Krugman desmonta outro mito

O polémico economista americano desmonta o 'milagre asiático' na revista Foreign Affairs.
O artigo que prognosticou a crise asiática do final dos anos 90

Jorge Nascimento Rodrigues

É mais uma rebeldia de Paul Krugman, mais uma das suas provocações às ideias sobre comércio internacional estabelecidas na Academia americana (e não só) e em largas franjas da opinião pública "ocidental".

Agora, foi a vez de desancar sobre o "milagre" económico da Ásia e de colocar em causa o mito da inevitabilidade do próximo século ser o do Pacífico. Para demosntrar o seu argumento teórico, revisitou a história económica do socialismo, particularmente o crescimento soviético no seu período de altas taxas de PNB.

E, refrescando a memória aos mais esquecidos, encontrou um "paralelismo" no âmago do mecanismo económico - uma constatação cuja força mediática pode hoje ser reforçada pelo desmembramento político da anterior ditadura soviética.

De novo, Krugman escolheu a revista "Foreing Affairs" (Novembro/Dezembro 94, volume 73, nº 6), para a tribuna deste novo debate, obrigando os economistas, os gestores e os estudantes a terem de considerar a leitura desta revista tão obrigatória como a da "Fortune", do "The Economist" ou da "Business Week".

Num artigo justamente intitulado "The Myth of Asia's Miracle" - que se enquadra num conjunto de materiais publicados neste número da "Foreing Affairs" sobre a temática da Ásia, em que cabe destacar também a crítica a um pseudo modelo político "asiático" (considerado predestinadamente autoritário) - o polemista americano vem confrontar, sem o nomear, o relatório do Banco Mundial.

Uma fórmula com prazo

Escrito no ano passado e posto à venda usando a frase mágica do "milagre" - "The East Asian Miracle: Economic Growth and Public Policy" (editado pela Oxford University Press) -, o estudo do Banco deixou-se inebriar pelos números e pela "fórmula". A fórmula que, num balanço sobre os 20 anos do crescimento asiático, uma das últimas "Far Eastern Economic Review" (edição de 24 de Novembro de 1994) resumiu emplogadamente: "Muito trabalho por dia e por ano, impostos baixos, altas taxas de poupança, governo minimal em relação à economia e maximal em relação aos cidadãos".

Mas esta "fórmula" tem um prazo de validade, não transpira "sustentabilidade" (uma "buzzword" que passou a ser obrigatória no discurso macro e micro-económico). O mecanismo económico da dita fórmula foi (e será, para outros casos ainda em emergência como a China) alimentado "pelo crescimento extraordinário dos ´imputs`, mais do que pelos ganhos de eficiência", comenta Krugman, no que é o seu argumento teórico essencial.

Ora, esta dinâmica tem um custo: "O crescimento económico que é baseado na expansão dos ´imputs`, em vez do crescimento do ´output` por unidade de ´imput`, está inevitavelmente condenado a rendimentos decrescentes", prossegue o autor americano. Esta demonstração económica tem vindo a ser feita por alguns investigadores nos últimos dois anos, e que o artigo da "Foreing Affairs" cita, como são o caso de Lawrence Lau e Jong-II Kim, de Stanford (a Universidade californiana em que Krugman lecciona em 1994), e de Alwyn Young.

É com base nesta argumentação que surge o paralelo com o sovietismo. Diz Krugman: "Este meu artigo começa precisamente com um balanço do debate sobre o crescimento soviético de há 30 anos atrás, para tentar fazer-me ouvir de que provavelmente alguns estão hoje a revisitar um velho erro". Um engano que confunde a "habilidade para mobilizar recursos" com a "habilidade para os usar eficientemente", duas estratégias tão diferentes um da outra como da noite para o dia.

Não perder a cabeça

O professor americano refere,a propósito, o actual caso japonês e o seu provável declínio estrutural. Vale a pena recordar, neste ponto, uma obra que acaba de ser traduzida pela Difusão Cultural - "Japão, As duas Faces do Gigante", de Taichi Sakaiya - e que é simbólica em termos do impasse a que chegou a "monocultura industrial" e o modelo nipónico de mobilização de recursos, visto pelos olhos de um japonês, ex-quadro do endeusado MITI.

Mesmo a China, apesar de estar a baralhar claramente as cartas do jogo asiático e mundial, não escapará àquela lei, em virtude de basicamente estar a seguir o mesmo "modelo" de mobilização de recursos, sublinha Krugman. Um modelo que deixa, naturalmente, inebriados os "ocidentais". Ainda recentemente, a "Business Week" (edição de 28 de Novembro de 1994), fazia as contas do próximo "boom" em betão e cimento (infra-estruturas) até ao ano 2000 na Ásia emergente e nos quatro "tigres": um valor de investimento entre 1 trilião (a estimativa pessimista) e quase 2 triliões de dólares!

Mas, o conselho do professor americano é que não se perca a cabeça e não se veja o paraíso onde ele não existe: "De uma perspectiva, a partir do ano 2010, as actuais projecções sobre a supremacia asiática extrapolada das recentes tendências, podem muito bem parecer tão idiotas como as previsões sobre a supremacia industrial soviética no óptica dos anos Brejnev".

O jogo decisivo está noutro lado: a eficiência. E, ao que tudo indica, os modelos não democráticos (no campo político e no próprio terreno da gestão micro-económica) não contribuem significativamente para esse indicador. São bons na mobilização de recursos, mas débeis na produtividade sustentada. Mas, essa é outra história.


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