O Século dos Emergentes

No dia do aniversário da implantação da República Popular da China - declarada em Beijing a 1 de Outubro de 1949 -, a Goldman Sachs (GS) deu um brinde ao orgulho chinês. O país do "Império do Meio", do fundador republicano Sun Yat-sen, do revolucionário Mao Zedong e do reformista Deng Xiaoping, será indiscutivelmente a maior economia do mundo em 2050, tendo ultrapassado os Estados Unidos, em termos de Produto Interno Bruto, desde 2040.

Jorge Nascimento Rodrigues, Outubro 2003, um artigo na Série "Ásia século XXI" do Canal "Vento d'Oriente", Crónicas de Jorge Nascimento Rodrigues sobre o século da Ásia

Estudo da Goldman Sachs | Os prognósticos são sempre falíveis
Entrevista com Seiichiro Yonekura sobre o futuro do Japão
Dossiê sobre a China editado pelo canal "Vento d'Oriente"
com a revista Ideias & Negócios

CONCLUSÔES
Geo-económicas de longo prazo
  • Em 2040, os 4 emergentes - China, Índia, Brasil e Rússia - representarão 50% das 10 maiores economias do mundo. Dez anos depois, a meio do século, já significarão 60%. Serão, a partir de então, a maioria. O eixo do mundo rodará para uma nova tríade: China-Estados Unidos-Índia, a que se poderá agregar a União Europeia.
  • A China ultrapassará os Estados Unidos na liderança da economia mundial em 2040. Em 2050 terá já um diferencial de mais de 10 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica e brasileira) de dólares em relação ao PIB norte-americano.
  • Em 2050, a maioria das maiores economias do mundo não pertencerá mais ao clube dos ricos (avaliados em PIB per capita).
  • Geo-políticas de longo prazo
  • O actual G6 (Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, França e Itália), a que, por vezes, se junta a Rússia (G7), deixará de fazer sentido.
  • No caso da União Europeia não se apresentar como uma realidade política única, desaparecerá em 2050 a presença individual das quatro grandes economias europeias no G6. Os quatro grandes países emergentes terão ultrapassado qualquer uma das quatro grandes economias europeias.
  • Se a U E se apresentar como um bloco único, em 2050 terá um peso superior ao do Japão e ganhará o quarto lugar no G6, depois da China, Estados Unidos e Índia.
  • O figurino ideal será, provavelmente, neste cenário, o de um G7 - China, Estados Unidos, Índia, União Europeia, Japão, Brasil e Rússia. Face ao peso avassalador da tríade China-EUA-Índia, os quatro restantes vão necessitar de estudar cuidadosamente as suas alianças.
  • O estudo da GS, publicado no passado dia 1 de Outubro (2003), tem por título "Sonhando com os BRIC - A trajectória até 2050" (no original: "Dreaming With BRICs: The Path to 2050") e foi incluído na colecção de documentos da consultora, sendo assinado por Dominic Wilson e Roopa Purushothaman (Global Economics, paper nº99). "BRIC" é o acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China, os quatro grandes países emergentes a que o trabalho de investigação faz referência, com particular destaque para a China que, daqui a quatro anos, terá ultrapassado o PIB da Alemanha.

    China ao rubro

    A China transformou-se, este ano, na vedeta de todos os estudos internacionais - nos fluxos de investimento directo estrangeiro, uma vez mais, ultrapassou os Estados Unidos como primeiro destino dos decisores de todo o mundo, segundo o Índice de Confiança publicado pela A T Kearney; nos movimentos de deslocalização ("outsourcing") é considerada a fábrica de "commodities" (mercadorias no jargão técnico) do mundo; e na projecção internacional de grandes metrópoles, Beijing vem na primeira prioridade, fora da Europa, dos decisores europeus ouvidos pela Cushman & Wakefield Healey & Baker.

    A revista brasileira "Veja" deu-lhe esta semana a capa com um especial sobre "As ambições do planeta China" (edição de 22 de Outubro de 2003) e a revista Harvard Business Review publica, em Outubro 2003, um dossiê académico sobre a "China de amanhã". São dois destaques na semana em que a euforia chinesa chegou ao rubro com a colocação independente de um astronauta chinês em órbita.

