Letra F


A CHINA:
FACE, FAVOR E FAMÍLIA



"Quando mais difusa e multifacetada for a nossa percepção da China, mais perto estaremos desse conceito ilusivo: a verdade".

Nos anos 80 e terminada a revolução cultural em 1976, a literatura chinesa começou a ganhar uma maior independência e, gradualmente, a influenciar valores sociais e até políticas governamentais. Um dos géneros que depressa ganhou proeminência foi o das "histórias curtas", também conhecidas na China por "histórias-um-minuto", "histórias de mil caracteres" ou "histórias-cigarro" e cujo principal atributo é a sua extrema brevidade. Publicadas em jornais e revistas, muitas delas ganharam prémios e têm vindo a iluminar com frescura e generosa mordacidade algumas das características da sociedade chinesa.

A troca de favores (renqing), o conceito lato de família que deve ser continuamente alimentado por uma complexa rede de relações (guanxi) e a face (mianzi) que é preciso "dar" e manter estão subjacentes a esta história em que um pequeno comerciante procura responder às dúvidas de um qualquer departamento de finanças.

Uma longa história

"Depois de analisadas as suas contas, não consigo perceber a quantia de 50 yuan que todos os meses V. debita em ´outras despesas financeiras´."

"Ah, esse dinheiro é para a minha irmã mais nova que trabalha na Escola Secundária de Shangban. Posso mostrar os papéis..."

"Por favor não me interprete mal. Não é que eu não acredite que de facto envia o dinheiro à sua irmã mas, porquê?"

"Porquê? Porque ela é minha irmã e depois, quando eu passei por dificuldades, ela enviava-me 50 yuan todos os meses para que eu pudesse sustentar a minha família.

Quando se licenciou, a minha irmã foi obrigada a mudar-se para uma zona montanhosa. Agora é a minha vez de a ajudar."

"Mas a sua irmã é casada e só tem um filho. Além disso o custo de vida na província é mais baixo. De certeza que não precisa da sua ajuda."

"De facto não precisa. O que acontece é que todos os meses a minha irmã tem de enviar 50 yuan para Yinshan, a terra natal do meu cunhado."

"Ah, é o seu cunhado que sustenta os pais?"

"Não, os pais já morreram há muitos anos."

"Então o dinheiro é enviado para quem?"

"Para a família de Lou Yuankai, um antigo companheiro de armas do meu cunhado durante o serviço militar."

"Quer dizer então que Lou Yuankai tem dificuldades financeiras?"

"Não, não, Lou morreu durante uma batalha na fronteira sino-vietnamita."

"Mas as famílias nessas condições recebem uma pensão do governo local..."

"Sim, é verdade, mas o pai de Lou envia 50 yuan mensalmente para Xiangyang, o local onde a unidade militar do filho estava estacionada."

"Para alguém em especial?"

"Antes de morrer, Lou enviava todos os meses 50 yuan a uma senhora cega e de idade avançada que uma vez lhe salvou a vida. Depois da sua morte e de acordo com os desejos do filho, o pai de Lou continuou os pagamentos."

"Que história tão complicada. V. envia dinheiro para a sua irmã que por sua vez o envia para Yinshan com o fim de ser reenviado para Xiangyang. Deve haver uma forma mais simples. Poupar-se-ia muito esforço e dinheiro se os 50 yuan fossem enviados directamente para Xiangyang."

Wang Zhi que todos os dias descia a rua de bicicleta com o vento dentro da camisa, respondeu tomando conta da palavras como se fossem de porcelana:

"Sim, é verdade. Mas a vida não é simples matemática e os sentimentos não seguem qualquer lógica." O outro bebeu então um copo de água. Porque a água sempre ajuda.

Face

A forte orientação social que caracteriza a sociedade chinesa torna difícil a abstracção de uma necessidade interpessoal ainda que apercebida. Em regra os chineses esperam que as pessoas antecipem as necessidades ou os sentimentos dos outros sem que haja uma comunicação expressa. Ao contrário das sociedades ocidentais não se espera que a gratidão se manifeste directa e ruidosamente mas antes se valoriza uma reciprocidade futura. Estranha-se, por exemplo, a frequência com que os ocidentais agradecem factos insignificantes: "obrigada, por me ter aberto a porta". O circuito complicado dos 50 yuan enviados por Wang Zhi permite-lhe corresponder a obrigações familiares, retribuir favores passados, exibir "face" mercê da sua recém-adquirida riqueza e "dar" (à irmã) "face".

