Boneco AmazoniaBoneco Amazonia Três dias numa aldeia Macuxi
INDIOS SOB FOGO CRUZADO

Texto e fotos: Alexandre Coutinho

Os índios Macuxi ocupam uma vasta área índigena (1 milhão e 678 mil hectares) no Norte da Amazónia e do Estado de Roraima, bem junto da fronteira com a Guyana. Estão distribuídos por várias comunidades, há muito sedentárias e familiarizadas nos contactos com os brancos, que se dedicam à agricultura e à criação de gado.

Passados os tumultos em torno da demarcação da Área Índigena da Raposa/Serra do Sol do início do ano - a aplicação efectiva da portaria depende do Presidente Fernando Henrique Cardoso e a saída dos fazendeiros brancos está suspensa -, os índios Macuxi debatem-se, agora, com a luta pelo direito ao seu desenvolvimento económico.

À revelia da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), orgão estatal de tutela sobre os índios brasileiros, os povos índigenas da Amazónia estão a ganhar cada vez mais autonomia social e política, criando organismos próprios e procurando desenvolver projectos na área do ecoturismo, que se transformem numa nova fonte de receitas para as comunidades.

A melhor forma de chegar à Maloca da Raposa é de carro, seguindo ao longo de cerca de 160 quilómetros por uma pista de terra batida e atravessando o rio Branco de balsa, pouco depois de sairmos de Boavista. A viagem pode durar quatro ou cinco horas, tudo dependendo da época do ano, das chuvas e do estado de conservação da pista.

Na origem da formação da Maloca da Raposa, está uma numerosa família de índios Macuxi que, um dia, trocou o planalto no coração da Serra de Xumina, pelos vales mais fertéis no sopé da montanha, acedendo também a muitos dos benefícios da sociedade moderna: luz eléctrica de gerador (quatro horas por dia), água canalizada, telefone, televisão com antena parabólica, escola com pavilhão desportivo coberto e, até, transporte regular em omnibus para a capital estadual, Boavista. Na ruas da aldeia, o melhor meio de transporte é a bicicleta, mas há já quem tenha jipes e "pick-ups".

Ali vivem perto de 600 pessoas, das quais, mais de 300 são crianças. Ainda há muitas casas construídas com tijolo de terra cozida ao sol e recobertas de folha de palma, mas a maioria das famílias optou por construir, mesmo ao lado, outra casa em tijolo de forno ou por rebocar com cimento as paredes da velha casa. As latrinas são construídas fora das casas, mas não existe saneamento básico, nem fossas sépticas. À volta, os terreiros estão limpos, há árvores de fruto e de sombra e uma cerca onde as galinhas, os porcos e os cães circulam livremente. Até os cavalos pastam por toda a aldeia!

A adesão ou cedência aos encantos da sociedade ocidental não comprometeu a sua identidade e cultura próprias, a começar pela língua Macuxi, que é ensinada às crianças na escola, a par do português e do inglês. «Se Deus criou as línguas das tribos é para conservar. Porque é bonito, não é feio», observa o chefe da aldeia, o "tuxaua" Caetano Raposo, um homem maduro, de rugas vincadas e bem constituído, que aparenta ter mais de 50 anos.

O papel dos mais velhos

Cabe aos mais velhos, com destaque para o ancião Jaime Fidel (65 anos) manter vivas as tradições orais, nomeadamente, danças e cantares, junto dos mais novos. Apesar da idade avançada, é dos primeiros a levantar-se e a percorrer na sua bicicleta os pontos nevrálgicos da aldeia. Preocupado em bem acolher os visitantes, é amigo de uma boa conversa à sombra da grande maloca onde estendemos as nossas redes.

A sobrinha do "tuxaua", Lídia Raposo, recebe-nos com uma rodada de caixiri, sumo do fruto do mesmo nome, de cor rosa aroxeada, que ganha algum teor alcóolico quando fermenta e é apresentado como o "vinho dos índios". Em cada dia da nossa estada na Raposa, brindou-nos com os melhores pratos da gastronomia Macuxi, onde não faltou o frango caipira; o pacú e o tucunaré de "monjicada" ou "da murida" (muito picante); a carne guisada com massa de abóbora ou de mandioca, além dos absolutamente imprescindíveis acompanhamentos de arroz, feijão, massa e farinha de mandioca.

Na Maloca da Raposa está tudo a postos para construir instalações próprias para turistas e um pequeno restaurante com especialidades locais. Passeios a pé ou a cavalo pelas serras circundantes, banhos na cachoeira e no igarapé do Veneno e visitas às jazidas de quartzo e ametistas, poderão tornar-se nas maiores atracções da região. Para já, o clube das mulheres já recebeu encomendas para três centenas de peças de cerâmica Macuxi, ainda fabricadas de forma primitiva, sem recurso à roda de oleiro ou ao forno.

Atributo exclusivo das mulheres, o transporte do barro até à aldeia reveste-se, ainda hoje, de um ritual muito especial: «já a minha avó, quando ia pegar o barro lá na serra, pedia licença á mãe-terra e explicava-lhe que, através das panelas feitas a partir daquele barro ela também ia comer o peixe e a carne cozinhados. Antes de partir, deixava pedaços de pano no local, como oferendas», explica Lídia Raposo.

Na aldeia vizinha da Maloca de Napoleão (designação atribuída pelo fundador da comunidade), vive Maria Camila - mais conhecida por "vóvó Mariquinha" -, uma anciã centenária (110 anos?), que nos seus tempos de menina e moça (14/15 anos) integrou o grupo de índios Macuxi que ajudou o General Cândido Rondon a delimitar as fronteiras no Norte do Brasil. Não se recorda de quantos dias andou pelas montanhas com o General Rondon, mas lembra-se que eram muitos carregadores índios e que chegaram ao Monte Roraima (2727 metros), na cordilheira que, hoje, faz a fronteira com a Venezuela e a Guyana. «Um sítio onde chove sempre», faz questão de frisar.

A "vóvó Mariquinha" é uma lenda viva do povo Macuxi, sempre muito resguardada pelos seus netos e bisnetos, receosos da utilização que as histórias escritas a partir das suas memórias acabem por se tornar uma fonte de rendimentos comerciais. Consciente da sua mais-valia, o índio já não teme que lhe roubem a alma, mas sim os direitos de autor.

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