A Jóia da Coroa contra-ataca

Review do livro Rising Elephant, de Ashutosh Sheshabalaya

A Índia não é só 'call centers' e programação barata. A vantagem competitiva chegou à parte superior da cadeia de valor. Para além das Tecnologias de Informação, a potência emergente joga para os lugares cimeiros na farmacêutica e no automóvel. O que os ocidentais têm de entender sobre o «Elefante Emergente» para além das imagens de Bangalore (software) e de Bollywood (filmes).

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Maio 2005

O mítico continente do "Preste João" procurado pelos Navegantes portugueses de Quinhentos e transformado em "jóia" do império britânico foi redescoberto, na última década, pelo designado "business process outsourcing" (mais conhecido pelo acrónimo BPO) por parte de muitas centenas de multinacionais ocidentais que decretaram o "Go India" como estratégia de redução de custos.

A emergência do velho subcontinente ficou, assim, associada a "call centers" povoados de jovens tentando imitar sotaques americanos e a programadores baratos cuidando do nível mais baixo do software. "Esse estereotipo ocidental representa apenas 5% dos serviços de tecnologias de informação prestados pela Índia", contrapõe Ashutosh Sheshabalaya, o consultor indiano que em 1997 escreveu um relatório de 250 páginas sobre a emergência do país como uma potência nas Tecnologias de Informação (TI), que viria a ser publicado em Nova Iorque pela Find/SVP, "chocando" muita gente.

Ficha do Livro:
Capa do livro Rising ElephantRISING ELEPHANT- The Growing clash with India over white-collar jobs and its meaning for America and the world
Common Courgae Press, Maine, USA, 2004
Macmillan, India, 2005
322 páginas
O livro está dirigido sobretudo a um público americano. O autor prepara agora uma versão mais adequada aos europeus, para ser editada em português em Portugal pela editora Centro Atlântico.
Apresentação do livro
Encomenda do livro na Amazon.com

Ashutosh (ou Tosh, como gosta de ser chamado) acaba de publicar, no final de uma volta à Europa com o seu grupo de amigos "motard", um livro demolindo os principais mitos existentes, entre os ocidentais, sobre a Índia. Em Rising Elephant, Tosh começa por citar a profecia de Andy Grove, da Intel: «A Índia ultrapassará os Estados Unidos em empregos nas áreas do software e dos serviços tecnológicos em 2010». E, ao longo, de 300 páginas, revela-nos uma Índia que criou, entretanto, grupos nas TI cuja capitalização bolsista é superior a similares norte-americanas. «Líderes de mercado, como a IBM, Accenture ou EDS, passaram a identificar a Infosys, Wipro, HCL, Tata Consulting e Satyam como principais rivais», sublinha-nos Tosh, que criou uma empresa de consultoria na Bélgica (a Allilon.com), acreditando que «a Europa, tal como a Índia, são duas potências 'soft' e culturas ancestrais que têm tudo a ganhar em se aproximar».

Aliás, os grupos indianos reverteram o processo. Deixaram de ser meros "subcontratados" para passarem a uma estratégia global de posicionamento em várias partes do mundo, passando a uma política de aquisições e de localização, por sua vez, de operações de "offshoring" em países europeus como a Irlanda ou a República Checa. Estão, inclusive, atraindo "cérebros" ocidentais para as empresas indianas em Bangalore e noutras regiões.

Aliança com a Europa

Mas não se ficam pelas TI. A Índia está a transformar-se numa potência na área da farmacêutica e da biotecnologia. «Este sector está a trilhar o mesmo caminho das TI, com o benefício inclusive de alavancar as competências adquiridas em computação», refere-nos Tosh. Um sector adjacente claramente emergente é o do turismo da saúde. A McKinsey estima que a Índia facturará 2000 milhões de dólares em 2012 nesta área. Outro "cluster" à procura do lugar ao Sol no mundo é o do automóvel, quer na área da construção, como nas componentes.

