Estória III

A quarta revolução no sexto dragão

Jorge Nascimento Rodrigues em Xangai

Foto: Pudong face a Xangai


A mudança em curso na cidade que quer ser a Nova Iorque do Pacífico


Xangai é hoje para o forasteiro ocidental uma vitrina da revolução capitalista na China, tal como Guangdong (a província de Cantão, no Sul) o foi na década passada. A cidade é um autêntico estaleiro. Em qualquer direcção que se vá apanha-se com o pó e o bulício de erguer gigantes de dia e de noite. Só a nível de escritórios, segundo dados da Richard Ellis, estão em construção 22 novos blocos com mais de 1 milhão de metros quadrados. A antiga zona colonial das "concessões", ocupada antes de 1949 pelas potências europeias, entre as ruas de Nanquim e de Huaihai, está em total rebuliço.

Mas, o resto da cidade não lhe fica atrás. Em termos residenciais, estão em curso 121 projectos de arranha-céus que irão colocar no mercado de habitação 45 mil novos apartamentos, virados para os chineses da diáspora, os capitalistas "vermelhos", os jovens empresários de sucesso e os estrangeiros. No meio desta euforia imobiliária, os mediadores garantem que não vão repetir a bolha especulativa que ocorreu, no início dos anos 90, no Sul, por toda a Província de Guangdong e Macau.

O perfume de mudança sente-se em coisas mais comezinhas. Vê-se nas ruas apinhadas de gente às compras ou fazendo bicha para jogar na "raspadinha", no caos do trânsito de bicicletas, motoretas e táxis sempre em direcção a algum lugar (não andar de transporte público já significa alguma coisa).

Respira-se no Bund - a imagem de marca da cidade, junto ao rio - onde os jovens novos ricos se exibem de telefone móvel e os casalinhos remedeados, de «jeans» e pequenina máquina fotográfica, vêm tirar a fotografia da praxe com a Torre da TV "Pérola Oriental", em Pudong, como pano de fundo. Nas lojas de comes-e-bebes à beira rua ou nos restaurantezinhos a imitar imagens de revista come-se muito e com prazer, fuma-se e bebe-se imensa cerveja e é-se interrompido, entre duas garfadas, pelo apito dos «bips» ou dos telemóveis.

Mas a ebulição comercial é ainda mais impressionante. Para quem ainda tenha a imagem da China vermelha à semelhança do antigo Leste europeu de prateleiras vazias, dá de caras com o comércio por todo o lado. Em cada canto há um espaço, misturando-se, à boa maneira chinesa, a loja de marca internacional com o lugar de mercearia ou a semi-tenda de venda de vestuário, de ouro de poucos quilates e jade de enésima escolha, ou de quinquilharias. O registo citadino declara que, em fins de 1995, havia mais de 120 mil lojas de retalho de pequenos empresário(a)s em nome individual ou geridas por privados.

No outro escalão estão cerca de mil espaços pertencentes a cadeias locais - como a Hualian e a Lianhua - e uma explosão de «shoppings» de capital privado ou misto, a que se somam 23 espaços gigantes ligados aos estrangeiros, como o Carrefour ou o Yaoban japonês. O resto são sete mil lojas pertencentes ao Estado, onde pulula um exército de empregadas de bata e identificação ao peito (por exemplo, funcionária número mil e tal), mas onde se deu uma reviravolta geral, apelando ao consumismo. Nas lojas de vestuário feminino é um verdadeiro divertimento ver as damas de Xangai de menos posses girar em volta de manequins (que não são de pele e osso) ao estilo dos anos 50 e 60.

Do pó e das armações em bambú saíu recentemente a maior - em metros quadrados - Bolsa do Oriente. Ao fim de sete anos a funcionar num espaço de hotel, a Bolsa de Xangai ocupa, agora, um edificio descomunal que faz lembrar o Arco do Triunfo, mas em metal e vidro, e que será, segundo os líderes da cidade, o "maior espaço para actividade bolsista na Ásia-Pacífico".

Xangai também quer estar na ponta da reforma das grandes empresas pertencentes ao Estado. Até 2010, o governo local quer eliminar 2/3 das velhas fábricas poluentes, nalguns casos em edificios do início da revolução industrial, encravados em pleno centro da cidade. Do que restar, a ambição estratégica é vir a criar uma dezena de conglomerados de nível mundial, capazes de entrar, no próximo século, para as 500 da revista «Fortune». Actualmente, estão lá três entidades todas de Beijing - o Banco da China (164º lugar), e duas «tradings», a Sinochem (204º lugar) e a COFCO (370º lugar) - mas nenhuma de Xangai, lastiman-se. Para já, a aposta recaíu em 54 empresas locais do capital "vermelho".

Mas, o impacto social desta destruição «shumpeteriana» tem um preço muito elevado. Numa primeira fase, custou às famílias de Xangai mais de um milhão de desempregados, e proximamente mais uns 400 mil postos de trabalho, segundo o diário «Estrela de Xangai», que ainda se pode comprar a pouco mais de vinte escudos. As principais vítimas desta reestruturação gigante são a indústria do têxtil e a mulher.Os artigos de jornal contam as histórias com toda a crueza da realidade. Entre 1992 e o ano 2000 calcula-se o «lay-off» global em 350 mil operárias têxteis despedidas ou a despedir, de pouquissimas habilitações e terrivelmente desactualizadas, que, com dificuldade, os novos centros de formação local conseguirão transformar mesmo em empregadas de hotel ou domésticas para casas das classes A e B.

O desemprego é, de facto, uma dor de cabeça tão grande como na Europa, temem os locais. A ebulição imobiliária, hoteleira, no comércio e em tudo o que mexe em termos privados ou por iniciativa do capital "vermelho" tem servido de sorvedouro. Mas, mesmo assim, fica muita gente de fora - em média, entre 92 e 96, foram lançados no desemprego 1,3 milhões e reabsorvidos 1,1. A única saída é dar mais uma série de passos em frente.

No pico desse vanguardismo está Pudong, a nova zona de desenvolvimento exuberante do outro lado do rio Huangpu, um afluente do Yangtzé. Os líderes chineses decidiram em 1992 que a zona deveria ser a "cabeça" de um novo "dragão" da Ásia, o sexto (depois da Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, Hong Kong e mais recentemente Guangdong), que abrangesse Xangai e toda a bacia do estratégico rio Yangtzé (ver noticia). Há perímetros para tudo em construção permanente, desde essa altura - área financeira, zona de off-shore, implantação de fábricas (já lá estão diversas multinacionais), parque tecnológico gigante e área residencial de luxo.

Mas porque se mexe assim Xangai? Ela quer voltar a ser a "Nova Iorque da Ásia", recorda Lynn Pan, uma das novelistas da diáspora que mais escreveu sobre a sua cidade natal. Depois da revolução republicana contra o último imperador, da vitória comunista que fez a China sair da ocupação japonesa e da presença colonial, e da tragédia da revolução cultural, Xangai vive a sua quarta evolução, a da "economia de mercado socialista".


LER AINDA:
A Dama de Xangai

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal