Estória I

Livro Capital Vermelho

O Capital Vermelho

Jorge Nascimento Rodrigues em Hong Kong

Foto: Hog Kong

A estória de um novo tipo de capital nascido no regaço
do sector público chinês



Desde há quase vinte anos que graça uma revolução silenciosa na China de que não se fala. O seu nome de guerra é "capital", o motor do capitalismo. É um processo de acumulação - primitiva, diriam os marxistas de início do século - de um novo tipo de capital que se desenvolveu na sombra na República Popular da China, encoberto pelo manto de um discurso ideológico mais pragmático e pela simplicidade de comunicação de imagens de marketing político típicas dos paradoxos chineses, como a de "economia socialista de mercado" e de "um país, dois sistemas".

A "sombra" não significa que o processo tenha sido clandestino - ele foi lançado à luz do dia pela facção dominante na cúpula do Partido Comunista e do Estado chineses desde 1978. Ele não foi obra de privados infiltrados, mas do próprio aparelho de Estado chinês. A penumbra em que ele tem estado, deriva do facto dos ideológos e teóricos, salvo raras excepções (e de uma delas trataremos na próxima semana), se esforçarem por não dar o nome certo aos bois.

À falta de melhor etiqueta, Laurence Brahm, um consultor radicado em Hong Kong e com diversos clientes oficiais e estrangeiros em Beijing e Xangai, foi repescar o conceito de "capital vermelho" lançado há quase 50 anos por Liu Shaoqui - um dos camaradas de Maozedong caído mais tarde em desgraça - e "juntar os fragmentos de várias estórias que permitem contar esta história com princípio, meio e fim", escreve em Red Capital, um livro acabado de publicar na agora Região Administrativa Especial de Hong Kong. E a maioria dessas estórias passa por Hong Kong precisamente.

Serenados os ânimos sobre a transferência de soberania na antiga colónia britânica, pode começar-se a tirar a pele a muitos acontecimentos excessivamente politizados de ambos os lados da antiga fronteira, e tentar perceber qual o cordão umbilical que liga a Pérola do Delta do Rio das Pérolas à China.

Esse elo é um processo que ocorreu em simultâneo nos dois lados ao longo de duas décadas. "O que poucos forasteiros ocidentais notaram foi o desenvolvimento de um capitalismo entrelaçado que poderá ter a chave para a estabilidade futura de Hong Kong", sublinha Laurence Brahm, logo nas primeiras páginas. Com isso, o autor quer ressaltar o papel que a antiga colónia britânica desempenhou desde finais dos anos 70 como "laboratório" para o desenvolvimento do próprio capital "vermelho" na China.

Foi a percepção desse cruzamento objectivo de interesses que se traduziu também pelo virar de agulha em direcção a Beijing por parte de muitos capitalistas de etnia chinesa de Hong Kong e da diáspora asiática nos últimos anos. Subitamente, a ideia de "capitalista patriota" recuperou fôlego e voltou a estar bem cotada. Deixou de ser uma acusação pejorativa lançada à cara de bilionários que se teriam bandeado para o comunismo.

O que está em jogo é não só a gestão de oportunidades imensas de negócio numa China que acorda para o consumismo e para investimentos descomunais, mas, acima de tudo, um destino comum para uma complexa teia de capitais de dentro e de fora que acredita na afirmação geo-estratégica da China no próximo século.

Laurence Brahm, neste livrinho (pouco mais de 100 páginas) original, escrito como uma peça de teatro em três actos, conta como tudo começou, quando Deng Xiaoping, após a morte de Mao e livre do «Bando dos Quatro» (os líderes radicais mais papistas que o próprio papa), resolveu tirar da prateleira as antigas ideias de Liu Shaoqui e convidar o capitalismo a regressar. O engenho foi na forma de o fazer.

Deng convidou para o chá alguns dos descendentes das antigas famílias capitalistas chinesas, particularmente de Xangai, e colocou-os em «brain storming». Estávamos em 1979 e o vento das reformas económicas já havia sido lançado no ano anterior. Entre os convivas estava um homem, Rong Yiren, que redigiria o relatório de conclusões, de onde saíria o nascimento do primeiro «bébé» do novo tipo de capital, a CITIC-China International Trust and Investment Corporation.

A empresa era pensada como um conglomerado, que apanharia os cacos de diversos activos estatais, e se lançaria agressivamente nos mercados internacionais, em busca de dinheiro, de tecnologia, de «guanxi» (relações) e de projecção de uma nova imagem da China. A rampa de lançamento escolhida foi Hong Kong e o local de operações a própria Bolsa, uma das que mais contam no mundo.

Outro protótipo foi a China Everbright Holdings, para a frente da qual Deng foi buscar Wang Guangying, um dos filhos de um velho «tycoon» de Tianjin, por coincidência também o irmão mais novo da mulher do falecido Liu Shaoqui.

O modelo foi depois reproduzido por toda a China ao longo das duas décadas seguintes, e dos ministérios centrais, às províncias (particularmente Guangdong-Cantão e Xangai), aos municípios (especialmente das Zonas Económicas Especiais e cidades abertas costeiras) e às próprias Forças Armadas se começaram a criar conglomerados deste tipo. Os chineses mais cínicos alcunharam estas originalidades de "terceiro estado", e os novos teóricos da economia política chinesa englobam-nas no que designam por "sector não governamental" (que também inclui o capital privado puro de origem interna ou estrangeira), que, desde 1992, é maioritário em todas as áreas da economia chinesa.

Este processo ocorreu abertamente ou utilizando disfarces, e com a explosão do accionariato na China, da recompensa com acções aos gestores públicos e do entrelaçamento com capitais privados da diáspora ou recém-nascidos dentro da própria RPC, esta economia tornou-se um novelo muito intrincado e complexo. A ponte de passagem para a maioridade de todos os conglomerados "vermelhos" da RPC foi e é Hong Kong.


Ficha 7
Titulo: Red Capital
Autor: Laurence J. Brahm
ISBN: 962-8319-02-7
Editora: Naga, Room 2503B, Golden Center,
188 Des Voeux Road Central, Hong Kong
E-mail: nagahkvw@hk.super.net
Telef: 0085225819831
Fax: 0085225819906


LEIA DE SEGUIDA:
Laurence J. Brahm em entrevista sobre Red Capital

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal