Geo-Protagonistas

Singapura (Cingapura): um destino português
no século XXI

Regressar à cidade-Estado doze anos depois é como levar um "choque". Singapura cresceu de habitantes mais de 50%, o "boom" imobiliário é visível por todo o lado, e os portugueses regressaram, séculos depois, a estas paragens, por via dos expatriados do talento.

Três apontamentos de viagem em Abril de 2007 por Jorge Nascimento Rodrigues, editor
de Janelanaweb.com. Apoio Euronavy.

1. Passaporte dourado para o Oriente

Singapura é ponto de passagem para uma carreira internacional. Mais de uma vintena de quadros superiores entre os 26 e os 46 anos desembarcaram na cidade-estado nos últimos cinco anos. Muitos outros estudam a possibilidade de aceitar propostas para se radicar.

É uma comunidade de expatriados em crescimento, desde 2005. Já são mais de uma vintena de profissionais oriundos de Portugal exercendo cargos de gestão ou posições técnicas qualificadas em multinacionais que sediaram escritórios ou unidades de âmbito regional na pequena cidade-estado da ponta da península malaia. Algumas das marcas dos empregos são conhecidas de todos: Philips, Bayer, Total, Visa, Cadbury/Schweppes, Daimler/Chrysler, DHL.

A maioria destes quadros portugueses já tem experiência internacional, tendo feito "da mobilidade a sua lei de vida", como nos disse Nuno Jonet, 31 anos, que foi recrutado pela PSA (a autoridade portuária de Singapura que opera, também, o terminal de contentores do porto de Sines) para vir para a cidade em 2001 e que "saltou", entretanto, para um emprego tecnológico diferente, continuando "a ficar por aqui". Outro que "vai ficando" é Pedro Encarnação, 36 anos, responsável pelo departamento de aquacultura do Biomin Laboratory, que vê o regresso a Portugal ainda a alguma distância. Apesar de ter apenas 33 anos, Paulo Coimbra, gestor de informática na BHP Billiton, já tem 13 anos de expatriado, e confessa que "a escolha por uma cidade de primeiro nível mundial nos trópicos" era irrecusável.

Neste grupo de expatriados de longa duração encontramos vários casais, em que o marido "arrasta a esposa", como António Miranda, 46 anos, na Total Oil Asia, e a mulher Ana Isabel, que já percorreram vários continentes graças aos 23 anos de Total do António; João Schumann, 35 anos, gestor da Bayer Schering Pharma, e a mulher Sara; João Filipe Mota, 36 anos, gestor na Daimler Chrysler South East Asia e a mulher Luisa. Algumas das esposas viraram micro-empresárias neste "ambiente dinâmico" (ver caixa com dois casos acabadinhos de nascer). Num caso atípico, foi Carolina Silva, 36 anos, com um cargo de chefia na Philips Electronics de Singapura, que "trouxe" o marido, Rui Belchior, 37 anos, também quadro da mesma multinacional.

As micro-empresárias lusas
São duas, por ora, e prestam serviços de tipo novo, com uma procura crescente em cidades cosmopolitas, como é o caso de Singapura.
  • Luisa Mota, 34 anos, abriu a LPM, Arts - Design & Artwork, um sonho antigo, que em Portugal não pudera realizar durante os 13 anos passados na área dos media, cinco dos quais na área comercial da SIC. A vinda para Singapura com o marido foi a oportunidade para criar a própria empresa e redescobrir outras competências profissionais.

  • Bernardete Serrão, 37 anos, é casada com um quadro inglês da Ogilvy Action, responsável pela Ásia. Resolveu abrir a própria empresa , Olive Skin - Art & Style, virada para o estilo pessoal e residencial.
  • Este espírito "móvel" e "global" significa que no horizonte da carreira, a passagem pela cidade que tem como símbolo o "Merlion" (um estranho ser, meio leão, meio peixe), é como um passaporte dourado para o Oriente, uma região que todos reconhecem como "indo dominar a economia global nas próximas décadas". Singapura projectou-se estrategicamente como um dos nós desta região, a par de Xangai, Tóquio ou Hong Kong. Os dois mais novos do grupo, Pedro Oliveira, 26 anos, na Cadbury, já tem mesmo guia de marcha ainda em Maio para Xangai, e Pedro Santos, 29 anos, gestor regional na DHL Asia Pacific, "espera continuar na Ásia por mais uns bons anos, de preferência mudando para a China". Outros destinos interessantes para estes quadros "móveis" são Austrália, Índia ou Vietname.

