Globalização

China poderá não ser o «challenger»

diz George Modelski, o especialista americano em ciclos geo-políticos
e geo-económicos

O modelo criado pelos portugueses de Quinhentos continua a ser o segredo
do domínio global do mundo. Num novo período de transição de ciclo, o debate sobre o futuro da liderança económica e política mundial reacende-se.
O académico norte-americano George Modelski deita algumas achas
para a fogueira.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Outubro de 2004, em diálogo
com George Modelsky

Foto de George Modelski cedida pela Fundação Calouste Gulbenkian

Modelski vem a Portugal em Fevereiro de 2005
Datas históricas de referência

AS QUESTÕES PERTINENTES DA GEO-ECONOMIA E DA GEO-POLÍTICA
  • Conseguirá os EUA um segundo mandato de potência dominante a partir da disputa que se acenderá no período de 2026 a 2050, segundo George Modelski?
  • Será a China o "rival" político-militar que entrará em cena nesse período crítico, a partir da actual fase de ganho de massa crítica económico-financeira e de construção de alianças?
  • Em que medida poderá a Europa baralhar esse jogo?
  • Conseguirá a globalização económica e financeira, nesta sua terceira janela de oportunidade, aguentar-se?
  • Será possível um período de transição pacífica sem conflitos mundiais e sem recessões profundas de 1989 até meados do século?
  • George Modelski Portugal foi em Quinhentos - e durante mais de um século - a primeira potência na História da Humanidade a criar um poder global. "Sim, foi o primeiro poder global na história do sistema político mundial. Outros clamaram que governavam os quatro cantos do mundo, mas o vosso país foi o primeiro na História a criar uma estrutura político-económica de nível global", sublinhou-nos George Modelski, o académico norte-americano mais conceituado no campo das relações entre os ciclos geo-económicos e geo-políticos.

    Esse mérito de "primeiro globalizador" derivou de um conjunto de inovações geo-económicas e geo-políticas criadas pela liderança portuguesa da altura: "A criação de um sistema global de frotas, bases, alianças e rotas de comércio; a organização de um projecto colectivo de 'descobertas', e , acima de tudo, a implantação de uma instituição de liderança global, que, depois, amadureceria com o sistema mundial britânico dos séculos XVIII e XIX", acrescenta o professor da Universidade de Washington, na costa do Pacífico.

    O erro dos rivais

    O segredo do poder mundial descoberto pelos portugueses continua a ser hoje uma chave para a compreensão da evolução económica e política do mundo, adverte este professor emérito que virá a Portugal no início do próximo ano (ver caixa). "O erro dos que sempre perderam a batalha da liderança mundial derivou disto: deram prioridade aos objectivos 'clássicos' da ideia de império, enquanto que os que triunfaram optaram por políticas mais inovadoras de liderança global", sublinha-nos Modelski. Os portugueses foram os primeiros a olhar "para fora", para o mundo, em geometria variável.

    Os holandeses e os ingleses "sistematizaram" depois esse golpe de asa lusitano: optaram por ser potências marítimas e por projectar o seu poder globalmente, em vez de se consumirem nas tentativas de um poder continental europeu monocolor - ambição que mataria Felipe II de Espanha, o Rei Sol e depois Napoleão Bonaparte de França, e finalmente o Kaiser Guilherme II e Hitler da Alemanha. Os Estados Unidos, no século XX, seguiriam a mesma cartilha globalizante - o que, também, os colocou em vantagem face ao "desafiador ideológico", a URSS, que não se envolveu numa guerra mundial pela liderança. O que abriu um precedente - em rotura com a tradição de guerras devastadoras até 1945.

    Olhando para o século XXI, Modelski não acha que seja óbvio que a China venha a ser o próximo "rival político-militar" global disputando a hegemonia aos Estados Unidos, apesar da constante barreira mediática
    sobre a Nova China.

