As Toupeiras da Verdade
Boneco: Policia Vermelha e Toupeirinhas
Os "clandestinos" da Web na China


Entrevista publicada no Expresso em versão reduzida
Jorge Nascimento Rodrigues em Xangai


Diagramas Tu Bei Tu Tudo começou com um despacho da Reuters de Beijing anunciando que "anónimos" tinham lançado a primeira publicação electrónica não censurada dentro da China, integralmente em chinês.

A informação é compilada dentro do país por "toupeiras da verdade", e por razões de segurança é enviada para os Estados Unidos, sendo "paginada" e reexpedida para dentro da China, através de correio electrónico para uma lista que hoje já tem milhares de subscritores.

O nome de baptismo foi "O Túnel" (The Tunnel) e a data de lançamento 3 de Junho passado - data simbólica, recordando os acontecimentos de 1989 na Praça de Tiananmen em Beijing. Ainda não há versão em língua estrangeira (ainda que o possa consultar on-line, com algum cheirinho de inglês e um pouco de pimenta de gozo aos costumes), mas o acesso aos bastidores não tem nada de filme de espionagem do outro lado do "muro".

Um simples contacto virtual com alguém que assina "no nobody" a partir de um endereço (voice@earthling.net) e o EXPRESSO teve a sua entrevista. Nos anos 80, a imprensa chinesa não censurada era afixada em jornais de parede no "Muro da Democracia", não muito longe da célebre praça de Beijing, e depois dos acontecimentos trágicos nela ocorridos em 1989 a oposição usou o fax e a telecópia. Agora, deu-se o salto tecnológico.

Mas o movimento em curso tem outros traços e insere-se numa onda geral de corrida à Net. Que o digam os "Cafés Internet" em Xangai ou em Beijing tão apinhados de gente como os «Hard Rock Café» daquelas cidades à noite.


Como é que vos surgiu a ideia de lançar "O Túnel" através da Internet?

TÚNEL - A Internet dá a oportunidade a cada um para trocar ideias, de um modo mais barato, totalmente cómodo e mais eficaz. E mais seguro tanto para os emissores, como para os receptores. No passado, as pessoas na China só podiam saber as coisas através do correio (de superfície), por telefonemas, ou a partir de gente que vinha do estrangeiro. Alguns de nós já tinhamos esta ideia de uma revista on-line na cabeça, até que apareceu a Internet na China. Mas, no início, um conjunto de problemas impedia-nos de a lançar. Problemas técnicos, de tempo e de dinheiro. Passo a passo, resolvemo-los e aqui estamos.

Contudo, vocês fazem-no apenas através do corpo da mensagem enviada por correio electrónico?

T. - Na China, como sabe, o governo monopoliza as fontes de informação e a capacidade de "navegar" é muito limitada, pois a velocidade de transmissão de dados é muito baixa [a 14,4 Kbps]. Por isso, decidimos que "O Túnel" na Net deveria circular por correio electrónico, o que é cómodo para todos.

Mas é possível aceder a ele na Web?

T. - Sim, para quem o consegue, há uns amigos no estrangeiro que o têm alojado numa «home-page», onde há alguma informação em inglês.

Quando pensam que será possível editar uma versão completa em inglês para gente que não leia mandarim, sobretudo para quem, fora da China, queira ter uma versão independente do que se está a passar no vosso país?

T. - Bom, como não temos muitas mãos, ainda não estamos a fornecer uma versão em inglês. Esperamos que mais gente se junte a nós, e colabore nisso. Nós precisamos, de facto, de atingir essas pessoas que estão interressadas na China, mas que não conseguem ler o chinês.

Mas, consideram "O Túnel" um chapéu político para a dissidência, ou têm outro tipo de movimento em mente?

T. - Nós não nos consideramos "activistas da democracia" [nome dado aos membros do movimento do "Muro da Democracia" em 1979/1980, que ficaram célebres pelos jornais de parede em prol da democracia], nem "dissidentes". Essas etiquetas foram coladas pela imprensa internacional. É claro que, ao dizer isto, não somos contra esses movimentos chineses. O que estamos a fazer é diferente. Não somos uma força política. Só queremos a liberdade de expressão e de imprensa, e os direitos humanos básicos.

Mas por mais quanto tempo crêm que durará esta janela de oportunidade sem que haja uma intervenção do «leizi» (calão local para a polícia das comunicações), das autoridades chinesas do Departamento de Segurança Pública?

T. - Não sabemos. Tudo depende do avanço da tecnologia. De um lado, há o "departamento respectivo", que tem tentado bloquear a informação e descobrir-nos. Pelo nosso lado, tentamos melhorar constantemente o nosso sistema e o nosso conhecimento. É quase como um concurso [símbolo de risos]. Vocês podem acompanhar e ver no que isto vai dar.

Como é que avaliam o presente desenvolvimento da Internet na China? Os números falam em 105 mil utilizadores actualmente, apesar de todas as dificuldades, e algumas estimativas para o ano 2000 apontam para mais de dois milhões de utilizadores [estudos da IDC]...

T. - É difícil responder. Mas, estamos em crer, que, no futuro, haverá um grande desenvolvimento.

Cibercafé de Xangai - Foto Digital Sony / JNR E o que é que acham da presente febre de criação de cafés Internet nas grandes cidades da China? A Unicom associada à Sparkice (empresa chinesa) prevê lançar uns 100 novos cafés no próximo ano nas dez principais cidades.

T. - É um fenómeno muito intetessante. Para enviar informação, não há problema. O problema é para receber. Mas, de qualquer modo, com o desenvolvimento da rede, cada vez mais chineses se envolverão na Net.

As autoridades chinesas e alguns dos fornecedores chineses de serviços pensam que a Internet é, de facto, inevitável e, mesmo, um bom negócio. Singapura é um exemplo sempre citado. Mas olham-na através de uma Grande Muralha virtual, de um «wangguan» (à letra, muro na Net), para controlar o que se recebe e manter os conteúdos "limpos" de poluição "mental". Acham que está é a via correcta para a modernização da China?

T. - É uma questão muito sensível aqui na China, e tem sido debatida desde o início do lançamento da Net. Para se definir se uma coisa é "boa" ou "má", há muitos critérios, dependendo do lado de que se está. Mas, a nosso ver, uma pessoa sã (fisica e mentalmente) deve ter o direito de saber o que quiser saber.


DIRECTO AO TÚNEL - duas entradas:

  • www.freeyellow.com/members/tunnel/index.html
  • www.geocities.com/SiliconValley/Bay/5598

    AVISO: Estes "links" estão sujeitos a acções regulares de pirataria procurando danificá-los. Como já sucedeu com o anterior www.brother.net/politics/tunnel.html. Portanto poderão haver alterações sem aviso prévio.

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