    Apenas um caso corresponde, por agora, a uma decisão estratégica de uma empresa portuguesa criar uma "joint-venture" em Singapura. A Euronavy, especialista em tintas ecológicas para plataformas petrolíferas offshore, "despachou" como líder do projecto em 2006 para os buliçosos estaleiros de Tuas, João Azevedo, 41 anos, que considera poder ser "um primeiro caso que sirva de exemplo para outras empresas portuguesas que possam encontrar aqui oportunidades globais de negócio".

    Singapura, a pequena república baseada numa cidade-estado independente desde 1965, que tem ¼ da área metropolitana de Lisboa, já conta com 4,5 milhões de habitantes, com uma população emigrante sem estatuto de residente de quase 1 milhão que alimenta, com a sua força braçal, os sectores actualmente mais "quentes" economicamente: o incrível "boom" de construção no imobiliário (condomínios e torres de escritórios), a azáfama dos estaleiros e as mais diversas actividades de serviços, particularmente no consumismo ligado ao "shopping", ao estômago e ao divertimento. Desde 2000, a cidade aumentou a sua população em 50% e pretende, agora, repetir o mesmo crescimento com o objectivo estratégico de chegar aos 5,5-6 milhões de habitantes, mantendo a sua juventude (média etária de 36 anos) e o peso do que é designado por PMET (acrónimo para o grupo social dos profissionais, gestores, executivos e técnicos) que se aproxima dos 45% da população activa com estatuto de residente.

    ESTÓRIAS EM DIRECTO
  • Só com o bilhete no bolso
    Pedro Oliveira veio para Singapura apenas com 24 anos e um bilhete de avião no bolso em Agosto de 2005. "Queria ver a acção, por detrás da retórica, e viver Singapura como uma introdução ao mundo asiático", diz. Não tinha contrato assinado, nem garantias. Hoje está no grupo Cadbury e planeia manter-se no estrangeiro nos próximos dez anos, a maioria dos quais na Ásia. "Depois novo continente, provavelmente os Estados Unidos", conclui.

  • Recrutado em Atenas
    Fernando de Matos, 36 anos, chegou a Singapura por um percurso original. Já estava a trabalhar há oito anos no estrangeiro, quando lhe surgiu uma oportunidade na Visa Internacional. Foi entrevistado por telefone estava de calções de banho numa praia de Atenas aquando dos Jogos Olímpicos, onde fora acompanhar as provas de atletismo, e acabaria por ter a entrevista formal com um vice-presidente da multinacional...numa "roulotte" ao lado do estádio olímpico, aproveitando o facto desse alto executivo estar a assistir às finais de saltos.

  • A menos valia
    Singapura parece ser hoje um destino de quadros portugueses e começa a ser equacionado na estratégia de alguns empresários. No entanto, tem apenas um consulado, cujo funcionamento é muito criticado ("chegamos a recorrer às embaixadas de França e do Brasil"), e ainda não conta com nenhuma delegação do ICEP.
  • 2. A movida de Singapura

    Um "boom" do imobiliário e das actividades de entretenimento e lazer está a atrair mais talento internacional à cidade-Estado asiática. Até 2010 será introduzido o jogo

    Singapura é dos poucos casos mundiais de um país que, apenas em uma geração, passou da condição terceiro-mundista ao clube do 'Primeiro Mundo'. O poder de compra real multiplicou por 13 vezes desde 1975 e hoje é considerada uma das 10 cidades-globais do planeta. Na Ásia, a ambição é ombrear com Tóquio ou Xangai, e claramente colocar na penumbra Hong Kong ou Sydney.

