Reviravolta esperada na Geo-Política Mundial no século XXI
Centro Europeu propõe criação de um G4 que substitua o actual G7. No clube dos 4 "grandes" entraria a China, a par da actual hiperpotência, os EUA, a União Europeia e o Japão. Um "choque" no 60º aniversário de Bretton-Woods.
Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, entrevista Charles Wyplosz, do CERP, proponente do projecto, e James Boughton, hisotoriador oficial do FMI
IDEIA CENTRAL O declínio do peso da actual "troika" que comanda os negócios e finanças do mundo e a ascensão da China e de outros países emergentes da Ásia e da América Latina, exigem uma revisão profunda da ordem geo-económica nascida em Bretton Woods em 1944. Na semana em que os ministros dos Negócios Estrangeiros do G8 se reuniram em Nova Iorque, o Centro de Investigação em Política Económica (CEPR) propôs a criação de um G4, integrando a China, e o historiador oficial do FMI admite que a Ásia está "sub-representada" na instituição. Mais um artigo para Vento d'Oriente, na sequência do Relatório da Goldman Sachs sobre o tema.
Entrevistas em inglês em Gurusonline.tv | Quadros | Fontes Nos 60 anos da Conferência de Bretton Woods, que instituiu a carta de constituição do Fundo Monetário Internacional, e no 30º aniversário do início das cimeiras anuais do G7 (grupo informal dos sete países mais industrializados de então: Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Japão, Itália e Canadá), alguns especialistas europeus decretaram a morte, a prazo, da actual "troika" (EUA, União Europeia e Japão) que comanda politicamente as instituições económicas mundiais (como o FMI e o Banco Mundial) e os grupos informais plurinacionais, como as Cimeiras do G7, G8 (incluindo a Rússia) e G20 (ministros das finanças e governadores de bancos centrais de 20 países).
A proposta, agora surgida, é que se crie, em primeiro lugar, um G4, um directório dos quatro grandes do Planeta no século XXI - Estados Unidos, União Europeia, Japão e China - que controlam as principais divisas mundiais (dólar, euro, iene e renminbi, a moeda chinesa) e que já representam as principais economias em termos de PIB (em paridade de poder de compra), em termos de fluxos mundiais de comércio e em termos de mercados de consumo (ver quadros). Ficam de fora a libra esterlina, despromovida de divisa-chave, e o franco suíço, considerado activo de refúgio.
Em complemento, para substituir o pouco funcional G20, propõe-se a criação de um denominado Conselho para a Cooperação Internacional (CIFEC), que "acomode" para além dos quatro grandes mais 11 países que também marcam o mundo em termos geo-económicos, nomeadamente a Índia, Brasil, Rússia, Canadá e México.
«É natural que alguns países do actual G7 não gostem de ver o seu papel declinar, e que resistam, ou pelo menos façam atrasar as reformas indispensáveis», diz Charles Wyplosz, do CEPR
Quanto mais cedo melhor
"Não é que seja uma matéria de extrema urgência. Mas vai ter de acontecer, e quanto mais cedo melhor. É indispensável dar de novo as cartas para que se crie espaço para novos países com significado no mundo. É natural que alguns países do actual G7 não gostem de ver o seu papel declinar, e que resistam, ou pelo menos façam atrasar as reformas indispensáveis", referiu-nos Charles Wyplosz, um dos signatários do relatório agora lançado pelo Centre for Economic Policy Research (CEPR), de Genebra.
O próprio estudo não poderia ser mais óbvio na sua conclusão: "É muito claro que os arranjos actuais não vão perdurar. É, por isso, o momento de começar o debate sobre a sua substituição futura". O estudo propõe o G4 e um G15 no sentido de "dividir eficazmente as tarefas do actual G7 - por um lado, o tema das divisas, e por outro a agenda de questões mundiais", sublinha Wyplosz, que é director do International Centre for Monetary and Banking Studies, também na Suíça.
O relatório "International Economic and Financial Cooperation: New Issues, New Actors, New Responses" lançado pelo CERP tem dois destinatários fundamentais - a sobre-representação da Europa em virtude da fragmentação da sua participação no G7 e no FMI, e os Estados Unidos, cujo declínio geo-estratégico é cada vez mais sintomático, apesar de o não ser reconhecido pela hiperpotência. Inclusive no FMI a sobre-representação europeia (32% dos votos no Conselho dos Governadores) "tem tanto de ineficiente, por ser fragmentada, como difícil de justificar objectivamente", acentua Wyplosz, e o poder de voto atribuído à China (2,95%) que tomou o seu lugar em 1980 é inferior ao que detém a Arábia Saudita (3,23%, herdado dos "choques petrolíferos").
«É um dos reais problemas de inadequação de representação. As quotas da Ásia não acompanharam o crescimento entretanto ocorrido. Ficam muito atrás da real importância económica que esses países atingiram», diz James Boughton, historiador oficial do FMI
A "voz" da Ásia, excluindo o Japão, não ultrapassa os 12%. O próprio historiador oficial do FMI reconhece este desequilíbrio flagrante: "É um dos reais problemas de inadequação de representação. As quotas da Ásia não acompanharam o crescimento entretanto ocorrido. Ficam muito atrás da real importância económica que esses países atingiram", diz-nos James Boughton, do Policy Development and Review Department do Fundo em Washington DC.
