Samuel Huntington
"A regra de ouro é acomodar-se"


No século XX o principal teatro de confronto entre potências hegemonistas foi a Europa.

Samuel Huntington Na primeira metade, profusamente sangrenta em solo europeu, assistiu-se à emergência imperial e depois ideológica (nazismo) da Alemanha, e na segunda parte do século nasceu a "guerra fria" e a coexistência com uma nova superpotência nascida da afirmação ideológica internacional da URSS.

E, ironia da história, não foi o dogmatismo ideológico do estalinismo que a trouxe para esta posição cimeira, mas o "revisionismo" krutechvista que lhe fez a cama.

No século XXI, as cartas serão outras. Haverá uma deslocação do teatro do confronto geo-estratégico para a Ásia.

Os alinhamentos deixarão de ser feitos em termos ideológicos (entre os dois sistemas filosóficos e económicos dominantes do séc. XX - capitalismo e socialismo). Passarão a ser "civilizacionais". E a "civilização" não-ocidental que está na calha para se afirmar geo-estrategicamente é a chinesa.

Fruto da sua transformação capitalista, da sua modernização e da força das suas redes informais no mundo quer com chineses da diáspora como com países de outras civilizações que se sentem "humilhados", a China está a reescrever o livro da Ásia.

O "século do Pacífico" que foi pensado, nos anos 80, com as cores do Japão, está a dar lugar a uma "megatendência" (para usar o termo popularizado por John Naisbitt) totalmente diferente.

E, de novo, ironia da história, não foi a "pureza" ideológica do maoismo que conseguiu esta proeza geo-estratégica, mas os "desviacionistas de direita", assumidos defensores da "via capitalista" dentro do Partido Comunista da China, que lhe estão a abrir o caminho.

Inesperadamente, também, é um «outsider» do século XX (a China) que vai emergir como nova superpotência no século XXI.

Isto são evidências, reclama Samuel Huntington, o académico americano que abalou o debate pós-Gorbachov em meados dos anos 90, com a sua "hipótese" do choque entre civilizações como substituto do confronto entre os dois blocos da "guerra fria".

Huntington começou por escrever um pequeno artigo na revista «Foreign Affairs», que acendeu mais polémica em três anos do que qualquer outra peça daquela revista desde os anos 40.

Livro: The Clash of Civilizations O artigo trabalhava a "hipótese" deste novo cenário, mas não avançava com a "solução" preventiva. Foi, mais recentemente, no livro The Clash of Civilizations and the remaking of the World Order (editado pela Simon & Schuster), que o académico americano abriu totalmente o jogo.

E, ao contrário do que poderiam esperar os "falcões" dos dois lados do Pacífico, e para surpresa das "pombas" que tanto se tinham ofendido com a "hipótese", Huntington vem lançar uma proposta de "coexistência" entre civilizações rivais, a fazer recordar a "coexistência pacífica" entre os blocos da guerra fria.

"A escolha na Ásia é entre um contra-poder conflituante com o poder emergente, ou, então, a paz baseada na aceitação de uma nova potência hegemonista na região", sintetiza, para acrescentar à laia de aviso: "Uma guerra de grandes proporções poderá ocorrer, se os EUA desafiarem a ascensão hegemónica da China na Ásia".

Numa entrevista, mais recente, à revista Far Eastern Economic Review, editada em Hong Kong, acentuava: "A única forma de reduzir a potencialidade de conflitos graves entre potências líderes de civilizações distintas no próximo século, é que países pertencendo a uma dada zona de influência civilizacional travem a sua tendência para intervirem nos assuntos «internos» de outras civilizações. A solução é que se «acomodem» às novas realidades".

Huntington chamou a este princípio de «realpolitik» "a regra de ouro da abstenção". "Este é o primeiro requisito de paz num mundo multipolar e pluricivilizacional. O segundo é a procura de uma mediação em conjunto", o que exigiria a reformulação do Conselho de Segurança da ONU ou do G7+1, garantindo a "representatividade" das várias civilizações, conclui o autor.

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