O Factor China

O autor chinês Zhibin Gu fala do geo-protagonista que já ninguém pode ignorar

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Gurusonline.tv, Fevereiro de 2005

Zhibin Gu é colunista de Gurusonline.tv em inglês - coluna "China Century"
Relatório em inglês com entrevista a Zhibin Gu sobre o factor China
Apresentação de Zhibin Gu | Geração com Sorte | Nomes a decorar

A emergência da China como potência global é provavelmente o facto mediático mais importante de 2004. De rumor alimentado há mais de uma década - desde que os primeiros livros escritos por ocidentais surgiram nos escaparates falando da "próxima superpotência" - , passou a facto: o "factor China", como agora se escreve em geo-política e geo-economia.

As propostas sucederam-se. Um "think-tank" de Genebra muito prestigiado propôs a inclusão da China num G4 (clube dos grandes, com EUA, Japão e União Europeia - ver aqui), enquanto que a influente Goldman Sachs abertamente sugeriu a criação de um F8 agrupando os ministros das finanças e os presidentes dos bancos centrais dos EUA, Japão, China, Reino Unido, Canadá e três da Zona Euro, que substituiria o actual G7, considerado "obsoleto" (ver aqui).

Mas as surpresas no Ocidente não se ficaram por aqui. A revelação em Agosto de 2004 pela revista "The Economist" que a China será a primeira potência económica mundial em 2020 - se o seu PIB for medido em paridade de poder de compra - deixou muitos leitores em todo o mundo estupefactos; a Goldman Sachs só o previa para 2050! Mesmo que a China abrande da actual média anual de 9,5% desde 1978, para 7% a 8% de crescimento ao ano nesta primeira década do século XXI, a sua ascensão a número um é irreversível, garante a revista inglesa. Mais surpreendente ainda - é a China que está a segurar a economia mundial desde a recessão de 2001 nos Estados Unidos. A dinâmica chinesa representa 25 a 30% do crescimento mundial actual, garante a referida revista londrina.

Artigos de referência do The Economist:
China's Growing Pains, Cover story - August, 21, 2004
The Dragon and the Eagle, A Survey of the World Economy - October, 2, 2004

No final do ano, outros acontecimentos surpreendentes bateram à porta. O negócio surpresa da IBM com a Lenovo - a marca internacional da Legend, a líder das tecnologias chinesa criada em 1984 por Liu Chuanzhi, um membro da Academia de Ciências da China - deixou muitos analistas de boca aberta. Por outro lado, o balanço do ano do Nasdaq - a mais importante bolsa de tecnologias do mundo com um écran gigante em Manhattam - revelou que os dois IPO (entradas em bolsa) mais valorizados eram empresas oriundas de Xangai, a 51Job e a Shanda. Pelo caminho de 2004, ficaram diversos "acordos estratégicos" com outros grandes emergentes (como o Brasil) ou com países-chave na área das "commodities" (Venezuela, África do Sul, Conselho do Golfo) e investimentos realizados (como no Irão) ou em negociação (Canadá).

Número dois está bem

O mais espantoso é que os chineses não se revêm nesta euforia. Ficam até chocados: "É estranhíssimo mas o mundo sente mais esse efeito do que nós. Aliás, frequentemente ficamos chocados quando os estrangeiros nos dizem que o século XXI será chinês", sublinha-nos Zhibin Gu, 43 anos, um doutorado, consultor radicado no Sul da China, autor de uma trilogia de livros fundamentais para se perceber o grande emergente a partir da visão de um "insider". O seu segundo livro será lançado este ano e tem o título sugestivo de "China's Global Reach".

Gu admite-nos que há um factor novo: "Durante 200 anos, os chineses foram tratados como inferiores. Isso está finalmente a mudar. Mas como, no passado, sofremos imenso por nos julgarmos o centro do mundo, hoje, a maioria de nós prefere ser apenas o que vem a seguir ao líder. É uma postura mais segura, e uma melhor alternativa".

A razão desta modéstia tem o seu quê de compreensível: "A China tem sido muito cuidadosa em não deixar que a política mundial estrague o nosso desenvolvimento económico. Isto tornou-se uma estratégia de longo prazo e mesmo uma mentalidade dominante".

È claro que esta emergência da China tem o seu geo-impacto que Zhibin Gu não nega: "A ascensão da China e da Índia vai ter naturalmente um impacto na balança de poder global. Um novo equilíbrio emergirá gradualmente e provavelmente de um modo indirecto. Certamente que os Estados Unidos terão de consultar e dialogar com a Índia, a China e o resto do mundo. Mesmo que o não faça, certamente que ficará mais consciente da existência de outros".

Teatro do mundo

O impacto geo-económico é já sentido e muito comentado. A China rapidamente se transformou no que os media designam por "fábrica do mundo" fornecendo norte-americanos, europeus e japoneses de manufacturados baratos. "Isso aconteceu de um modo natural, direi mesmo acidental, mais do que por desenho estratégico. Mas os ocidentais têm de corrigir essa imagem que têm da China meramente manufactureira", adverte-nos Gu.