Apesar dos membros do actual G7 deterem, apenas, 45% dos direitos de voto no FMI, como sublinha o historiador James Boughton, para recusar a ideia de uma maioria de bloqueio, o conjunto dos votos da "troika" formada pela União Europeia a 25, EUA e Japão é hoje superior a 55%. E, se amanhã, os EUA "politizarem" o controlo da NAFTA, a maioria alargada da "troika" actual subirá para 60%. Contudo, diz o historiador oficial do FMI, o problema é "atingir um consenso global sobre as mudanças para a reforma do sistema".
Contrapeso geo-estratégico
O principal beneficiário da proposta de um G4 é, naturalmente, a China, que, ao ser reconhecida formalmente como um dos quatro "grandes", alarga a sua zona de influência mundial, podendo transformar-se em "representante" ao mais alto nível geo-político de outros grandes e médios países emergentes, não só da Ásia, como de outros continentes.
Por outro lado, um G15 em que países como a China, Índia, Brasil e México (apesar de este país pertencer à NAFTA liderada pelos EUA) tivessem voz activa abriria caminho a um "bloco" de contrapeso muito importante. Recorde-se a política de alianças estratégicas desenvolvida pela China nos últimos tempos, de que são exemplos os casos recentes com o Brasil ou a Venezuela.
Por seu lado, a "racionalização" da participação europeia, é, também, uma janela de oportunidade no sentido de uma voz única, que serviria, segundo Charles Wyplosz, como "contrapeso eficaz aos EUA quando estes tentam puxar a politização demasiado longe".
AGENDA 2004-2005
1 de Outubro 2004: Reunião dos Ministros das Finanças do G7, em Washington DC 19 a 21 de Novembro 2004: Reunião dos Ministros das Finanças e dos Governadores dos Bancos Centrais do G20, em Berlim 6 a 8 de Julho de 2005: Cimeira do G8 na Escócia HISTÓRIA
1944: Conferência de Bretton Woods, no New Hampshire, nos EUA. Participam 44 países que assinam os acordos para a criação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. URSS esteve presente, mas depois não ratificaria 1947: FMI inicia operações com o caso da França como primeiro solicitador de empréstimo (25 milhões de dólares). Criação do GATT-Acordo Geral de Tarifas e Comércio 1952: Japão adere ao FMI 1967: FMI cria Direitos Especiais de Saque, um novo activo para suportar taxas de câmbio fixas 1971: Choque Nixon - EUA abandona o padrão ouro 1973: Criação do Library Group pelos principais países industrializados 1975: Iniciam-se anualmente as reuniões do G7 1980: China toma o seu lugar no FMI 1982: Crise do serviço da dívida externa no México. Risco real de um colapso do sistema financeiro internacional 1985: Acordo Plaza do G7, em Nova Iorque 1995: Organização Mundial do Comércio substitui GATT 1997: Crise financeira na Tailândia e no resto da Ásia 1998: Crise financeira na Rússia 1999: Crise financeira no Brasil. Criação do G20 2000: Crises financeiras na Argentina e na Turquia
Os 10 mais no mundo
(PIB medido em paridade
de poder de compra, 2002)Estados Unidos
Zona Euro
China
Japão
Índia
Reino Unido
Brasil
Rússia
Canadá
México
Fonte: CEPR, 2004
Os 10 mais no comércio mundial
(Fluxos de exportação e importação, 2002,&bbsp;
em mil milhões/bilhões de dólares)Zona Euro 1907 EUA 1896 China + Hong Kong 1029 Japão 754 Reino Unido 612 Canadá 480 México 337 Coreia do Sul 315 Taiwan 243 Singapura 242 Fonte: CEPR, 2004
Os 4 mais no consumismo
(Milhões de Consumidores com poder de compra, 2004-2015)Países 2004 2015 China 76 700 União Europeia 450,5 (*) 545,1 (*) EUA 236 284 Japão 110 112 Fonte: Deutsche Bank Research, China Special, 24/08/2004, e União Europeia
Notas: (*) UE25; (+)UE25 mais Turquia, Roménia e Bulgária.
Repartição actual de votos
no Board Executivo do FMI
(% dos votos totais)União Europeia a 25 32 Estados Unidos 17,11 Japão 6,14 Arábia Saudita 3,23 China 2,95 Canadá 2,95 Rússia 2,75 Índia 1,93 Brasil 1,41 México 1,20 Fonte: FMI
- Relatório do CEPR - www.cepr.org/pubs/books/cepr/booklist.asp?cvno=P171
- Edição de Setembro de 2004 da revista Finance & Development do FMI sobre os 60 anos - www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2004/09/index.htm
- Relatório da Goldman Sachs sobre a emergência dos 4 novos grandes do século XXI (os "BRICs" - China, Índia, Brasil e Rússia) - www.gs.com/insight/research/reports/report6.html
- Artigo na Janelanaweb de comentário: "O Século dos Emergentes" - www.janelanaweb.com/vento/seculo_emergentes.html
- Sítio de Charles Wyplosz - http://heiwww.unige.ch/~wyplosz/
(E-mail: wyplosz@hei.unige.ch)- Artigo de James M. Boughton, historiador oficial do FMI - www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2004/09/pdf/boughton.pdf
(E-mail: jboughton@imf.org)
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