Letra E


CHINA EMPRESARIAL



"Quando mais difusa e multifacetada for a nossa percepção da China, mais perto estaremos desse conceito ilusivo: a verdade".
(Jonathan Spence, 1990)


Talvez a obra mais conhecida da literatura chinesa seja o romance de Cao Xueqin, "The Story of the Stone", também conhecido por "The Dream of the Red Chamber", publicado por volta de 1970.

O livro conta a história das venturas e desventuras de dois ramos de uma família aristocrática que habitam dois palácios contíguos em Beijing. Os palácios têm em comum um jardim magnífico, repleto de lagos e pavilhões, que os membros mais jovens de ambas as famílias, quase todos mulheres, podem frequentar.

Um dia a gestão do jardim foi entregue a Tan-Chun, uma mulher que, apreciada a situação, afirmou: "Penso que deveríamos escolher, de entre as mulheres mais velhas e experientes que trabalham no jardim, algumas que percebam bem de jardinagem e a quem possamos confiar o jardim. Não precisam de nos pagar renda, mas apenas uma quota parte do que produzirem. Existem pelo menos quatro vantagens neste acordo. Em primeiro lugar, se tivermos pessoas que se dediquem em exclusivo ao tratamento das árvores e plantas, as condições do jardim serão consideravelmente melhoradas, deixando de existir longos períodos de abandono seguidos de actividade febril. Os desperdícios diminuirão e as mulheres poderão retirar algum rendimento que as compensará pelo seu trabalho. Por fim, o dinheiro que teríamos de gastar em jardineiros, pessoal de limpeza e outros, poderá ser utilizado de forma diferente."

À medida que a história continua, este processo de privatização capitalista do jardim - porque é disso que se trata - desenvolver-se e dará resultado, tal como aconteceria séculos mais tarde com o processo encetado por Deng Xiaoping.

No processo lançado por Deng, a um dado produtor é concedido o acesso aos meios de produção, enquanto lhe é exigido um "tributo" por meios negociais ou outros.

O pequeno capitalismo

Há pelo menos mil anos que a população chinesa convive com dois sistemas político-económicos diferentes, que lhes oferecem possibilidades e limitações frequentemente contraditórias.

Na terminologia utilizada por Hill Gates no livro China´s Monitor, um dos sistemas é designado por "modo de produção tributário", gerido pelo Estado e o outro por "pequeno capitalismo", ou seja o negócio familiar. O dinamismo e a irreprimível energia investida nestes negócios contrastam com a passiva falta de produtividade dos mesmos trabalhadores nas empresas estatais.

As empresas familiares chinesas regem-se por princípios e práticas semelhantes em Taiwan, na Tailândia, Hong Kong, ou onde quer que se encontrem: o comprador deve comprar tão barato quanto possível, o vendedor vender tão caro quanto possível e o lucro da transacção ir directamente para os respectivos bolsos. Empregam, prioritariamente, familiares de confiança e as ligações pessoais condicionam as relações de produção.

Estes princípios foram, ao longo da última década, reinventados na China, onde se pode de novo negociar, com o condutor, o espaço num comboio. O pequeno capitalismo inato coexiste com, beneficia de, e invade as grandes empresas estatais, submetendo-se ao modo de produção tributário que regula e estabelece limites à acumulação privada de recursos.

Nas décadas que se seguiram à revolução de 1949, o pequeno capitalismo, dominante na China empresarial, foi progressivamente restringido aos interesses da construção de uma nova forma social. O socialismo chinês começou por um compromisso com o ideal socialista de igualdade na abundância e de uma sociedade sem classes, orientada para o crescimento.

Nesta procura de uma forma correcta de viver, as pequenas empresas privadas foram, nos primeiros anos, subsistindo (em 1953 existiam cerca de vinte milhões na indústria e no comércio), para, a partir de 1957, se assistir à sua quase completa destruição.

Após as privatizações dos anos 80, muitos chineses dispuseram-se a agarrar, com um entusiasmo assinalável, as novas oportunidades, adoptando formas organizativas congruentes com a sua complexidade cultural e integrando-se com facilidade no modo de produção tributário.

Yu Youfu foi um dos primeiros intérpretes do pequeno capitalismo renascido.

O cultivador de pérolas

A aldeia de Yu Youfu situa-se na base de uma montanha e está rodeada de riachos e de muitos pequenos lagos, onde sempre existiram peixes e onde se ia tomar banho. Yu Youfu, a quem os pais deram esse nome por significar "muito dinheiro", nunca esperou que esse lagos e riachos lhe trouxessem tamanha riqueza.

Tudo começou quando, em 1980, Yu foi visitar a sogra. Ao falar disto e daquilo, contaram-lhe a história de vizinhos que, em pouco tempo, tinham ficado ricos. "É muito fácil", disseram, "cultivam pérolas em lagos e riachos. Os custos de produção são muito baixos e um cate pode valer 1.200 yuan".

