Estória IV

A Febre da Web na China

Jorge Nascimento Rodrigues em Xangai


Entre a oportunidade de negócio e a tentação totalitária


A aposta infraestrutural é enorme na China. Segundo a revista Fortune desta semana (edição nº16, de 18 de Agosto de 1997), este país será o que mais vai investir nos próximos anos em fibra óptica e cobertura telefónica em toda a Ásia (ver artigo "Asia's Infotech Explosion").

Serão 62 biliões de dólares no ano 2000 para estender 300 mil quilómetros de fibra óptica e passar de 3 telefones por cada 100 habitantes para o dobro no início do novo milénio, o que contudo será, ainda, um indicador muito baixo. Na esteira desse investimento, espera-se que os utilizadores da Internet registados venham a saltar dos 105 mil actuais (segundo outras fontes, já serão mais de 150 mil) para dois milhões, o que colocará a China num dos lugares cimeiros na Ásia, atrás do Japão (que actualmente já tem 1,6 milhões de utilizadores).

Não admira, por isso, que o próprio poder olhe a Internet como uma janela de oportunidade e que os empresários "vermelhos" e outros se tenham lançado nela a fundo, tentando emular Singapura (maior número de PC por cada 100 pessoas e maior número de utilizadores da Net por 100 mil habitantes em toda a Ásia), onde o governo também tenta controlar politica e moralmente o circuito e afunilar o seu uso para os negócios e um ensino "despoluído".

Uma das iniciativas mais conhecidas do capital "vermelho" é a China Internet Corporation (CIC), uma empresa baseada em Hong Kong, que é uma emanação da agência oficial de noticias chinesa, a Xinhua. Criada em 1995, a CIC utiliza a máquina administrativa da Xinhua por toda a China e está a construir uma Web para os negócios puramente chinesa, a China Wide Web, com apoio informativo da Bloomberg, Reuters, Dun & Bradstreet, Nikkei, Thomson e Financial Times, e com apoio técnico da Sun Microsystems, Netscape, Bay Networks e Oracle.

Acessível em www.china.com/, a CIC presta um conjunto de serviços às comunidades empresariais estrangeiras - permitindo-lhes a hospedagem de páginas em chinês, inteiramente criadas e mantidas por ela, dirigidas ao mercado emergente em váris províncias -, bem como é uma janela para o mundo para as empresas chinesas.

Outro traço actual na China é a febre dos «Cafés Internet» que é visível sobretudo em Beijing e Xangai. Uma das empresas que tem estado na vanguarda deste negócio é a Sparkice, que em «joint venture» com a Unicom planeia lançar 100 novos cafés no próximo ano nas 10 maiores cidades chinesas.

No entanto estar "ligado" na China não é fácil, pois uma parte do poder teme que a Net seja mais "um cavalo de tróia". Apesar da moda, entre algumas camadas estudantis e de profissionais na área da tecnologia ou quadros das empresas com capital estrangeiro, ser de se perguntarem uns aos outros "ni shangwangle ma?" (já estás ligado?), a operação é muito complexa e cara.

O controlo é quase total por parte das autoridades, desde que se compra um simples «modem», se faz inscrição para ter ligação à Net, ou se senta em frente de um computador num café internet. O preço que se paga é incomportável, para quem não tenha rendimentos obtidos na iniciativa privada ou em empresas estrangeiras, não pertença à élite do capital "vermelho", ou não possa usar "à borla" as ligações universitárias ou de empresas com capital estrangeiro.

Quanto ao acesso à Web, os filtros são múltiplos, desde o "departamento respectivo" - a forma irónica como os cibernautas se referem ao Departamento de Segurança Pública - a nível central, provincial e local, até ao próprio fornecedor de serviços Internet ou ao próprio café. Pelo meio, funciona "o desincentivo de se temer estar a ser vigiado", como o explicou, preto no branco, um dos responsáveis do referido departamento a uma reportagem de Geremie Barmé e Sang Ye na revista «Wired» (edição de Junho de 1997, ver "The Great Firewall of China", ou em www.wired.com/5.06/china/).

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