Letra D
A CHINA
DENGUISTA
Sob o modesto nome de "reformas" Deng Xiaoping - o patriarca chinês recentemente
desaparecido - provocou-se uma verdadeira revolução na China, que resultou
numa melhoria real da qualidade de vida das pessoas.
"Em minha opinião, não se deve exagerar o papel de um único indivíduo. Afinal
de contas, todos haveremos de morrer um dia e é errado pensar-se que, quando
chegar a minha vez, a China perderá a sua alma. Embora continue a fazer algum
trabalho enquanto me for possível, o meu desejo é afastar-me da cena política",
dizia Deng Xiaoping em 1988, num encontro com o Presidente Gustav Husak da
Checoslováquia.
Um optimista para quem a política era como as ondas do mar: umas vezes está-se
no topo e outras lá bem em baixo. Um sobrevivente, que subiu e caiu do poder
pelo menos três vezes: "Para ser franco, não porque eu tivesse feito algo
de errado, mas porque fiz coisas certas que foram interpretadas como erradas".
Agora que Deng, como gostavam de dizer ele próprio e os seus velhos companheiros
da Longa Marcha, "se foi encontrar com Marx", resta saber que lugar lhe será
reservado pela História. Provavelmente, o do homem que, numa década e meia
de transição, garantiu à China um considerável progresso económico.
Mas,
se nos anais da História não é grande o capítulo destinado àqueles que contribuíram
para este avanço, talvez nunca, como com Deng, uma sociedade estabelecida
tenha sofrido transformação tão completa, sem guerra, revolução violenta ou
colapso económico.
No século XX, a China passou de uma para outra revolução, sem que as mudanças
tivessem sido muito visíveis. Sob o modesto nome de "reformas", Deng, provocou
de facto uma revolução verdadeira: os padrões de vida melhoraram substancialmente,
as pessoas passaram a poder circular de uma forma mais livre na procura de
uma vida melhor e, em vez de promessas, experimentaram avanços reais. É um
facto que muito pode ser imputado ao génio do povo chinês, mas a criação de
um ambiente favorável terá de ser creditada a Deng e ao seu estilo de governação.
Um líder por detrás da cena
Deng governou de uma forma muito diferente do seu antecessor (Mao) e fê-lo
muito mais de acordo com as normas tradicionais chinesas, segundo as quais
os grandes líderes devem exibir um comportamento despretencioso sem os dotes
oratórios ou a postura transcendente, características dos líderes ocidentais.
Nas cidades chinesas não se vêem estátuas de pessoas isoladas com o dedo em
riste, a cavalo ou brandindo espadas, como é costume no Ocidente.
Parece um paradoxo, mas, tendo Deng Xiaoping sido o líder incontestado do
povo chinês durante o período mais revolucionário da sua história recente,
preferiu governar o país por detrás da cena, longe das câmaras de televisão,
com raras aparições públicas, já que, segundo a cultura política tradicional
chinesa, a omnipotência provém do mistério que a invisibilidade evoca.
A revista "Time" elegeu, por duas vezes, Deng Xiaoping como a "personalidade
do ano", uma em Janeiro de 1979 e outra em Janeiro de 1986, sem que, nas histórias
então publicadas, se tenha avançado com justificações empíricas dos factos
que o acreditavam, ou do que era descrito como sendo o seu pensamento.
Não é fácil perceber o segredo da grandeza de Deng. De baixa estatura ("haverá
sempre homens mais altos que poderão segurar o céu quando este cair", brincava
ele), a sua mística, o que nele era especial, não estava patente aos nossos
olhos.
Para a mentalidade ocidental, formada sobre o primado da lei, o conceito de
administrador - e Deng era um administrador por excelência - sugere uma atenção
extrema a regras e regulamentos, processos e procedimentos que o resguardam
por detrás de uma cortina de impessoalidade, sugerindo uma orientação total
para a sua tarefa.
Mas, na tradição chinesa do mandarim-magistrado, o administrador ideal é,
acima de tudo, um mestre em relações humanas, com a capacidade de interpretar
maneiras de ser e de identificar os pontos fortes e fracos de cada pessoa,
capaz de construir e cultivar redes de "guanxi" e explorar relações especiais.
Um perito na arte de gerir pessoas - que já num discurso em 1943 admitia:
"O conhecimento de nós próprios não é fácil já que temos tendência para exagerar
os nossos pontos fortes e esquecer as nossas fraquezas: por vezes até pensamos
que as fraquezas são pontos fortes" -, Deng mostrou-se sensível às ambições
do povo chinês, cansado de sonhos impossíveis, das hipérboles produzidas nas
décadas anteriores, e entendeu o seu desejo de progresso económico.