«A Europa, tal como a Índia, são duas potências 'soft' e culturas ancestrais que têm tudo a ganhar em se aproximar".

Todos estes sectores foram a compras e em procura de parcerias no Ocidente (ver caixa). O autor lamenta que «os europeus tenham perdido o primeiro autocarro indiano, dominado pela conexão Indo-Americana». Mas estão, ainda, a tempo: «Há uma janela de oportunidade nos próximos dois a três anos». Aponta as alianças em que a Índia dá produto de qualidade e a Europa pode dar as marcas e os canais para o mercado. «O sector têxtil é um claro candidato neste campo. Não podemos concorrer em termos de custo chinês, mas temos valor acrescentado que a China ainda não pode dar», acrescenta Tosh. Outra oportunidade é no campo das patentes. «Os europeus têm problemas na fase final em termos de recursos humanos para escalarem os projectos de Investigação & Desenvolvimento, os indianos em termos de financiamento para patentes», conclui o autor de Rising Elephant.

ÍNDIA VAI ÀS COMPRAS
As jóias da coroa inverteram a situação: vêm hoje aos "impérios" comprar jóias locais. O caso mais emblemático foi, porventura, a compra em 2000 da Tetley - a coroa dos chás (criada em 1856 na capital do império britânico) - depois de trinta anos de conturbada mudança de donos pelo conglomerado indiano Tata.
As incursões na Europa têm sido cirúrgicas: o grupo indiano Reliance comprou em 2004 à Hoechst e ao Deutsche Bank a Trevira Gmbh, que dará aos indianos o domínio mundial da capacidade de produção de fibra em poliester; já este mês, o grupo Chatterjee comprou o líder mundial do propileno, a Basel Polyolefins, uma "joint-venture" criada pela BASF e a Shell. Esta operação é considerada, até à data, a maior nesta vaga de aquisições, tendo envolvido 5700 milhões de euros. Em França, em 2004, o negócio dos genéricos da RPG Aventis foi comprado pela Rambaxy Labs, a maior farmacêutica indiana. No sector automóvel, grupos indianos compraram, entretanto, a alemã Carl Dan Peddinghaus, a britânica GWK, a polaca Framtrac Tractors e a belga Pauwels International. Nas tecnologias de informação (TI), a Citisoft do Reino Unido foi adquirida pela Satyam, a Infopulse holandesa pela Cognizant e a AD Solutions alemã pela NIIT. «São de esperar mais aquisições de vulto em TI nos próximos 12 meses na Europa», sublinha Ashutosh Sheshabalaya.
Desconhecido é o facto de boa parte da rede submarina de telecomunicações em fibra óptica entre vários continentes estar, em parte, desde 2004, nas mãos dos grupos indianos Reliance, que comprou a Flag Telecom, e Tata que somou ao portfolio a Tyco Global Network (pertença da Tyco International Ltd, que alienou esta área), através de uma participada.
Na Coreia do Sul, na China e em Singapura foram feitas aquisições de relevo por grupos indianos nos últimos meses. No sector do petróleo, depois de aquisições em África e na Ásia, e acordos na América Latina, o alvo, agora, é a Rússia, onde se fala de uma soma para compras na ordem dos 20000 milhões de dólares. A ponta de lança é a Oil & Natural Gas Corp estatal. «A tal ponto que um gigante como a Shell está preocupado com estas ofensivas de indianos e chineses. O seu CEO, Jeroen van der Veer, em Abril, aconselhou as nações produtoras a evitar negociar com eles», refere o autor de Rising Elephant.

Contacto do autor: tosh@allilon.com

www.dancewithshadows.com/india-inc-acquisitions.asp

Relatório sobre a indústria farmacêutica da Índia (Março 2005):
www.piribo.com/publications/country/DTV003.html

Apresentação do livro:
www.risingelephant.com/index2.html

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