Geo-Protagonistas
I - O «Challenger»

China: Os trunfos do Dragão

Por Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Janeiro de 2005

Três livros de 2005 para saber mais
Xangai domina valorizações no Nasdaq em 2004
"Transition Report" em inglês (uma edição Gurusonline.tv) com entrevistas a Zhibin Gu, Chalmers Johnson e André Gunder Frank

A emergência da China como potência global é provavelmente o facto mediático mais importante de 2004. As propostas e surpresas sucederam-se. Um "think-tank" de Genebra muito prestigiado propôs a inclusão da China num G4 (clube dos grandes, com EUA, Japão e União Europeia (ler "Os próximos senhores do mundo"), enquanto que a influente Goldman Sachs abertamente sugeriu a criação de um F8 agrupando os ministros das finanças e os presidentes dos bancos centrais dos EUA, Japão, China, Reino Unido, Canadá e três da Eurozona, que substituiria o actual G7/G8, considerado "obsoleto".

A revelação pela revista The Economist ("Special Survey on China's Economic Role", 2 a 8 de Outubro de 2004) que a China será a primeira potência económica mundial em 2020 - se o seu PIB for medido em paridade de poder de compra - deixou muitos leitores em todo o mundo estupefactos; a Goldman Sachs só o previa para 2050! Mesmo que a China abrande da actual média anual de 9,5% desde 1978, para 7% a 8% de crescimento ao ano nesta década, a sua ascensão a número um é irreversível, garante a revista inglesa. É a China que está a segurar a economia mundial desde a recessão de 2001 nos Estados Unidos - a dinâmica chinesa representa 25 a 30% do crescimento mundial actual.

No final do ano, as surpresas ainda bateram à porta. O negócio surpresa da IBM com a Lenovo - a marca internacional da Legend, a líder das tecnologias chinesa criada em 1984 por Liu Chuanzhi, um membro da Academia de Ciências da China - deixou muitos analistas de boca aberta. O balanço do ano do Nasdaq - a mais importante bolsa de tecnologias do mundo - revelou que os dois IPO (entradas em bolsa) mais valorizados eram empresas oriundas de Xangai (ver caixa).

1. Os reféns da China

Este disparo da China tem tido consequências macro-económicas profundas, que os economistas e os analistas deixaram de ignorar. 2004 foi o ano em que a "sensibilidade" das "commodities" ao disparo da procura na China não pôde ser mais ignorado. A revista The Economist - no "survey" já referido - alega que 50% do aumento do seu índice de "commodities" é fruto do impacto da China.

O petróleo é provavelmente o caso mais emblemático. Para além do "prémio de guerra", derivado da geo-estratégia da Administração Bush (que adicionará uns 10 a 15 dólares ao preço "spot"), os especuladores estão a antecipar também um "prémio China". «O país asiático é o segundo consumidor mundial a seguir aos EUA desde 2003 e foi o responsável por 2/5 do crescimento do consumo do petróleo desde 2000. Vai ter de importar 55% das suas necessidades em 2020», refere o analista e consultor chinês Zhibin Gu, colunista de Gurusonline.tv e "partner" do grupo Adventus. Mas o impacto é generalizado em todos os mercados de "commodities" - a China é o maior consumidor de aço (30% do mercado mundial), carvão (40%), cobre e cimento.

Mais crítica ainda é a dependência dos EUA em relação aos financiamentos chineses.

Paradoxalmente, com a Administração Bush, os EUA tornaram-se num país devedor crónico que alimenta a sua resposta à recessão de 2001 com produtos baratos vindos de fora que fica a dever e com o dinheiro das poupanças dos orientais. Falam por si, o facto da Ásia ser responsável por 4/5 do défice comercial dos EUA (a China, só por si, alimenta 1/5) e da China deter 45% das obrigações do tesouro norte-americanas. «Isto tudo só ameaça os EUA com a bancarrota. O último infortúnio da hegemonia dos EUA vai ser a ruína financeira. O que vai levar certamente a uma crise», disse-nos Chalmers Johnson que lançou em Nova Iorque um livro sobre o tema intitulado sugestivamente "The Sorrows of Empire".

