Inovação na China estudada por portugueses

As oportunidades na área da ciência e tecnologia naquele país asiático foram estudadas pela Sociedade Portuguesa de Inovação (SPI) no âmbito de um projecto para a Comissão Europeia. Baptizado "InnoChina", o estudo foi entregue recentemente (Junho 2002) em Bruxelas e encontra-se em apreciação. As suas recomendações são particularmente úteis para empresas "não-multinacionais" de base tecnológica que queiram desenvolver estratégias de internacionalização em direcção àquela região do globo.

«O pior erro é esperar para ver. A janela de oportunidade continua aberta»
Barómetro da ATKearney escolhe China como local preferencial para negócios em 2002, substituindo os EUA neste papel

Título completo do estudo apresentado em Bruxelas: «InnoChina: A Study on the Policies, Structures and Training Programmes Which Have Evolved to Encourage Innovation in the Science & Technology Sector of The People's Republic of China»

Jorge Nascimento Rodrigues

Sítio na Web da SPI | Pedidos de Informações

As firmas europeias de base tecnológica não-multinacionais também dispõem de oportunidades na China, apesar de «um défice de entendimento na Europa sobre o sistema de inovação desse país», refere "InnoChina", um estudo sobre a realidade chinesa no campo da investigação e desenvolvimento e da alta tecnologia realizado por uma consultora portuguesa para a Comissão Europeia.

Essas oportunidades derivam do que o relatório considerou como «abordagem original» chinesa. Ou seja a sua estratégia muito agressiva no campo do planeamento e ordenamento espacial da ciência e tecnologia, com uma multiplicação de iniciativas territoriais, desde os normais parques tecnológicos e científicos, às cidades «de inovação tecnológica experimental», às «zonas de desenvolvimento industrial de alta tecnologia» a nível provincial, às Zonas Económicas Especiais, às incubadoras nas capitais de província até um infindável rol de designações destinadas a fixar todo o tipo de empresas e instituições ligadas à I&D e à alta tecnologia.

É curioso salientar que este estudo surge, na mesma altura, que um barómetro da consultora ATKearney considera a China, pela primeira vez em cinco anos, o "centro de negócios" preferencial de 1000 dirigentes de transnacionais (ver caixa).

Espaços à espera de europeus

A existência destas estruturas no território, em particular nas regiões costeiras de maior dinamismo onde a transição para o capitalismo está mais consolidada, serve de "alavanca" para a implantação não só de multinacionais - inclusive a instalação de centros de I&D junto de uma população crescente de cientistas e tecnólogos - como de PME de base tecnológica. Centros de I&D de multinacionais, como a IBM, Nokia, Hewlet-Packard, Siemens e Microsoft, encontram-se em diversos parques e zonas de alta tecnologia da China.

O relatório aconselha mesmo que entre os primeiros passos a dar por empresas europeias se proceda ao contacto com este tipo de espaços, cujo levantamento exaustivo é feito neste documento apresentado a Bruxelas. «Muitas dessas estruturas estão interessadas em adquirir estatuto de 'internacionais' e dão tratamento preferencial às empresas estrangeiras», sublinha Augusto Medina, fundador e presidente da direcção da Sociedade Portuguesa de Inovação (SPI), a consultora do Porto que realizou o estudo. Por outro lado, a abordagem desses espaços permite melhores decisões em matéria de "casamento" com empresas e quadros locais, sendo de aconselhar às não-multinacionais a opção pela "joint-venture", acentua o nosso interlocutor.

A investigação de campo foi realizada pela SPI que tinha um escritório de representação desde 1999 em Xangai, tendo mudado, este ano, para novas instalações em Beijing no Parque Tecnológico de Tsinghua, situado no parque científico de Zhongguancum, o maior da China. O estudo foi entregue em Junho passado e encontra-se ainda em apreciação em Bruxelas.

A SPI, criada em 1996, envolveu uma equipa de dois especialistas portugueses, Augusto Medina e Ricardo Cunha, e dois americanos, Mark Spinoglio e Jack Tyndall, que trabalham na consultora. Contou com a colaboração de seis peritos chineses e especialistas de universidades europeias, entre elas Borges Gouveia, da Universidade de Aveiro. Na China contaram com a colaboração de Chen Hong Bo, do Centro de Desenvolvimento do Parque Científico de Tsinghua, de Chen Jia Chang, do Ministério da Ciência e da Tecnologia, Chen Mingxuan, do Centro de Desenvolvimento Industrial do programa "Torch", Fang Xin, do Instituto de Política e Gestão, Kong Deyong, da Associação Chinesas para o Desenvolvimento Social e Económico, e Ningni Yu, da Zhang Jiang Biotech & Pharmaceutical Base Development Cop. Ltd de Xangai.

Défice de conhecimento

Apesar do movimento de reforma capitalista progressiva estar prestes a fazer 30 anos, desde que os chineses lançaram as «Quatro Modernizações» e cortaram com o radicalismo maoista, continuam a existir óbvias limitações de vária ordem. Contudo, o principal problema é «o pouco que se sabe na Europa sobre o sistema de inovação na China e sobre as oportunidades e forma de abordagem do sector de ciência e tecnologia naquele país», reforça Augusto Medina.

Além do mais, a janela de oportunidade está aberta até 2005, altura «em que é pressuposto que se tenham implementado vários aspectos do acordo bilateral de acesso aos mercados assinado pela União Europeia e a China em 2000», conclui o presidente da SPI. Segundo o relatório, a Comissão Europeia dispõe de 250 milhões de euros entre 2002 e 2006 para projectos, nesta área, na China. O relatório critica, por isso, a atitude de "esperar para ver" de muitos meios europeus.

Os chineses pretendem também no campo da ciência e tecnologia afirmar-se no plano geo-político. Ambicionam entrar nos 10 países que mais fazem investigação básica e querem atingir o número de 1 milhão de cientistas envolvidos na I&D em 2005, o que os aproximará dos EUA e ultrapassará o total da Europa dos 15. A "cosmopolitização" do seu ensino de vanguarda - em áreas como a biotecnologia, tecnologias de informação, finanças, gestão e direito - passa por ter 5 a 10% desses cursos ministrados totalmente em inglês em 2004. Esta oportunidade na área do ensino é, também, reforçada pelo relatório da SPI, que regista o facto dos europeus apenas disporem de um projecto de vulto neste campo com a Escola de Gestão denominada China Europe International Business School, sediada em Pudong, face a Xangai. Esta Escola foi uma iniciativa da União Europeia e do Ministério do Comércio Externo e da Cooperação Económica da China.

CHINA SUBSTITUI EUA
Sinal dos tempos, o barómetro da ATKearney, lançado há cinco anos, colocou, pela primeira vez, a China como principal mercado de atracção do Investimento Directo Estrangeiro desempenhando o papel de "última instância" que até este ano era tradicionalmente exclusivo dos Estados Unidos.
O índice de confiança da consultora coloca este ano (2002) a China como "centro de negócios" mundial preferencial, por escolha dos 1000 chefes de transnacionais ouvidos neste barómetro.
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