As suas características de administrador por detrás da cena sugerem uma personalidade
autoconfiante e extremamente segura.
A subida ao poder
Contudo, a sua subida ao poder em 1977 não resultou de escolha popular ou
designação legal. Muitos admitem que talvez tenha sido favorecida pela extraordinária
deferência que, instintivamente, a sociedade chinesa presta à idade avançada
e à senioridade.
Sendo um dos mais velhos do partido, veterano da Longa Marcha, companheiro
de Mao Zedong, Zhou Enlai e Zhu De, Deng beneficiava de uma aura intocável
que o apontava como a pessoa ideal para ascender ao poder.
A sua subida foi também facilitada pela situação em que a China se encontrava
na altura. O povo chinês tinha experimentado a sua quota-parte de visões colectivistas,
maiores do que a própria vida, e desejava orientar os seus esforços para preocupações
mais privadas. Mas desejava também estabilidade política e ordem pública.
Depois de anos de retórica ideológica, o discurso directo e factual de Deng
foi aceite da melhor maneira.
Quando as reformas se iniciaram, sob a direcção formal de Deng, parecia não
haver um plano bem definido ("devemos explorar o nosso caminho, pedra a pedra,
ao longo do rio"), constituindo antes resposta ao desejo universal da sociedade
chinesa em melhorar a sua vida.
"A ele devo tudo o que sou", respondeu um pequeno comerciante de Beijing,
quando uma rede de televisão lhe perguntou do seu sentimento quanto à morte
de Deng.
Ao recuperar um dos epigramas de Mao, "procura a verdade nos factos", juntando-lhe
o seu próprio "a prática é o único critério da verdade", Deng tornou-se no
percursor de novos dias para a China.
As mudanças associadas à subida de Deng ao poder resultaram principalmente
da sua aceitação daquilo que antes era considerado tabu.
O conceito de que "ser rico é glorioso", associado à admissão de que alguns
sectores da sociedade poderiam enriquecer primeiro, contradizia as normas
anteriores. Também a fórmula "um país, dois sistemas" apareceu como um choque
relativamente à ortodoxia ideológica até então vigente.
Ainda a ideia de abertura ao mundo exterior, para "conhecer as experiências
dos outros países e trabalhar realisticamente em prol de uma sabedoria colectiva",
propõe soluções diferentes para os problemas da China, mesmo que, ao abrir
as janelas, "entrem moscas e mosquitos".
A disposição pública e as circunstãncias objectivas que rodearam a subida
de Deng ao poder mostraram-se particularmente adequadas à recuperação de algumas
características essenciais do estilo tradicional de governação chinesa, segundo
as quais era desnecessário o comando de toda a cena, devido à possibilidade
de elevada independência e autonomia, bem como de delegação de autoridade.
E tudo isto enquanto o povo chinês se assegurava que, embora não pudesse vê-lo
a trabalhar, era Deng que assumia o controlo completo de todas as situações.
Os líderes máximos podiam solenemente proclamar, em palavras, uma ideologia;
as chefias intermédias, desde que não desafiassem essa ideologia, poderiam
procurar o melhor para as suas comunidades e para si próprias; e as massas
poderiam, enfim, prosseguir os seus interesses privados no seio dos seus grupos
de relações interpessoais.
Pragmatismo e modernização
Convencionou-se classificar a filosofia política de Deng Xiaoping com uma
única palavra: pragmatismo. A classificação provém essencialmente do que ficou
conhecido como a teoria dos "dois gatos". Em Julho de 1962, no contexto da
discussãode um assunto económico com conotações políticas, ao defender um
sistema de subcontratação de terra aos camponeses, Deng afirmou: "Não interessa
se o gato é vermelho ou preto, desde que caçe ratos." Afirmação que viria
a ser condenada (mais tarde) como um sério desvio da linha correcta do Partido.
Por outro lado, quando se lê os "Textos seleccionados", e outras obras de
Deng, não conseguimos encontrar grande evidência da sua apreciação do funcionamento
do mercado, dos empresários ou até da técnica das reformas de preços. o que
encontramos é uma enorme fé nos tecnocratas, nos avanços tecnológicos e na
preocupação das pessoas com a sua melhoria económica, o que não é incompatível
com a continuação de espresas estatais.