O conceito de face está presente em todas as situações de relacionamento interpessoal e pode ser entendido de duas formas: como lian (face) e como mian ou mianzi (imagem, ou seja a ideia que cada um tem de si próprio quando se compara com os outros). Lian representa a confiança que a sociedade deposita na integridade moral de uma pessoa e cuja perda impedirá um funcionamento adequado no âmbito da comunidade atingida. Este conceito está também fortemente presente na sociedade japonesa e a demissão em Janeiro de 1998 do Ministro das Finanças Hiroshi Mitsuzuka na sequência de ilegalidades cometidas por dois dos seus funcionários é disso um bom exemplo.

O cuidado na preservação da face (nos dois sentidos) leva à utilização frequente de linguagem ambígua como no caso da história de um campeão de xadrez, orgulhoso das suas vitórias e que, num dia menos feliz, participou num torneio. No fim do jogo Feng Chengjin comentou o resultado: "À primeira volta não ganhei. Na segunda o meu adversário não perdeu e à terceira preferi retirar-me mas ele não deixou."

Em oposição às estratégias ocidentais é também raro que se tomem posições no momento. Mesmo que instados, os chineses tendem a remeter para mais tarde as suas opiniões que, se o assunto for grave, serão manifestadas através de um ou mais intermediários. As conversas públicas tendem a ser ritualizadas por forma a evitar situações em que a face seja posta em causa. Há cerca de três anos lembro-me de participar numa reunião em que se discutia assuntos de interesse para alguns funcionários presentes. Um deles, Lu Tai que se encontrava de férias, foi chamado especialmente para a ocasião. Foram horas de conversa e, por fim, quando se tentava resumir as diferentes opiniões foi perguntado a cada um o que pensava. "Qual é a sua posição Lu Tai?" A resposta veio pronta: "O Lu Tai está de férias".

Além do uso generalizado de intermediários - a utilizar sempre no início de uma relação ou na resolução de qualquer conflito - o falatório (alcovitice ou mexerico) é outra estratégia de comunicação cuja principal finalidade é a preservação da face.

O falatório

A palavra chinesayilan significa ´falatório´ ou seja ´fazer comentários nas costas de uma pessoa´. O yilan é uma característica essencial da sociedade chinesa e destina-se a transferir para as conversas privadas o que se fosse dito em público poria em causa a própria face ou a de outros. As conversas privadas tendem a ser urgentes e absolutamente necessárias. Existem diversos trabalhos sobre a importância do yilan (Bond e Lee, 1981; Gao, 1994) na cultura chinesa e todos apontam para a frequência (elevada em relação a outras sociedades, já que o falatório é um fenómeno mundial) com que se fazem comentários críticos em relação a um orador na sua situação de não informado em detrimento de, por exemplo, em situação de anonimato ou no confronto de opiniões cara-a-cara. Os autores explicam esta discrepância através da preocupação com a face dos outros. Em público as opiniões individuais não devem ser reveladas para protecção da face e observação correcta das diferenças de estatuto. O yilan aparece como uma forma de compensar a contenção do comportamento em público e expressar sentimentos e queixas quanto a superiores, pais, professores e outras pessoas que exercem alguma forma de controlo.

Mas existe o reverso da medalha: a preocupação com a face torna a pessoa vulnerável não só ao que os outros disseram mas também à antecipação de potencial falatório. Como a informação privada pode ser tópico de yilan existe um receio permanente na revelação de emoções negativas e do "eu" interior aos outros. No ocidente, pelo contrário, utiliza-se com frequência informação particular como uma forma de iniciar e alimentar relações. É frequente que um estudante chinês saiba mais acerca da vida privada do seu colega ocidental do que este alguma vez venha a saber sobre o seu colega chinês. É também pouco provável que alguma vez seja convidado para visitar a sua casa. Muitos dos meus colegas de trabalho já visitaram a minha casa, quase sempre por curiosidade própria, mas eu nunca visitei a casa deles.

O favor

Face, favor e família são frequentemente considerados os elementos essenciais da cultura chinesa, isto é: conseguir fazer coisas por virtude de obrigações que outros nos devem e conceder favores a outros na expectativa de obter algo em troca, agora ou no futuro. Esta permanente necessidade de ´lubrificação´ social passa também por tudo fazer a fim de que a própria face, a da família e a dos amigos seja mantida.

Existe entre os elementos da sociedade como que uma permanente conta-corrente onde se debitam e creditam favores e as nossas perspectivas de sucesso futuro estarão relacionadas com a extensão dos favores a haver por nós ou pela nossa família. Lembro-me de entrevistar em Cantão um produtor de software para computadores que, apesar de ter iniciado o negócio quase sem capital se poderia considerar um empresário de sucesso. Um dos motivos apontados parecia ser a promoção que lhe era feita com frequência num dos mais importantes jornais. Anos antes a mulher, professora universitária, tinha conseguido fazer entrar num curso difícil a filha de um jornalista que, anos mais tarde e no momento oportuno, se encarregaria de escrever as notícias. A relação era assumida com naturalidade: "A filha do meu amigo foi uma boa aluna, o meu software tem óptima qualidade. Ambos contribuimos para o engrandecimento da China."

O favor está também directamente ligado à existência de guanxi, ou rede complexa de relações que se inicia na família e que se estende dia a dia ao longo da vida. A educação, o trabalho ou a residência fornecem oportunidades para o alargamento da rede que se mantém mesmo quando a situação que a provocou tenha terminado. O enriquecimento da rede, a sua permanência no tempo e a sua transmissão à geração seguinte dependem em grande parte da capacidade do indivíduo em utilizar e jogar o jogo do favor.

A família

Disse um dia um funcionário estrangeiro estacionado em Hong Kong: "Não se pode generalizar o comportamento de todos os homens de negócios chineses mas se pudermos compreender o seu amor pelo dinheiro e o seu desejo em proporcionar a melhor segurança para as suas famílias, então poderemos negociar com eles. Geralmente os estrangeiros chegam à China com a ideia de fazerem dinheiro rapidamente. Mas esquecem-se que são estrangeiros, que não são da família".

No contexto chinês, a família constitui a mais importante unidade social e a sua contribuição para a identidade do indivíduo foi moldada por normas e valores culturais através dos tempos e é mantida pela veneração dos antepassados mas também em relação ao futuro, pela obrigação implícita de ter filhos que possam assegurar a sua continuação.

A família chinesa é extremamente unida e constitui uma fonte de apoio e segurança para todos os seus membros, tendo por base o princípio confucionista de devoção filial. A devoção filial justifica a autoridade paternal absoluta sobre os filhos e o respeito que é devido por estes não só aos pais mas, por extensão, a todos os mais velhos. As obrigações dos filhos, materiais ou espirituais deverão ser assumidas a partir de uma idade determinada e até ao fim da vida. Logo que comecem a ganhar dinheiro os filhos têm obrigação de contribuir regularmente para o bem estar dos pais.

Nestas condições é preferível que todos trabalhem para o bem comum e não espanta que as empresas familiares chinesas sejam um elemento de grande vitalidade e sucesso económico nos locais onde lhes tem sido possível estabelecer-se. Perguntei há dias a um colega qual a importância (e disponibilidade) que atribuia ao trabalho (função pública) na sua vida: "Uns 30%", respondeu medindo a relação."10% são para mim, e o resto é para a família". "Uma percentagem assim tão grande para a família, porquê?"

"Porque sem família não haveria Joe". Talvez um primo meu pudesse ter dito: "Sem Joe não haveria família".


Referências:

  • Bond, M.H., and Lee, P.W.H. (1981). "Face-saving in Chinese culture: A discussion and experimental study of Hong Kong students". In A.Y.C. King and R.P.L. Lee Eds. 'Social Life and Development in Hong Kong'(pp288-305), Hong Kong, Chinese University Press.
  • Gao, G. (1994). "Self and other: A Chinese perspective on interpersonal relationships'. Paper presented at the annual meeting of the International Communication Association, Sydney, July.


    Textos originais publicados na Revista Macau © Virgínia Trigo
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