    Para isso, o organismo oficial para o planeamento urbano quer que o arquipélago (mais de 50 ilhas e que já roubou ao mar 70 km2) chegue a uma "massa crítica" de 5,5 a 6 milhões de habitantes até 2030-2040 numa área mais pequena que a ilha da Madeira.

    NÚMEROS
  • 648 Km2
  • Área em 54 ilhas e ilhotas (em 20 anos conquistaram ao mar 70 km2). Mais pequeno que a Ilha da Madeira (736 km2)
  • 4,5 Milhões
  • População quase duplicou em vinte anos. Novo objectivo de 5,5 a 6 milhões (definido pela Urban Redevelopment Authority)
  • $ 30.900
  • PIB per capita em paridade de poder de compra, em dólares dos EUA (2006). Mais de uma vez e meia o de Portugal. Em 30 anos, o poder de compra real multiplicou por 13 vezes
  • Com tanta gente em tão pouco espaço, a única solução para vencer a "claustrofobia" de um arquipélago cuja única ligação por ponte é com o sul da Malásia (ficando Malaca a 200 km e Kuala Lumpur a quase 400, por auto-estrada), é apostar em entreter os habitantes, particularmente a classe média e os expatriados, num ambiente em que alguns indicadores de qualidade de vida são ostentados - os espaços verdes, a organização urbana, os transportes públicos e a segurança.

    O grupo social alvo deste "namoro" é o talento estrangeiro e os trabalhadores do conhecimento locais, que, no jargão oficial, são designados, em inglês, pela sigla PMET (profissionais, gestores/managers, executivos e técnicos). Os locais dizem, por piada, que os quatro actuais passatempos nacionais são ir às compras, comer com os olhos colados na liga de futebol inglesa (Mourinho e Ronaldo são comentário constante), usufruir da noite o mais possível a partir de sexta-feira e ao fim-de-semana desfrutar da ilha de Sentosa, transformada em paraíso tropical.

    À venda em bloco

    O governo não quer "estragar" a actual composição social e por isso concentra-se na atracção de expatriados e de multinacionais. A actual "febre" imobiliária de condomínios residenciais e de arranha-céus para escritórios já gerou a anedota de que Singapura "está à venda em bloco". Neste momento, há em curso, em simultâneo, seis grandes projectos assinados por arquitectos internacionais. A mania de deitar abaixo para construir de novo vê-se por todos os cantos. Antigos hotéis ou mansões coloniais são hoje uma mina de ouro - o Grand Hotel (cuja última utilidade foi de armazém) vale 150 milhões de euros; era o espaço mais caro na compra e venda de propriedades em Abril.

    Para a população imigrante pobre - por exemplo, operários indianos tamil e do Bangladesh no "boom" da construção civil e nos estaleiros navais, ou filipinas e vietnamitas nos serviços e mesmo na prostituição nocturna nas Orchard Towers ou em Geylang (uma espécie de quarteirão da 'luz vermelha') ou encapotada nas massagens e nos "karaoke" - que vai ser uma das componentes fortes do tal aumento de "massa crítica", a ausência de conflitos étnicos e raciais desde final dos anos 1960, o esforço de alojamento público e a comida barata nos "food courts" (come-se bem por 1/3 de uma modesta refeição portuguesa ao balcão) são lenitivos para a condição de "classe mais baixa" neste paraíso consumista.

    Vícios controlados

    Com uma população cada vez mais cosmopolita e face ao desafio de "importar" maciçamente expatriados e turistas, o regime, fundado por Lee Kuan Yew, um jovem que escapou por um triz à matança japonesa nos anos 1940, hoje nas mãos do seu filho Lee Hsien Loong, tem desanuviado o ambiente. Há mesmo um indicador satírico sobre os altos e baixos de abertura e tolerância oficial em Singapura. Já esteve melhor em 2004 do que estava em Abril passado. Apesar da rigidez sobre as bebedeiras, a marca de cerveja "Tiger" - criada nos anos 1930 em colaboração com a Heineken holandesa - é um símbolo nacional e um dos orgulhos de exportação.