    Olhando para o século XXI, Modelski não acha que seja óbvio que a China venha a ser o próximo "rival político-militar" global disputando a hegemonia aos Estados Unidos, apesar da constante barreira mediática sobre a Nova China (veja-se inclusive a edição da revista Fortune de esta semana, com a história de capa "Inside the New China"). "A época actual, até final dos anos 2020, é de criação de coligações. Mas muitas delas são adhoc. E as que a China está a construir - como é ocaso das relações com o Brasil, Venezuela, Índia ou África do Sul - não é líquido que se transformem em alianças militares. Está ainda por provar a capacidade da China em desenvolver uma sistema mundial de alianças. Historicamente não é visível - mesmo a sua aliança nascida em 1949 com os soviéticos desmembrou-se", argumenta. Mas aconselha como bom senso que a China - e depois a Índia - seja "acomodada" nos directórios mundiais.

    Segundo mandato

    Admite, por isso, como cenário plausível que os EUA se aguentem num segundo "mandato" como hiperpotência, tal como acontecera com a Pax Britânica que se manteve nos comandos do mundo entre 1587 (derrota de Filipe II) até à emergência dos EUA após o final da guerra hispano-americana em 1898. Mas diz claramente que "isso só acontecerá se a actual direcção de política dos EUA não continuar por muito mais tempo", o que significa, nas suas palavras, que a projecção de poder actualmente ensaiada pela Administração Bush é um tiro nos pés. Sobre a reemergência da Europa é lapidar: "A agenda europeia é sustentável se se focalizar na cooperação no quadro de uma comunidade global democrática. Seria um erro se apenas procurasse criar um poder continental centralizado, não muito diferente dos estados imperiais de outrora".

    Modelski é moderadamente optimista em termos de se evitar uma nova guerra mundial nas próximas décadas. A transição de ciclo geo-político e geo-económico em curso desde 1989 e que poderá atingir um clímax entre 2026 e 2050 "provavelmente não se envolverá em mais uma guerra mundial, mas a possibilidade não poderá ser excluída".

    Modelski é, por isso, moderadamente optimista em termos de se evitar uma nova guerra mundial nas próximas décadas. A transição de ciclo geo-político e geo-económico em curso desde 1989 (altura da queda do Muro de Berlim, e regresso à situação de uma hiperpotência) e que poderá atingir um clímax entre 2026 e 2050 "provavelmente não se envolverá em mais uma guerra mundial, mas a possibilidade não poderá ser excluída". O período de transição de ciclo de 1896 (quando os ingleses descobriram estupefactos a emergência da Alemanha, através do célebre livro "Made in Germany" escrito por Edwin Williams) a 1945 concentrou duas guerras mundiais e uma das piores recessões da economia mundial. Agora Modelski acredita no crescimento "de uma organização global capaz de resolver problemas globais, daí a possibilidade de uma transição pacífica".

    Os ciclos da globalização

    A globalização tornou-se uma "buzzword" omnipresente desde os anos 80, em virtude de três fenómenos geo-políticos com uma repercussão impressionante na economia mundial - a transição da China para o capitalismo e a sua plena abertura ao comércio internacional desde as reformas de 1978-1980, a queda do Muro de Berlim em 1989 e o final dos dois "blocos", e a reabertura ao mundo da Índia desde 1991, hoje considerado o paraíso do "outsourcing". O impacto destas três mudanças começa hoje a sentir-se em mercados tão sensíveis como os das "commodities" estratégicas, de que o petróleo é um exemplo. A China foi mesmo cognominada do "maior globalizador económico" de sempre.

    Mas o termo cunhado nos anos 1960 é correntemente associado apenas ao aspecto económico e financeiro, e menos ao domínio geo-político. O mérito de George Modelski e da corrente "evolucionária" sobre o sistema político mundial (ver em http://faculty.washington.edu/modelski/) é de chamar à atenção para esta outra dimensão.

    Os ciclos de globalização económica e financeira nem sempre coincidem com os ciclos geo-políticos. Mas tecem uma malha em conjunto, em relação à qual convém estar atento.

    Mesmo após 1945, a globalização não se emancipou. Foi preciso o abandono definitivo do padrão-ouro em 1973 para permitir a nova corrida globalizadora.

    A globalização económica e financeira foi iniciada pelos portugueses em Quinhentos, mas o crescimento do comércio internacional não ultrapassou pouco mais de 1% por ano até ao Congresso de Viena em 1815 (que assinalou a derrota definitiva de Napoleão), segundo Michael D. Bordo, director do Center for Monetary and Financial History, da Universidade de Rutgers, em New Jersey (Artigo de referência na revista Business Economics, de Janeiro de 2002, sob o título: "Globalization in Historical Perspective").