2. A bomba atómica

«Este arranjinho estoirará mais tarde ou mais cedo», avisa André Gunder Frank, um europeu especialista no Oriente ouvido por Gurusonline.tv. O risco é que a China em particular deixe de sustentar esta pescadinha de rabo na boca do financiamento do consumismo e do hegemonismo norte-americanos e pegue no que Frank chama de "bomba atómica". «A China poderá decidir passar, de um momento para o outro, a denominar as suas exportações na sua própria moeda, em yuan», sublinha Frank. Por seu lado, Peter Cohan, um analista de Boston, "partner" do Grupo Adventus, refere que «basta que a China decida fazer flutuar a sua divisa, o que ainda desvalorizará mais o dólar e fará disparar ainda mais a dívida americana».

As consequências já estão previstas. A taxa de juro nominal nos EUA terá de regressar a valores historicamente "normais" entre os 4 e 5%, sublinha o The Economist. O dinheiro barato acabará. A "bolha" imobiliária nos EUA estoirará, provavelmente em 2006, adverte Peter Cohan. E o dólar terá de desvalorizar ainda mais (uns 10% a 15% ao ano).

3. Nomes para decorar

Menos falada é a emergência das empresas globais chinesas. O negócio da Lenovo com a IBM surpreendeu muita gente. «Os ocidentais vão ter de passar a decorar mais nomes», diz-nos Zhibin Gu, autor de uma trilogia de livros sobre a China, cujo segundo volume ("China's Global Reach") será publicado este ano. As empresas chinesas mais dinâmicas vão continuar a ir a compras ao estrangeiro. Há já 15 grandes empresas chinesas nas 500 maiores do mundo da Fortune - as petrolíferas, quatro bancos, vários operadores de telecomunicações, China Life, a BaoSteel e a SAIC (Shanghai Automotive Industry, que tem uma aliança com a GM).

As petrolíferas - como a China National Petroleum Company (CNPC) e a Sinopec - terão de prosseguir a política de alianças estratégicas em várias partes do mundo (como Irão, Venezuela, Canadá, Gonselho do Golfo, Brasil, Bacia do Cáspio) e de investimento em activos estrangeiros. Para se perceber a postura destas empresas, basta recordar que a CNPC reclamou junto da Fortune o facto de estar classificada em 73º lugar nas 500 do mundo - o que levou a revista americana a rever em subida, para o 52º posto. Nos investimentos do ano, a Sinopec anunciou em Novembro que realizara um acordo no Irão para desenvolver o campo petrolífero de Yadavaran e para comprar durante 30 anos gás natural liquefeito. A BaoSteel, noutra "commodity", está a desenvolver uma "joint-venture" no Brasil e estuda outros locais como Canadá, Austrália e África do Sul. Nas telecomunicações, a China Mobile e a Unicom lideram o maior mercado de telemóveis do mundo (330 milhões em finais de 2003).

Nas tecnológicas, Zhibin Gu aconselha a seguir as trajectórias da TCL (que comprou a Schneider na Alemanha em 2002), da Huawei, da Haier (maior fabricante de electrodomésticos), da Galanz (40% do mercado mundial de micro ondas e com fábricas deslocalizadas nos EUA), da Chonghong, Ningbo Bird, Kellon, Konka e D'Long (que comprou a Murray nos EUA). Peter Cohan, por seu lado, aconselha a seguir de perto os IPO chineses em Nova Iorque e afirma que estão no seu "radar" os casos da Suzhou Gude Electronics, Hongrun Construction Group, Zhejiang Jiangshan Chemical, China Construction Bank, e Shenhua Group.

Geo-Protagonistas é uma série do portal Janelanaweb.com que abordará os principais factores geo-económicos de várias potências que vão marcar o século XXI.