    Numa cidade-estado conhecida pelas múltiplas proibições - as "t-shirts" com os 10 avisos são um "best-seller" -, o regime quer criar um "cluster" de entretenimento de nível mundial. O estômago e a alma podem ser enchidos e regados (desde que depois não conduza ou faça desacatos, pois as multas e a prisão são a doer) num "tour" nocturno pelo Boat Quay ou o Clarke Quay, passando pelo Hotel Raffles para beber um "Singapore Sling", e acabando na discoteca Roof num telhado ou no Ministry of Sound, ou numa sessão de "jamming" de amadores no Crazy Elephant por uma quantia inferior a uma noite lisboeta. O táxi depois para o hotel ou condomínio é baratíssimo (1/3 dos preços lisboetas) e se perder alguma coisa, há uma "hotline" e devolvem-lhe tudo na íntegra. Para os mais cultos há a programação da Esplanada, na Marina, um complexo com uma carapaça que parece a de um porco-espinho, ou vários museus e teatros com história.

    Os projectos oficiais são ambiciosos. Na Ilha de Sentosa quer abrir-se espaço ao jogo (um dos maiores vícios da Ásia), de um modo controlado, baptizando a ideia de "resorts integrados". Nessa ilha do lazer - onde um "bungalow" pode custar 4 milhões de euros -, um mega parque temático, da Universal Studios, completado por 6 hotéis e spas, deverá abrir em 2010.

    Sabor português

    Antes de regressar a Lisboa, o turista português não pode deixar de fazer uma pequena peregrinação a um local de visita de sabor português: a D'Almeida Street. Rua em homenagem a José D'Almeida Carvalho e Silva, um médico da Marinha Portuguesa que se estabeleceu em Singapura em 1825, virou homem de negócios, enriquecendo com a guta-percha (semelhante à borracha), e aqui morreu em 1850. Com uma vida conturbada, este médico viajou de Lisboa para Macau, de onde foi deportado para Goa (por ser contra o regime saído da revolução liberal em Portugal) e daí seguiu para a jovem feitoria britânica criada por Raffles. Há ainda uma De Sousa Street, em honra dos irmãos comerciantes Manuel e Tertuliano de Sousa, também do século XIX.

    DATAS
    1299: A ilha de Tumasek (Cidade do Mar) é ocupada por um príncipe budista de Sumatra e rebaptizada como Singa (Leão)+ Pura (cidade). Ao desembarcar, o príncipe garantiu ver um leão no areal.
    1819: Thomas Stanford Raffles, agente do Governador britânico da Índia, considera a ilha de pescadores, um ponto estratégico nos Estreitos, alternativo a Malaca e Batávia (hoje Jacarta), que perderam o peso estratégico que haviam tido nos sécs. XVI a XVIII aquando do domínio português e holandês. Estabelece uma feitoria da Companhia Inglesa das Índias Orientais. Deixa como responsável residente William Farquhar, que havia dirigido Malaca durante uma vintena de anos.
    1826: Singapura, Malaca e Penang formam o triângulo da Colónia Britânica dos Estreitos.
    1942-1945: Ocupação japonesa depois da rendição inglesa. 30 mil locais executados (particularmente de etnia chinesa) pela operação de "limpeza" dirigida pelos criminosos de guerra Yamashita e Tsuji. Lee Kuan Yew, então com 20 anos, que viria a ser o fundador do Estado de Singapura, escapou por um triz a ser executado.
    1959: Os britânicos dão autonomia a Singapura. O Partido de Acção Popular de Lee Kuan Yew ganha eleições e governa desde essa altura (saiu de primeiro-ministro em 1990).
    1963-1965: Atentados terroristas organizados pelos indonésios e motins de origem étnica.
    1965: Singapura sai da Federação Malaia e toma o nome de República de Singapura.