    Mas, para além do caminho de liderança económica da China, o estudo da GS mostra que, este século, será o da ascensão irreversível das outras três grandes economias emergentes - Índia, Rússia e Brasil. «O peso destes quatro será muito maior do que os investidores actualmente antecipam», disse Roopa Purushothaman, um dos autores do trabalho. Em 2040, este novo bloco representará 50% do PIB das 10 maiores economias do mundo e em 2050 já representará 60% - recorde-se que, hoje, vale menos de 15%.

    RANKING em 2050
     (biliões/triliões de dólares 
    de 2003)
     China 45 
     EUA 35 
     Índia 30 
     União Europeia 12 
     Japão
     Brasil
     Rússia

    O eixo do mundo económico terá, então, definitivamente rodado da tríade actual - herdada dos anos 70 - formada pelos Estados Unidos-Japão-Europa Ocidental para uma nova tríade formada pela China-Estados Unidos-Índia, que, eventualmente, se poderá transformar num quadrilátero estratégico adicionando a União Europeia, se esta existir politicamente. Em particular há todo um desequilíbrio a favor da Ásia - China, Índia, Japão e Rússia (que tem uma componente tanto asiática como europeia) dominarão mais de 60% do grupo das maiores economias do mundo. «Assistiremos, por isso, certamente, a importantes mudanças geopolíticas», comenta-nos Purushothaman.

    O figurino do G6 actual (Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, França e Itália) estará definitivamente enterrado.

    Impacto na Europa

    Uma das consequências profundas desta alteração é o desaparecimento das fileiras do grupo de topo por parte das actuais grandes economias europeias se continuarem a ser encaradas individualmente. Em 2050, qualquer uma das quatro grandes economias da União Europeia ficará atrás, em termos de PIB, da Rússia - a mais pequena entre as quatro emergentes.

    A única saída geo-política para a União Europeia será participar como um bloco no G6 ou G7 que se formar. «Juntando as economias do Reino Unido, Alemanha, França e Itália, este grupo terá quase o dobro do peso do Japão em 2050, mas mesmo assim representará menos de metade do PIB da Índia, quase 1/3 do dos EUA e apenas 27% do da China», refere ainda o autor do estudo.

    Mas o leitor dirá, com alguma ironia, que essa mudança ainda está longe - quatro décadas de espera é metade de uma vida. O "terramoto" geo-económico está, por isso, muito distante para que as estratégias dos gestores tenham de passar a tomar isso em linha de conta. Roopa Purushothaman discorda frontalmente: «Investir em e estar envolvido nos mercados com futuro - e particularmente nos mercados emergentes certos - pode tornar-se cada vez mais uma opção estratégica importante para muitas empresas». Recorde-se que, há 40 anos, o Japão era um país em desenvolvimento mais pobre do que a Argentina.

    A médio prazo, ainda nesta década, há duas alterações importantes que deverão ser registadas. O próprio conceito "económico" de G6 - ou G7 quando inclui a Rússia - terá de ser reequacionado. O PIB da China ultrapassará o da Alemanha em 2007 e o do Japão - a actual segunda economia nacional do mundo - em 2015. Por outro lado, a partir de 2009, o crescimento anual em dólares da despesa dos quatro emergentes poderá passar a ser superior ao do actual G6. Em 2025 será o dobro e em 2050 o quádruplo.

    Os prognósticos são falíveis
    O desígnio que a Ásia não alcançou nos anos 80 apoiada apenas na "locomotiva" japonesa, poderá, agora, no séc. XXI assegurá-lo na base da tríade China-Índia-Japão. Contudo, como adverte o estudo da Goldman Sachs (GS), a história nem sempre escreve por linhas direitas na sequência das projecções de longo prazo feitas pelos futuristas, analistas e políticos.
    Recorde-se que a antiga URSS usava na propaganda a ideia da ultrapassagem dos Estados Unidos ainda no século XX e que o Japão desenvolveu toda uma estratégia de marketing nos anos 80 apontando para roubar o primeiro lugar aos EUA. A realidade, no entanto, pregou uma partida com o desmoronamento da URSS em 1989 e com a crise estrutural do Japão que já dura há mais de uma década.
    A GS garante, no entanto, o rigor do seu modelo. «Em vez de extrapolarmos simplesmente as taxas de crescimento corrente, desenvolvemos um modelo que captura todo o processo de mudança demográfica, a acumulação de capital e a lei dos rendimentos decrescentes com o desenvolvimento. A nossa análise inclui, ainda, o impacto das taxas de câmbio na capacidade de despesa destas economias», conclui Roopa Purushothaman, um dos autores do estudo.

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