Para saber mais
Três livros em 2005
China's Global Reach
«Um novo equilíbrio de poder emergirá gradual e indirectamente»
Zhibin Gu
Haworth Press, 2005
No campo da geo-política muito se tem discutido se a China será o "desafiador" ("challenger") da hiperpotência incumbente, os EUA. Os chineses, por ora, ficam "chocados" com a afirmação. «Os estrangeiros falam mais desses efeitos do que nós. Muitos chineses ficam mesmo chocados com isso. A China não está preparada para desempenhar um papel desse tipo à escala global. A China sofreu muito no passado por se julgar o centro do mundo. Hoje em dia, muitos chineses preferem ser aquele que está a seguir ao líder. A China tem sido muito cautelosa de forma a que a geo-política não estrague o desenvolvimento económico. Trata-se de uma estratégia de longo prazo e de uma mentalidade dominante», sublinha ao Expresso Zhibin Gu, um consultor nascido na antiga capital Xian, doutorado nos EUA e radicado hoje em Shenzhen, perto de Hong Kong. Gu vai publicar China's Global Reach em breve, mas o livro já está a ser um "best-seller" de encomendas na Web. Gu admite que a emergência da China e da Índia implique «um novo equilíbrio de poder que poderá emergir gradualmente, e provavelmente de um modo indirecto». O livro chama a atenção que a China, além de se ter transformado num «grande teatro de operações» fabris de baixo custo, está «a expandir-se em todas as direcções, incluindo a Investigação & Desenvolvimento, a área financeira e os serviços. É um enorme 'pool' de talento».
The Sorrows of Empire
«Os Estados Unidos estão a percorrer o mesmo caminho da defunta URSS. O que abre uma janela de oportunidade»
Chalmers Johnson
Metropolitan, 2004
Encomenda na Amazon
Capa do livro The Sorrows of EmpireA constatação pode "chocar" os europeus e certamente muito mais os americanos. «Os Estados Unidos estão num caminho de declínio similar ao da defunta URSS até ao seu colapso em 1991. Mas sendo os EUA a mais rica e mais poderosa das duas antigas superpotências da Guerra Fria, certamente que a sua esclerose levará mais tempo. O que abre uma janela de oportunidade para desafiadores globais», refere ao Expresso o professor Chalmers Johnson, presidente do Japan Policy Research Institute, sediado nos Estados Unidos, e autor de The Sorrows of Empire, publicado em 2004, o segundo livro de uma trilogia sobre o declínio dos EUA, que terminará, este ano, com o lançamento de Twilight of the American Republic. Chalmers tem parte da sua vida ligada ao Japão nos anos 50 e 60, e hoje considera esse país-milagre «o doente da Ásia, correndo o risco de se transformar numa espécie de Argentina do Pacífico». «A China está destinada a ser uma superpotência. Esse facto poderá ter implicações militares no futuro, se os EUA arriscarem aventuras, mas tudo indica que a força económica da China lhe dará paz e estabilidade», sublinha Chalmers, para acentuar a estratégia geo-económica chinesa: «A integração da China com o Japão é já um facto - a China substituiu os EUA como principal exportador para aquele país. E desenvolveu movimentos de abertura importantes, em relação ao mercado das exportações agrícolas da América Latina, e ao petróleo canadiano ou venezuelano. Também tem investimentos de longo prazo em países como o Irão e o Kasaquistão».
ReOrient
«Estamos a assistir à emergência de novo da Ásia. Regressamos ao equilíbrio de poder anterior ao século XIX»
André Gunder Frank
A publicar em 2005 a sequela de ReOrient
Encomenda na Amazon
Capa do livro ReOrient«O século XXI será, de novo, asiático. A Ásia foi predominante até ao século XIX. A China só declinou efectivamente depois da 2ª Guerra do Ópio. A hegemonia ocidental é muito recente e provavelmente passageira», afirma provocadoramente André Gunder Frank, um economista de 75 anos, nascido em Berlim e que percorreu o mundo desde os anos 30. Conhecido nos anos 60 pelas suas teorias sobre o "desenvolvimento do subdesenvolvimento" e pela sua passagem pelo Brasil de Jango Goulart e pelo Chile de Allende, Frank reorientou a sua investigação e ensino nos anos 1990 para a geo-economia e a geo-política. Actualmente está no Luxemburgo. A sua primeira obra "ReOrient" de 1998 vai ter, agora, uma sequela, em que a centralidade da Ásia no plano geo-político é fundamentada em termos históricos. Admite que a Europa seja um companheiro de viagem nesta reviravolta.