    3. A tinta "verde" que nasceu no país "errado"

    A Euronavy criada por Mário Paiva é distinguida este mês como um caso singular pela Business Week. Na mesma ocasião em que sai de Singapura rumo ao Brasil a plataforma "offshore" da Petrobras em que fez a sua maior aplicação de tintas. Foi um dos primeiros casos retratados na secção "Empresas em Mudança" do semanário português Expresso no princípio dos anos 1990 e integrou a colecção de "case studies" do livro "A Quarta Vaga" (edição dos autores, Francisco Lopes dos Santos e Jorge Nascimento Rodrigues, 1993, edição esgotada) .

    Quem ande pelos estaleiros da Keppel em Tuas, uma das zonas portuárias de Singapura, e ouça os elogios dos engenheiros da Petrobras às tintas ES301 acabadas de aplicar na Plataforma "offshore" 53 (ver caixa), fica surpreso quando se dá conta do país de origem da marca Euronavy que aparece nas latas em letras garrafais. "Portuguesa?!", interrogam-se técnicos noruegueses, malaios e chineses, que por ali abundam. A empresa é um dos casos a quem se aplica a característica de muitas "metanacionais", assim explicadas por uma equipa do INSEAD liderada por Yvez Dos: aparentemente nasceram no país errado.

    A ES301 é um sistema de tintas "verdes", baptizado a 31 de Janeiro de 1987, aquando da sua primeira aplicação de vulto para a Soponata, em Portugal. É fruto da teimosia de Mário Paiva, um ex-quadro de uma multinacional de tintas, que resolveu seguir um sonho pessoal desde 1982, no princípio num pequeno gabinete de I&D na Margem Sul do Tejo, que dava pelo nome de Estelim. Paiva conseguiu inventar uma formulação química para um tipo de tintas ecológicas para protecção de aço contra a corrosão que criou um segmento próprio onde "ainda hoje dominamos a 100%". O ICEP reconheceu a empresa como integrante da "marca Portugal" e é, também, incluída na recente publicação "Sucesso.pt", da SIC.

    "Enfant terrible"

    Mas só uma grande resiliência e "amor à camisola" aguentaram Paiva, hoje com 60 anos, e a equipa de quadros e técnicos que, a partir de uma moderna fábrica em Setúbal, fornecem hoje quase 3000 toneladas de tintas, 96% das quais são exportadas para Singapura (o destino que lidera), Brasil (onde a empresa já pinta em 14 plataformas na Bacia de Campos), Estados Unidos, China e Dubai. No sector, Paiva e as três empresas do seu pequeno grupo com pouco mais de 50 empregados são alcunhadas de "enfant terrible". Vieram mexer nos "esquemas" montados, desde há muito, pelos fornecedores, intermediários e aplicadores de tintas tradicionais, confessa-nos um quadro estrangeiro dos estaleiros de Tuas.

    As tintas são hoje famosas no sector naval do "offshore", em grande medida em virtude da aposta que a petrolífera brasileira fez na PME portuguesa e pelo facto de "ser a única fornecedora não-americana aprovada pelo Navy Environmental Health Center, ligado à marinha dos Estados Unidos", sublinha o seu criador. Paiva contou com uma "convergência" feliz para o disparo do negócio, ao fim de mais de quinze anos de luta: o disparo do preço do crude a partir de 1999, levando ao "boom" de reconversão de petroleiros em plataformas "offshore" e de construção de plataformas de perfuração, e a emergência do Brasil e da China na cena geoeconómica desde o início do século XXI. A Euronavy conta fechar 2007 com 14,5 milhões de euros de facturação e mais de 2,5 milhões de litros produzidos.

    Apesar de paradoxalmente serem 2 a 3 vezes mais caras, no momento de aquisição, a vantagem de custos da aplicação destas tintas é óbvia: não usam abrasivos mas água na decapagem de preparação de superfície, podem ser aplicadas em ambientes húmidos, mesmo debaixo de água, sem necessidade de desumidificação e inclusive sem paragem de operação das plataformas (10 a 12 milhões de dólares por dia é quanto custa um dia de gazeta), e têm maior aderência nas arestas.

