma das cidades com maior oferta de arte africanaOs homens eram escolhidos pelo seu peso que, no mínimo, tinha de ser de 60 kgs; as mulheres pela generosidade dos seus peitos; e as crianças, pela saúde da sua dentição. Já no barco negreiro, além de fortemente acorrentados, os escravos eram encaixados como sardinhas em lata, com os pés para a cabeça do vizinho e assim sucessivamente, em fileiras sobrepostas de beliches de madeira a todo o comprimento do porão.

Muitos negros norte-americanos descendentes de escravos oriundos das costas do Senegal vêm, todos os anos, em peregrinação à casa de onde partiram os seus antepassados. O próprio Papa João Paulo II visitou o local, em Fevereiro de 1992, pedindo publicamente perdão em nome dos europeus, por todo o mal causado a África com o flagelo da escravatura. Mas, tal como frisava o nosso guia, «não eram os brancos que iam ao mato caçar escravos. Eram os próprios chefes das aldeias e tribos que vendiam os seus irmãos».

Regresso a Dakar

A ilha de Goreia é acessível de «ferry-boat», hora a hora, a partir do porto de DakarSob uma capa de aparente modernidade, feita de muito comércio e serviços, a cidade de Dakar continua 100% africana: suja, poluída, com um trânsito caótico e fervilhante de pessoas. Apesar de uma grande percentagem de musulmanos (80 a 85% segundo diversas fontes), estamos longe de assistir a comportamentos próprios de seguidores do Islão em tempo de ramadão, o que nos leva a crer não existir grande número de praticantes efectivos.

Se há uma regra de trânsito que seja nas ruas de Dakar, é seguramente a da prioridade absoluta ao automóvel sobre os demais veículos e transeuntes. As passadeiras para peões não são mais do que elementos decorativos e, muitas vezes, um ponto preferencial para ser atropelado. Na prática, vale tudo, até passar por cima. Cada condutor tenta "safar-se" do trânsito o melhor que pode e sabe, ultrapassando pela direita e pela esquerda, ao sabor das "abertas" criadas no trânsito ou antecipando qualquer paragem ou mudança de direcção de outro veículo.

Com um trânsito assim, não surpreende a frequência de "toques", choques em cadeia e mesmo acidentes, o que se reflecte na degradação do parque automóvel, à imagem da generalidade das cidades africanas. Há carros que circulam bastante danificados, amassados, empenados, sem amortecedores, com ópticas partidas ou mesmo sem luzes.

Fort D'Estrées. A última fortificação construída pelos franceses e é hoje um museuPior do que em Marrakech ou Nairobi, o trânsito de Dakar fica ainda um pouco aquém do de Mombaça, especialmente à noite, quando os intermináveis engarrafamentos finalmente abrandam. O fenómeno assusta, naturalmente, qualquer ocidental menos familiarizado com África e, até há casos de portugueses multados três vezes no mesmo dia, por desobediência a um sinal de stop, pisar de traço contínuo e circulação numa rua de sentido proíbido.

Verdadeiro fenómeno de resistência e fiabilidade, os "transports en comum" efectuados por furgonetas de passageiros Saviem e Mercedes (as mais antigas decoradas em tons de azul e amarelo) asseguram o fluxo vital de movimentação a milhares de senegaleses que vivem em redor da capital. A cidade é, também, servida por algumas linhas de autocarros da companhia local Sotrac, mas o meio de transporte mais popular, são as referidas furgonetas, por sinal, maiores que as carrinhas japonesas utilizadas noutros países africanos.