O que é preciso é tornar as empresas estatais muito mais eficientes. Num discurso
numa fábrica em Zhuhai, em 1992, dizia Deng: "Se queremos progredir, precisamos
de talentos. Não há outra forma. Temos de encorajar o uso de talentos, a promoção
de talentos e a sua contínua formação. Temos de dedicar 365 dias por ano a
este objectivo. Desde que existam talentos, os nossos esforços serão recompensados".
E, contudo, a coexistência de um vasto sector estatal com um sector privado
em crescimento constante é o elemento mais importante da dupla via seguida
pela reforma económica chinesa. Mas outros elementos são também característicos
da acção de Deng:
- Autoridade e responsabilidade devem ser claramente delegadas
As reformas da década de 80 são caracterizadas por uma referência constante
ao "sistema de responsabilidade". A delineação da autoridade, reforçada pela
crescente utilização de incentivos materiais à medida que a reforma avançava,
é talvez o elemento mais significativo da acção de Deng, para quem "o principal
objectivo é a delegação do poder a todos os níveis. É nisso que reside o êxito
da nossa reforma rural, já que os camponeses passaram a tomar decisões, estimulando
assim a sua iniciativa";
- Um crescimento económico rápido é mais desejável
Deng mostrou-se sempre favorável à promoção de taxas de crescimento económico.
Fê-lo várias vezes durante a década de 80 e, em 1992, voltou a utilizar este
imperativo para criticar as políticas ultraconservadoras da linha dura do
Partido: "É certo que devemos ter em consideração a necessidade de estabilidade
económica e de coordenação do desenvolvimento, mas estes aspectos são relativos
e não absolutos. O desenvolvimento é a única e dura realidade (ying daoli)".
- A importância da não intervenção
Deng absteve-se frequentemente de intervir no curso normal do processo económico.
Em parte, devido à sua convicção nos benefícios da descentralização da autoridade,
mas também devido a uma surpreendente tolerância na admissão de períodos de
experimentação e até na aceitação da ideia de que poderia não haver solução
definitiva para os problemas teóricos. "Devemos fazer mais coisas e falar
menos; tenho uma sugestão a fazer quanto às nossas relações com os outros:
fazer mais coisas práticas e permitir menos conversa vazia; há demasiada conversa
e pouca acção". São alguns desafabos de Deng.
- A abertura ao exterior
O compromisso de Deng com a sua ideia de abertura ao mundo exterior começou
cedo e mostrou-se sempre consistente. A aproximação a outros países foi feita
de uma forma natural e não oferencendo resistências. Ao criar as Zonas Económicas
Especiais (ZEE), mostrou-se generoso e não negou elogios às experiências estrangeiras
mais avançadas. Disse em 1978: "O atraso tem de ser reconhecido antes de poder
ser combatido. Temos de aprender com os países mais avançados". Deng levantou
o problema das ZEE, avançando: "Podemos delimitar a porção de terra e chamar-lhe
zona especial. Shen-gan-ning (a base revolucionária comunista) era uma zona
especial!".
O processo de reforma económica abriu o caminho da China à modernização e
à possibilidade correntemente admitida de que o país se tornará uma potência
mundial no próximo século. E a reforma económica é legado de Deng. Como diziam
os camponeses no início dos anos 80: "Mao devolveu-nos a dignidade; mas foi
Deng que permitiu que enchêssemos a barriga (Mao rang women shen-fan; Deng
rang women chifan)".
Não escondo a minha admiração por Deng Xiaoping. Só que, neste momento, devido
à limitação dos meus conhecimentos, não sei como classificá-lo. Talvez a ideia
que mais confiantemente se possa fazer do lugar que a História lhe reserva
seja a do homem que abriu à China o caminho da modernização, o símbolo do
momento histórico em que a China rompeu o seu isolamento, abandonou retóricas
ideológicas e admitiu um pouco de bom senso. "É com honra de ser membro da
raça chinesa que me tornei um cidadão do mundo. Eu sou um filho do povo chinês.
Amo com paixão o meu país e o meu povo" (excerto de "Eu sou um Filho do Povo
Chinês", Deng Xiaoping).
Portfolio de fotos publicado pela revista Far Eastern Economic
Review, editada em Hong Kong, por ocasião do falecimento de Deng Xiaoping
(edição de 06-03-97) - www.feer.com
Textos originais publicados
na Revista Macau © Virgínia Trigo
Reprodução On-line ou em papel não permitida sem autorização
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