    Foi de 1815 até 1914 que o crescimento do comércio mundial disparou, com um crescimento de 3,5% ao ano, no que ficou conhecido pelo período de emergência do imperialismo financeiro. Contudo, esta segunda vaga viria a sucumbir no período turbulento de trinta anos das duas Guerras Mundiais e da Grande Depressão.

    Mesmo após 1945, a globalização não se emancipou. Foi preciso o abandono definitivo do padrão-ouro em 1973 para permitir a nova corrida globalizadora, diz Michael Bordo. Os acontecimentos posteriores na China, na URSS e na Índia deram o pontapé final. A interrogação que fica é saber se esta terceira vaga durará cem anos como a anterior, ou se o período geo-político de transição que vivemos desde 1989 não lhe provocará feridas de morte.

    DATAS HISTÓRICAS DE REFERÊNCIA
  • Ciclo geo-político de liderança portuguesa: 1415 (início da estratégia das Descobertas) a 1578 (capitulação portuguesa em Alcácer Quibir)
  • Ciclo geo-político de liderança holandesa-inglesa e depois inglesa: 1587 (derrota de Felipe II e da sua "Armada Invencível") a 1918 (clara afirmação dos EUA como nova hiperpotência mundial)
  • Período contemporâneo de transição de ciclo geo-político: 1896 (descoberta do "made in Germany") a 1945 (fim da 2ª Guerra Mundial com consolidação da superpotência norte-americana)
  • Ciclo geo-político actual de liderança norte-americana: 1918 até data por definir (período crítico previsível de disputa da liderança mundial: 2026 a 2050, segundo Moldelski)
  • Novo período contemporâneo de transição de ciclo geo-político: 1989 (queda do Muro de Berlim, e regresso ao estatuto de hiperpotência pelos EUA) até data por definir (50 anos de transição?)
  • Primeira Vaga de Globalização económica e financeira: 1500 a 1815 (Congresso de Viena)
  • Segunda Vaga de Globalização económica e financeira: 1815 a 1914 - emergência do imperialismo financeiro
  • Terceira Vaga de Globalização económica e financeira: 1973 (Abandono do padrão ouro, que permitiu, a partir de aí, a eliminação dos controlos de fluxos de capital nos países desenvolvidos e em muitos emergentes) até data por definir (durará um século, como a anterior?)
  • COVILHÃ DISCUTE O FUTURO
    George Modelski será um dos principais intervenientes numa Conferência sobre os Ciclos Económicos e Geo-políticos (Kondratieff Waves, Warfare and World Security (ver em www.natoarw-kw.ubi.pt/) que decorrerá entre 14 e 18 de Fevereiro de 2005 na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, organizada por Tessaleno Devezas, um especialista luso-brasileiro da UBI. Este evento académico, realizado no âmbito dos Nato Advanced Research Workshops, apoiados por aquela estrutura político-militar, vai debater, desta vez, as ligações entre a geo-economia, a geo-política e as guerras, quer as do passado, como as características das "guerras assimétricas" do presente e do futuro, incluindo o fenómeno do terrorismo internacional. A conferência trará a Portugal a nata dos especialistas em ciclos, incluindo uma delegação russa de peso ligada ao Instituto Internacional Kondratieff, e os mais destacados especialistas norte-americanos e europeus (nomeadamente do IIASA-International Institute for Applied Systems Analysis austríaco e do LAMETA-Laboratório de Economia Teórica e Aplicada da Universidade de Montpellier em França). Entre os especialistas ibéricos convidados, contam-se João Caraça, da Gulbenkian, Rui Namorado Rosa, da Universidade de Évora, Francisco Louçã, da Universidade Técnica de Lisboa, e Jordi Serra, da Catalunha. Vai ser lançada a edição em inglês das obras de Kondratieff traduzidas directamente do original em russo, e debatido o polémico The Real Price of War: How you pay for the war on Terror (http://realpriceofwar.com/site/), de Joshua Goldstein, lançado em Setembro pela New York University Press. A Conferência abriu, agora, o período de aceitação de artigos científicos.

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