As multinacionais de todo o mundo também ocorreram à China para se posicionar naquele mercado que vê nascer uma classe média de centenas de milhões. "As multinacionais são hoje líderes em sectores vitais como as tecnologias de informação, a farmacêutica, energia, automóvel e outros negócios de capital intensivo. Mais de 23 milhões de chineses trabalham já nessas filiais", sublinha o especialista chinês. A subida na cadeia de valor é algo que também está em curso - mais de 400 centros de investigação & desenvolvimento são alimentados por multinacionais estrangeiras. Diz o nosso interlocutor: "Este 'hub' do mundo está a expandir-se em todas as direcções. Evoluindo para as áreas dos serviços, da I&D e financeira. É inevitável. E provavelmente levará menos tempo do que se pensa".

«Se vem para a China, tem de dar os passos certos. E a regra número um é esta: Cresça com a China e não à custa da China. Ou seja, empenho a longo prazo, organizações flexíveis e bem montadas, estratégias realistas, e capacidade de liderança. Um corpo de gestão localizado também ajuda»

Em suma, a China tornou-se rapidamente num "teatro mundial de operações", algo que os chineses chamam com orgulho de "China Global", um mercado aberto onde todos os protagonistas do mundo económico querem e podem estar. "O que contrasta fortemente com o que se passa dentro do Japão - onde tudo continua a ser em larga medida um jogo japonês", sublinha este "estrangeirado" que se doutorou nos Estados Unidos no final dos anos 1980.

E termina com um conselho: "Se vem para a China, tem de dar os passos certos. E a regra número um é esta: Cresça com a China e não à custa da China. Ou seja, empenho a longo prazo, organizações flexíveis e bem montadas, estratégias realistas, e capacidade de liderança. Um corpo de gestão localizado também ajuda".

Nomes a decorar
O negócio do ano entre a IBM e a Lenovo/Legend teve o mérito de começar a obrigar os ocidentais a decorar alguns nomes de uma nova espécie...a das multinacionais chinesas. O tema já tinha sido introduzido por um estudo do INSEAD divulgado pela revista norte-americana Harvard Business Review (em Outubro de 2003 - ver aqui).
Zhibin Gu explica que este fenómeno era inevitável, desde cedo, na China: "Não é possível às empresas chinesas seguir o modelo japonês na expansão internacional. Os japoneses começaram por fazer bons lucros em casa e depois é que partiram para fora. Mas, nós, temos lucros fracos internamente. A única saída é procurar activamente parcerias no mundo. É o único caminho realista".
Os exemplos citados por Gu nas suas obras são de referência: a TCL tem "joint-ventures" com a Thomson e a Alcatel. Agora houve este negócio da IBM com a Lenovo. "Estejam atentos ao próximo", sublinha. Nomes como Huawei, Haier (maior fabricante de electrodomésticos já presente em "outdoors" em Portugal), Galanz (40% do mercado mundial de micro ondas e com fábricas deslocalizadas nos EUA), Chonghong, Ningbo Bird, Kellon, Konka, D'Long (que comprou a Murray nos EUA), ou Sinopec no petróleo. Registe, ainda, a BaoSteel, noutra "commodity", que está a desenvolver uma "joint-venture" no Brasil e estuda outros locais como Canadá, Austrália e África do Sul. Nas telecomunicações, a China Mobile e a Unicom lideram o maior mercado de telemóveis do mundo (330 milhões em finais de 2003) e são nomes também a decorar.

GERAÇÃO COM SORTE
Zhibin Gu auto-classifica-se como um dos protagonistas da "geração com sorte" que assistiu ao fim do maoismo com a queda do "Bando dos Quatro" no momento de poder iniciar uma carreira profissional. "Vocês não podem imaginar o que foi para nós jovens, em 1978, as universidades reabrirem", exclama. Gu nasceu em 1961 em Xian, onde estão os famosos guerreiros e cavalos em terra cota, e licenciou-se em Nanquim de onde saiu em 1981 para os Estados Unidos, para estudar nas Universidades de Vanderbilt e depois na de Michigão. Tirou mestrados em física e matemática e doutorou-se em 1987. Foi professor em duas universidades americanas e acabou por entrar na Wall Street em 1990. O bicho dos negócios não largou mais este matemático. Depois de 13 anos na América, este "estrangeirado" regressou a casa em 1994 para representar a firma onde trabalhava, a Lazard. Depois tornou-se consultor independente radicado em Shenzhen, uma das primeiras cidades chinesas da reforma económica, às portas de Hong Kong. Zhibin adora fazer palestras e contar histórias de negócios.
Lançou mão a um projecto de uma trilogia, que iniciou em 1991 com a publicação de "China Beyond Deng", sobre as reformas iniciadas por aquele falecido líder chinês após a queda do maoismo. Para este ano, já está prevista a saída de "China's Global Reach" e Zhibin está a concluir o fecho deste projecto com "The Greatest Theater: China's Lessons in the Era of Capitalism and Globalization". A editora Centro Atlântico em colaboração com o grupo Adventus publicará este ano em português uma obra inédita de Zhibin Gu.

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