Algo de místico permanece ainda na atmosfera da ilha de Goreia, acentuado pela luz suave do entardecer no ocre das casasDiversos mercados e um porto movimentado completam o cenário, sem falar nas centenas de vendedores ambulantes, ardinas, pedintes e extropiados de guerra (Casamança, Mauritânia, Guiné-Bissau). No entanto, a uma oferta em grande quantidade, nem sempre corresponde em qualidade, a começar pelos hotéis que supostamente afixam cinco estrelas à entrada, quando mal passam de umas três estrelas. O único verdadeiro "cinco estrelas" é, inegávelmente, o Méridien Président, na Pointe des Almadies. A praia, aqui, revela-se no entanto uma tremenda desilusão. Um palmo de areia nem sempre limpa, rodeada de rochas negras que teimam em separar o banhista das redentoras águas do Atlântico.Para disfrutar de um verdadeiro areal, há que seguir alguns quilómetros pela costa, até Yoff. A oferta de estabelecimentos comerciais, restaurantes, bares e hotéis supera a da maioria das grandes cidades africanas. Duas cervejas dominam as mesas dos cafés, bares e restaurantes: "La Gazelle", servida em garrafas de 0,63 L, é leve, quase um "panaché", ideal para beber em quantidade sem risco de efeitos secundários; a "Flag", já pode considerar-se uma verdadeira "pilsener", com um gosto mais pronunciado e um bom trago, indicada para acompanhar os excelentes peixes ("thiof", "turbot" e "rascasse") e mariscos grelhados.


BLOCO NOTAS

País: República do Senegal (20/6/1960)

Área: 196192 km2

População: 10 milhões de habitantes

Capital: Dakar

Moeda: Franco CFA (câmbio em 2000: 30$00 = 100 CFA)

Idiomas: Wolof, fulani, francês, árabe e outros dialectos

Vacinas: Nenhuma obrigatória, recomenda-se a profilaxia da malária

Documentos: Passaporte e seguro de viagem

Hora: GMT

Destino: Ilha de Goreia, a cerca de um quilómetros e meio de distância da costa, frente a Dakar. O seu comprimento é de 900 metros, com uma largura máxima de 400 metros, num total de 28 hectares. Habitam na ilha um milhar de pessoas.

Guias: West Africa - Lonely Planet, 1995 (www.lonelyplanet.com)

Acesso: Por «ferry-boat», de hora a hora, a partir do porto de Dakar.

Clima: Seco e tipicamente sub-sahariano, com uma curta época das chuvas de Julho a Setembro. Dakar é, no entanto, uma das cidades mais frescas da África Ocidental.

Equipamento indispensável: Vestuário desportivo de cores claras; sapatos de ténis ou sandálias; chapéu, óculos de sol, bolsa de primeiros socorros (leve os seus próprios medicamentos), protector solar, binóculos, máquina fotográfica e câmara de vídeo.

Código de preservação: Não fume ou apague cuidadosamente todos os cigarros. Transporte todo o lixo até encontrar um recipiente próprio. Lembre-se que as populações têm os seus próprios hábitos e costumes. Peça autorização antes de fotografá-los, especialmente, em zonas de maior influência musulmana.

Regras de segurança: Em Dakar, não se aventure sozinho à noite pelas ruas do centro da cidade. Atenção à actuação dos «pickpockets», às ofertas de lembranças e de serviços de pseudo-guias turísticos.

Endereços úteis:
Ilha de Goreia

  • www.rapide-pana.com/demo/pays.an/goree.htm
  • www.ac-versailles.fr/etabliss/Toussaint/vschoel/histoire/eco/goree/goree.htm
  • www.ovpm.org/ovpm/sites/adakar.html
  • http://orly.org/goree.html

  • «Ferry-boat»
  • http://senegal-online.com/senega67E.htm

  • Hostellerie du Chevalier de Boufflers
  • www.boufflers.com

  • Senegal
  • www.infoplease.com/ipa/ao107951.html
  • www.geocities.com/Athens/Forum/8932/senegal.html
  • www.sas.upenn.edu/African_Studies/Country_Specific/senegal.html

  • Dakar
  • www.optonline.net/comptons/ceo/01229_A.html
  • Viagem Anterior
    Canal Temático
    Topo da Página
    Página Principal
    Viagem Seguinte