    O encanto de Singapura

    Mário Paiva iniciou um movimento de "near shore" (aproximação física aos clientes) na sua presença global. A primeira medida foi a criação, em 2006, de uma "joint-venture" com um sócio malaio, a Euronavy Coatings, em Singapura, o actual pólo mundial da construção de plataformas "offshore". A euforia é tal que o governo da cidade-Estado prevê criar uma ilha artificial para concentrar as actuais quatro zonas de estaleiros. Para os estaleiros de Tuas, a empresa portuguesa despachou dois dos seus melhores quadros, João Azevedo, 41 anos, administrador da empresa singapurense, e director de marketing global, e Joaquim Duarte, 45 anos, chefe de projectos. "O encanto de Singapura vai manter-se por mais uns bons anos", diz Paiva, que espera abrir, para o ano, uma fábrica de produção de tintas na fronteira malaia para fornecer directamente Singapura.

    Segue-se na agenda de localizações globais, a possibilidade de adquirir uma fábrica no Brasil e, em seguida, na China e nos Estados Unidos. É um plano até 2012 que acompanhará "as tendências do mercado". "Se há uma característica forte nossa, é não termos reserva mental nenhuma em relação às mudanças que forem necessárias", enfatiza o fundador da Euronavy.

    A concluir Mário Paiva revelou a prenda que acabara de receber por telefone: a adjudicação pela Petrobras da pintura de mais uma plataforma, a P56.

    Um milhão de litros no Settebello
    Nas próximas semanas sairá dos estaleiros da Keppel na zona portuária de Tuas, em Singapura, a Plataforma 53 da Petrobras, onde a Euronavy aplicou a maior quantidade de sempre das suas tintas ecológicas, até à data. A área pintada pela firma portuguesa nesta unidade flutuante de produção de óleo e gás (tecnicamente designada por FPU, acrónimo para floating production unit) da petrolífera brasileira atingiu um milhão de litros, sublinhou Reginaldo Sarcinelli Filho, o gerente da Petrobras responsável pela conversão do velho petroleiro, um engenheiro do Rio de Janeiro. A encomenda representa quase 40% da produção de tinta da Euronavy estimada até final de 2007.
    Coincidência curiosa, o Settebello é um petroleiro de grande envergadura concluído na Setenave, em Setúbal, em 1983, no final de um processo atribulado - tendo acabado por ser vendido apenas em 1986 por 15% do seu custo. Depois de quase quinze anos de actividade acabou por ser adquirido pela Petrobras para ser reconvertido para a exploração "offshore" a partir de meados de 2008 ao largo do Rio de Janeiro, no campo Marlin Leste, na bacia petrolífera atlântica de Campos.
    A reconversão do navio foi verdadeiramente "globalizada" - três módulos foram construídos nos estaleiros de Niterói (Rio de Janeiro), dois outros em Tuas, em Singapura, incluindo o maior torrete do mundo até hoje implantado numa plataforma deste género, e os quatro finais no Porto Novo do Rio Grande do Sul, onde o barco deverá chegar em Agosto. A aplicação das tintas da Euronavy foi imposta pelas normas exigentes colocadas pela Petrobras aos estaleiros de Singapura. "A empresa portuguesa foi o único concorrente a atender aos requisitos de protecção anticorrosiva sobretudo nas regiões expostas à água salgada. Temos confirmado na obra o desempenho constatado nas avaliações, bem como a apoio técnico permanente no local do estaleiro", refere o gerente brasileiro da P 53.
    A colaboração da Euronavy com a Petrobras data de 2002 e, neste momento, a empresa de Mário Paiva já interveio em sete plataformas. "Como os navios terão de ser avaliados estruturalmente ao final de cinco anos, chegará, em breve, a ocasião para demonstrar os ganhos de sustentabilidade da aplicação das tintas portuguesas", conclui Reginaldo Sarcinelli Filho.
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