Xangai domina valorizações no Nasdaq em 2004
Os IPO tecnológicos apesar da animação em 2004, ainda não provocaram o "choque". Sinal dos tempos, os IPO com mais valorização são de tecnológicas chinesas cotadas no Nasdaq
Quatro anos depois do "crash" em 2000 no Nasdaq, o mercado de IPO (entradas em bolsa) das empresas tecnológicas animou-se, ultrapassando o buraco negro de 2003, o ponto mais baixo do ciclo das bolsas norte-americanas e europeias desde 1998. O número de entradas em bolsa aumentou em mais de 200% nos dois lados do Atlântico e os fundos movimentados até final do 3º trimestre cresceram 187% nos EUA e mais de 330% na Europa (ver quadros), segundo os últimos apuramentos realizados pelo IPOhome.com (sítio na Web de referência para os EUA) e pelo IPO Watch Europe da PriceWaterhouseCoopers..
Contudo, os analistas do IPOhome.com consideram que o ponto de viragem sustentável, ainda, não foi atingido - a prospectiva nos EUA é que os IPO atinjam em 2005 um número historicamente "normal" de 250 e que o valor movimentado possa atingir os 50 mil milhões de dólares, patamares que permitiriam "retroceder" a 1998, nas vésperas do "take off" da "bolha".
Os media especializados animaram-se com as peripécias em torno da entrada do motor de busca Google no Nasdaq e com operações europeias como a da Iliad/Free, um ISP francês, ou o Pages Jaunes, da France Telecom, no Premier Marché, em França, ou do operador móvel Virgin Mobile, no London Stock Exchange, ou ainda do operador belga Belgacon, na bolsa belga.
Apesar da boa valorização atingida pelo Google até à data (mais de 121%), o motor de busca só conseguiu "sacar" na bolsa 1,67 mil milhões de dólares em vez dos 3,5 inicialmente previstos. O percurso deste IPO foi, aliás, demorado - anunciado em Outubro de 2003 pelo Financial Times, só seria oficial em Abril do ano seguinte e só se concretizaria em Agosto passado. Os analistas dizem que «devido a estas peripécias, não provocou o choque eléctrico que se esperava».
Surpresa de 2004 - que é um dos sinais dos tempos - foi, de facto, a boa "performance" dos IPO chineses no Nasdaq. Em 25 IPO com origem estrangeira realizados no Nasdaq até à data, 11 são de origem chinesa (10 da China e 1 de Hong Kong), e os líderes das maiores valorizações foram a 51Job.com (emprego "online") e a Shanda Interactive (jogos "online"), ambas de Xangai (ver quadro).
Das grandes operações de tecnológicas realizadas na Europa, apenas a Illiad surge com uma "performance" superior a 50%.

QUADROS

10 Principais IPO tecnológicos em 2004
(No Nasdaq e Europa)
 Nome  Tipo Bolsa  Subida % 
 51Job (China) Web Nasdaq 260 
 Shanda (China) Jogos online Nasdaq 250,4 
 Cogent (EUA) Biometria Nasdaq 189,6 
 Marchex (EUA) Web Nasdaq 188,5 
 e.Cost.com (EUA) Web Nasdaq 152,1 
 RightNow (EUA) Web Nasdaq 129,6 
 Kanbay (EUA) Web Nasdaq 127,9 
 Google (EUA) Web Nasdaq 121,1 
 Interchange (EUA) Web Nasdaq 98,8 
 Iliad/Free (França) ISP Premier Marché 53,99 
 Fonte : IPOhome.com e JournalduNet.com
 Obs: Valorização até 23/12/2004

Evolução dos IPO na Europa e EUA em 2004
(3 primeiros trimestres)
 Indicadores  Europa EUA 
 Número de IPO 269 216 
 Crescimento IPO face a 2003 279% 218% 
 Fundos movimentados  18,7 mil milhões de euros   43 mil milhões USD 
 Crescimento fundos face a 2003 332% 187% 
 Fonte: IPOhome.com e IPOWatch Europe, PriceWaterhouseCoopers
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