Yu Youfu fez as contas: nessa época ele e a sua família trabalhavam no campo todo o dia, mas o seu rendimento anual era apenas 240 yuan (menos de 8 contos anuis). Se criasse 300 ostras, obteria 3.000 cates de pérolas e vendê-las-ia por 3.600 yuan (mais de cem contos).

Nessa noite não dormiu. "Os vizinhos tentaram dissuadir-me e a minha mulher também não gostou da ideia, mas eu sou o chefe de família e, com o tempo, ela teve de se habituar. O maior problema foi arranjar o dinheiro. Pedindo a familiares aqui e ali acabámos por conseguir 2.500 yuan".

Com esse dinheiro, Yu comprou ostras e, com a ajuda de um especialista da província de Jiangsu, começou por criar 1.600 ostras. Ataram cada uma delas com um fio muito fino, preso a paus de bambu e mergulharam-nas no lago. Depois foi esperar.

Yu andava preocupado. Será que as ostras estão a crescer? Será que têm pérolas? No final do décimo mês, queria desesperamente saber o resultado e não conseguiu aguentar: foi ao lago, trouxe 300 ostras e abriu-as.

Era Outubro de 1981, quinze meses antes de estar completo o período de crescimento normal mas, para sua grande alegria, Yu conseguiu colher quatro cates de pérolas. A qualidade, porém, não era boa e Yu foi negociar com um fabricante de medicina chinesa, que lhe ofereceu, por metade das pérolas, 460 yuan por cate e, pela outra metade, 200 yuan.

As suas pérolas valiam mais, pensava Yu, e levou-as a um comerciante de Wuhan, na província de Hubei, a quem pediu 550 yuan por cate. O comerciante recusou e acabaram por acertar em 1.840 yuan para toda a produção.

"Quando ele me deu o dinheiro, faltaram-me as palavras. Tinha sonhado com este momento durante tanto tempo. Fiquei tão feliz! Contei as notas com todo o cuidado, eram tantas e todas minhas! Não me atrevi a contar a ninguém a minha boa sorte, as coisas poderiam mudar, eu poderia vir a ser acusado de capitalista e o dinheiro confiscado. Mostrei-o com orgulho à minha mulher e escondemo-lo", conta Yu.

Em Abril do ano seguinte Yu colheu as restantes 1.300 ostras e conseguiu 15,6 cates e 7.199 yuan em dinheiro. A sua família tornou-se a primeira "família de dez mil yuan" da aldeia e motivo de orgulho. Gente das aldeias vizinhas vinha com frequência consultá-lo.

Yu construíu duas casas de dois andares para os seus dois filhos e mobilou-as com todas as comodidades modernas. Na sua aldeia quase todos têm o apelido "Yu": são descendentes de um mesmo antepassado. Yu acha uma obrigação ajudá-los, pelo que, das 235 famílias da aldeia, 211 dedicam-se agora à cultura da pérolas.

Explica-se Yu: "Claro que quanto mais gente houver no negócio, maior é a concorrência. Mas não tenho medo. Os meus filhos e noras dominam as técnicas, tornámo-nos criadores de ostras e, com o crescente interesse pela cultura de pérolas, a procura de ostras aumentou".

Yu aprendeu a prestar atenção às subtilezas do mercado e lê regularmente muitos jornais. Tendo viajado mais do que qualquer um dos seus vizinhos, a sua esfera de interesses é bastante diversificada. Contudo, ainda não se sente completamente à vontade, com medo que a política mude um dia. Entretanto, faz todo o possível para ajudar vizinhos e familiares a tornarem-se tão ricos como ele. "Sou feliz, tão feliz!", diz com um largo sorriso.

A condição essencial para a sobrevivência do pequeno capitalismo, de que Yu é um exemplo e que subjaz à construção de uma China empresarial, é a existência de um sistema complexo e persistente de laços familiares. Apesar dos seus detractores, o seu pequeno capitalismo tem alguns aspectos positivos: é economicamente produtivo e possui, tendencialmente, algumas características igualitárias.

Discute-se com frequência que modelo económico de sucesso asiático a China irá seguir. Durante mais de mil anos a sociedade chinesa foi moldada (por dentro) por persistentes relações entre a consaguinidade, o tributo governante/governado e o mercado.

Ver, na sofisticação imensa da cultura chinesa, como foram e são vividas essas vidas, estudar a herança do pequeno capitalismo e as suas relações com o modo de produção tributário, poderá constituir uma via de estudo do modelo a seguir.

Com as dificuldades de prognóstico que reservo relativamente à China, tenho para mim que esse modelo será próprio e não adoptado.


Textos originais publicados na Revista Macau © Virgínia Trigo
Reprodução On-line ou em papel não permitida sem autorização prévia.

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