A pista de Xangai

Jorge Nascimento Rodrigues com Laurence J. Brahm


Xangai desempenhou um papel crucial na definição e como rampa de lançamento do conceito de "capital vermelho", desde que as reformas económicas foram lançadas a partir de 1978 na China pós-Mao, sublinhou Laurence Brahm ao EXPRESSO numa entrevista sobre Red Capital, a obra mais recente que publicou na actual Região Autónoma Especial de Hong Kong.

Uma primeira vaga desenvolveu-se e consolidou-se nas últimas duas décadas utilizando Xiang Gang (Hong Kong na romanização do mandarim) como incubadora, estando, agora, na calha uma nova geração, se o próximo Congresso do Partido Comunista da China, agendado para o final do ano, aprovar as estratégias que estão a ser cozinhadas em plena época estival na estância de Bendaihe, onde a liderança chinesa vai a banhos desde os anos 50.

Laurence Brahm é director do Grupo Naga, que se dedica à consultoria na área de investimentos e capital de risco na China e na Ásia, com escritórios em Hong Kong, Beijing e Xangai. Além da consultoria, Brahm dedica-se à escrita com frequência, sendo Red Capital o mais recente de uma série, que promete novas revelações para o ano.


A cidade de Xangai é pintada neste seu livro como o berço histórico da reacumulação de capital que ocorreu nos últimos quase vinte anos na China. Fala-se muito no papel político dos homens de Xangai nas intrigas de palácio do curso reformista chinês encabeçado pelo falecido Deng Xiaoping, mas menos nessa "revolução na sombra", como você lhe chama...

Foto: Laurence J. Branhm LAURENCE BRAHM - Xangai desempenhou, de facto, um papel central na formação do conceito de capital "vermelho" e funcionou como uma rampa de lançamento para grande parte da expansão internacional dos capitalistas "vermelhos". Basta citar alguns exemplos de empresas que foram lançadas a partir de Xangai. Historicamente, a China Merchants, a mais velha das empresas do capital "vermelho" estabelecidas em Hong Kong, e que agora é o braço económico do Ministério dos Transportes chinês aqui, foi fundada em Xangai no virar do século ainda no tempo da dinastia Qing. Depois do colapso do último imperador, o governo do Kuomintang tomou conta dela, mas logo em 1950 a sucursal em Hong Kong informava, para espanto de muitos, que a empresa estava ao serviço da recém-criada República Popular da China.
Outro caso: Rong Yiren, um dos homens proeminentes de uma velha família capitalista dos têxteis de Xangai, foi dos poucos que ficou para apoiar o novo poder depois de 1949, enquanto outros fugiram para Hong Kong ou Taiwan. Foi atacado durante a Revolução Cultural e depois foi repescado por Deng Xiaoping em 1979 para criar a CITIC (China International Trust and Investment Corporation), a empresa que se revelou o conglomerado estatal de maior sucesso, dentro da estratégia de usar Hong Kong como base de operações global.
Finalmente, veja o caso da Shanghai Industrial Hondings (SIH), que foi um dos primeiros protótipos de modelagem de uma «holding» pertencente a um governo municipal (Xangai), que se formou a partir do agrupamento de activos de diversas empresas e departamentos locais, e que acabou por entrar na Bolsa de Hong Kong. A SIH serviu de modelo a casos mais recentes de colocação em Bolsa.

Hong Kong foi a plataforma por excelência dessa "revolução na sombra" da formação do capital "vermelho". E Macau, apesar da sua pequenissima dimensão, em que medida ajudou nesse processo histórico?

L. B. - Em termos gerais, muitas das mesmas empresas do capital "vermelho" que se estabeleceram em Hong Kong, também o fizeram em Macau, usando o Território como plataforma. A diferença fundamental tem a ver com razões económicas e provavelmente com alguns factores políticos relevantes. Em primeiro lugar, Hong Kong é um dos centros mundiais da alta finança e, naturalmente, o seu papel ultrapassou enormemente o que Macau podia oferecer nese campo. Depois, em termos políticos, obviamente que as empresas do capital "vermelho" se esforçaram em penetrar em força na economia de Hong Kong nos últimos anos, no sentido de criarem confiança e um bom precedente em termos de estabelecimento da primeira Região Administrativa Especial da China.

Red Capital é apenas uma peça intermédia no seu trabalho de investigação sobre o novo capitalismo na China. O que é que tem no prelo?

L.B. - De momento, comecei a escrever uma série de outros livros, que espero poder vir a publicar no próximo ano. Um deles, que me parece bastante importante, tem a ver com as empresas estatais chinesas e as reformas que estão em curso e as que se prevêm. Eu procuro abordar toda uma gama de assuntos, como a questão das dívidas cruzadas, a separação em relação ao governo por parte da gestão, e a reestruturação dos activos produtivos e não produtivos. Estas reformas, se tiverem êxito, podem levar, a meu ver, a uma outra nova geração de capital "vermelho", a que deveremos estar atentos.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal