Estória VI

Ventos de Guerra no Horizonte?

Jorge Nascimento Rodrigues em Xangai


Boneco: Cenários


A batalha literária sobre a hegemonia no séc. XXI


CENÁRIOS DE GUERRA E PAZ NA ÁSIA


Falcões, pombas e mensageiros da «coexistência» entre novos blocos reaparecem no debate geo-estratégico, desde que a China começou a ser olhada no Ocidente como a nova superpotência emergente na Ásia

As guerras de cenários entre analistas e académicos ou entre autores de ficção são o primeiro sintoma de uma nova «paz fria» emergente, agora num outro teatro, a Ásia.

Os últimos meses assistiram ao desfilar de um debate nos Estados Unidos entre antigos jornalistas baseados em Beijing e académicos sobre a ascensão da China a nova potência hegemonista no próximo século.

Foto: Ilhota Mischief Por outro lado, as primeiras obras de "imaginação" de guerras futuras fazem a sua aparição e tornam-se êxitos de venda, o que já não se via desde que um general inglês escreveu A Terceira Guerra Mundial, no solo europeu, entre a NATO e o Pacto de Varsóvia.

Em simultâneo, editoras americanas remexem nos «papers» mais recentes da Academia de Ciências Militares de Beijing e dão à luz, com toda a crueza, a nova doutrina militar chinesa.

Esta situação é nova. Até meados do ano passado, o fenómeno da reforma capitalista da China era encarado, apenas, pelo lado económico. John Naisbitt e outros analistas começaram, no início dos anos 90, a chamar a atenção para a emergência de uma nova superpotência económica na Ásia - o guru futurista deu-lhe mesmo a honra de ser uma "megatendência".

Ilhota Spratly Esta ascensão da China no campo económico começava a desalojar o Japão do lugar de faról no campo dos modelos de desenvolvimento capitalista, algo "milagroso", na Ásia/Pacífico. Por outro lado, deslocava a ênfase do "Século do Pacífico" para o "Século da Ásia".

Esta mudança de palavras - de "Japão" para "China" e de "Pacífico" para "Ásia" - acordou os ocidentais meio enebriados pelos milhões de dólares de oportunidades de negócio no novo dragão, que os fez sonhar com um novo mundo global capitalista sem manchas de "paz fria".

O provocador Huntington

A fagulha que incendiou a literatura geo-estratégica pós-guerra fria foi uma obra, do final do ano passado, com o título provocatório de O choque entre civilizações e a reformulação da ordem mundial, escrita por Samuel Huntington, um académico de Harvard (O que diz Huntington).

A tese subjacente é que a China quer passar paulatinamente do projecto económico de uma "Grande China" capitalista - retomando a administração de Hong Kong e Macau, reunificando com Taiwan e apertando os laços com os chineses ricos da diáspora sobretudo asiática - para a ambição de reassumir o velho papel de potência hegemónica "natural" na Ásia Oriental.

Os analistas americanos mais radicais vão ao ponto de argumentarem que a China pós-Deng quer retomar a lógica geo-estratégica da dinastia manchu (desaparecida em 1911), que chegara a tecer uma zona de influência que abrangia as penínsulas coreana e indo-chinesa, a Mongólia e os Himalaias, e que, agora, veria com bons olhos a «finlandização» de todos esses estados fronteiriços, bem como o domínio político-militar das zonas de passagem e dos bancos petrolíferos do Mar do Sul da China.

O ambiente global para esta afirmação geo-estratégica seria francamente favorável na Ásia.

O crescimento de uma ideologia «asiatista» nos últimos anos reclama a clara separação com outros valores civilizacionais e exige que «modernização» não seja confundida com ocidentalização.

Por outro lado, a "Grande China" é hoje o mercado capitalista mais ambicionado da Ásia, face às nuvens nos outros "milagres" asiáticos.

Livro: Dragon Strike O argumento capitalista mais convincente para ganhar o "neutralismo" dos ocidentais e de outros países com voracidade de negócios, é posto assim na boca de um ministro chinês dos negócios estrangeiros, obviamente de ficção, ex-colega de líderes americanos e japoneses em Harvard, no romance Dragon Strike - The Millennium War, escrito por dois jornalistas ingleses (e editado agora pela Sidgwick & Jackson, de Londres): "O dinheiro e não a guerra é a principal alavanca. «Incidentes» não vão alterar isto. Quem é que quer a guerra, se estamos todos a fazer bom dinheiro?".

Confronto ou acomodação?

Isto colocaria um desafio enorme aos Estados Unidos, que continuam a ambicionar ser a potência hegemónica em todo o Pacífico, e ao Japão, que quiz ser o líder regional incontestado de todos os «dragões» e «tigres».

As opções giram entre dois pólos: ou prepararem-se para o confronto militar (inclusive nuclear, espacial e informacional) no próximo século, ou arranjar uma "acomodação" com as ambições hegemónicas chinesas na Ásia, redesenhando uma nova geografia da "coexistência" entre zonas de influência.

A questão que sobra, por ora, nestas discussões académico-novelistas, é saber se os blocos se ficariam pela Ásia Oriental, ou se lentamente se "estenderiam" ao resto do planeta, através de novos "eixos", como a aliança estratégica entre potências islâmicas (como o Irão e o Paquistão) e a China, como aventa Huntington na obra a que nos referimos acima.

Livro: Conflict with China Os jornalistas Richard Bernstein e Ross Munro em The Coming Conflict with China argumentam que a China não pode ser mais encarada como um "tigre de papel" no plano militar.

Para o perceber bastaria ler Chinese Views of Future Warfare (ISBN 1579060358) coligido por Michael Pillsbury e editado pela National Defense University, de Washington, a partir de 40 ensaios e discursos sobre a revolução da "terceira vaga" no Exército Popular de Libertação chinês, ou China can say No, da autoria de Song Qiang, Zhang Zangzang, Qiao Bian e outros jovens chineses que ambicionam vingar o nacionalismo ferido da China, desde finais do século XIX.

Por isso tudo, a China seria o "adversário estratégico do Ocidente, e em particular dos Estados Unidos na Ásia/Pacífico". O estreitamento da aliança ocidental com o Japão, permitindo a este um papel mundial e regional mais activo, inclusive baseado numa força nuclear de disuasão própria, e a eventual "preservação" de Taiwan (esta ilha funcionaria como Cuba para os russos em relação aos americanos nos tempos da Guerra Fria) entrariam no cordão sanitário indispensável.

Livro: Great Wall No oposto, o académico Robert Ross escreveu com Andrew Nathan em The Great Wall and the Empty Fortress: China´s Search for Security que a China ainda é "fraca para desafiar a balança do poder" e que o que é necessário, da parte do Ocidente, é uma tática de neutralização de potenciais desestabilizações na região e nunca uma estratégia para conter uma futura superpotência hegemonista.

Argumentam em defesa da tese: "A China deseja desenvolver-se nos próximos tempos e por isso tentará manter o status quo". O livro deixa mesmo no ar um espírito de concessão, no caso de conflito militar no Mar do Sul da China: "Ilhotas como as Spratly [reclamadas pela China face a vietnamitas e filipinos] não são estrategicamente significativas para que o Ocidente tenha de reagir".

Ora são precisamente estas ilhotas, encravadas estrategicamente nos corredores fundamentais de navegação nos mares do Sul da China e rodeadas de plataformas de petróleo, que entram nas ficções de guerra como a ignição de um conflito de grandes proporções na Ásia no começo do próximo milénio.

Os cenários de guerra, pintados ao de leve para 2010 por Samuel Huntington (no livro a que fizemos referência, quase no final, a partir da pág. 313) ou logo para Fevereiro de 2001 pelo romance Dragon Strike, começam invariavelmente por ataques-surpresa por parte da China de neutralização do Vietname e de conquista das ilhotas de Spratly e Paracel.

O resto é o efeito dominó de guerras locais em cadeia, em que se envolvem quase todos os grandes intervenientes da região, e com desenlaçes que são, nalguns casos, surpresa. O enredo vale a pena ser lido, por isso não o desvendamos.

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