O capital côr de rosa entra em cena

Jorge Nascimento Rodrigues em Xangai

Laurence Brahm, de novo, sobre a situação na China


Uma espécie de mestiçagem está a ocorrer no tecido económico chinês.

Fruto da "inflitração mútua" de que falávamos em "Que cem capitalismos floresçam" (na estória II), o capital "vermelho" (os novos conglomerados estatais) e os capitais privados chineses dão as mãos num novo personagem, já baptizado de "capital côr de rosa".

Laurence Brahm, o autor de Red Capital, a que já nos referimos (na estória I), conta-nos o que está por detrás do cenário. Encontrá-mo-lo (virtualmente) em Beijing, onde a sua empresa de consultoria Naga tem também escritórios.


Qual é o seu vatícinio para o próximo Congresso do Partido Comunista Chinês?


LAURENCE BRAHM - A meu ver, ele vai abrir, em definitivo, novos caminhos para a reforma. De facto, quase tudo o que acontece diariamente, aqui em Beijing, aponta nesse sentido. A plataforma para o 15º Congresso baseia-se na teoria do falecido Deng Xiaoping sobre o "socialismo com características chinesas" e vai servir como intróito para uma ampliação do papel da economia de mercado, com alguma intervenção estatal, mas agora mais ao nível macro-económico.

Isso significa que finalmente a China se vai livrar da célebre "economia de gaiola", em que o capitalismo privado chinês tem estado encerrado, desde que Deng Xiaoping em 1978 conseguiu repôr as teses do "desvio de direita" dos anos 50?


L.B. - Sobre isso, julgo, que já não há dúvidas. A "teoria da economia de gaiola" está a ser posta de lado e está a ser substituída paulatinamente por um conceito de economia de mercado sob controlo macro-económico, que não se diferenciará muito da prática ocidental de intervenção no campo macro. Pelo menos a intenção é essa.
Uma série de ministérios industriais verão as suas funções administrativas serem integradas em organismos superiores, provavelmente numa Comissão de Estado para a Economia e o Comércio, e as suas actividades comerciais serão transformadas em conglomerados empresariais.
O Estado procurará, sem dúvida, manter um certo grau de controlo na economia, de modo a manter uma certa estabilidade social, pois se a falência e liquidação de muitas grandes empresas estatais, com milhares de trabalhadores, não for bem conduzida, irupções sociais muito graves poderão dar-se.

Com essas novas reestruturações do sector estatal, fala-se, também, de uma segunda vaga de desenvolvimento dos conglomerados do capital "vermelho", que continuarão a querer dominar estrategicamente a globalização da economia chinesa...


L.B. - O capital vermelho vai estar em cena por mais algum tempo neste período de transição. Mas, ao mesmo tempo, com alguma frequência, os próprios interesses privados se misturarão com os do Estado, por razões estratégicas óbvias.
Os privados poderão dar o dinamismo de gestão necessário para funcionar numa economia de mercado e os do Estado os contactos e as aprovações que são necessárias para se fazer o que quer que seja na China.
Em conjunto, este querer comum criará um novo tipo de empresas "vermelhas", com menos intervencionismo estatal, mas sem perder o suporte do aparelho de estado. Algumas destas novas empresas já fizeram a sua aparição em força em Hong Kong e foram baptizadas de capital "côr de rosa".


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