China: Um tigre de papel?

Na contagem decrescente para o novo século ficam a nu os pés de barro
das imagens de «grande mercado» capitalista e de super-potência hegemonista emergente. Uma nova corrente de analistas da Ásia contesta
a «megatendência» chinesa lançada por John Naisbitt há quatro anos atrás
e revela os calcanhares de Aquiles «estruturais» do grande país asiático.
A ideia que fica é que a China tem muito com que se entreter internamente na próxima década. Falta-lhe tempo e disposição «mental» para meter
a colherada no jogo do hegemonismo

Jorge Nascimento Rodrigues comenta China on the Brink (compra do livro)
de Callum Henderson

Versão mais reduzida publicada no Expresso de 22/01/2000

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Já vai longe a euforia em torno do século da Ásia e da «megatendência» China. Obras como China: A próxima superpotência lançada em 1993 e depois Megatrends Asia escrita pelo conhecido futurólogo John Naisbitt alimentaram sucessivamente um optimismo revelador de um enorme apetite dos capitalistas por um mercado alegadamente bilionário e depois um alarmismo por parte de analistas politico-militares que anteviam já a ocupação rápida da segunda cadeira de super-potência e a eminência de uma nova luta hegemonista no virar da esquina do milénio.

Mas o final de século está a assistir ao emergir de uma nova corrente de analistas ocidentais. São um grupo de desmancha-prazeres que falam da China como uma «super-potência teórica», que, na verdade, «não passa de uma potência de segunda linha que sabe gerir muito bem a arte do teatro diplomático», nas palavras, sem rendilhados, de Gerald Segal, o director londrino do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (num artigo recentemente escrito na revista Foreign Affairs, intitulado «Does China matter?», na edição de Setembro/Outubro 1999, ainda não disponível «on line» em www.foreignaffairs.org).

Por outro lado, os capitalistas ocidentais cedo bateram com o nariz no mito do mercado de consumo bilionário. Na realidade haverão uns 100 milhões de chineses (em 1,2 mil milhões) com rendimentos acima dos nove mil dólares (mil e oitocentos contos por ano) e apenas 4 milhões dispõem de ligação à Internet.

À beira de um ponto crítico

Esta avaliação dita realista, surge para estragar a festa no preciso momento em que a China se prepara para entrar na Organização Mundial do Comércio, o que segundo a Goldman Sachs - que mantém um optimismo «cauteloso», como não se cansa de repetir - poderá implicar um disparo nas importações da ordem dos 115 mil milhões de dólares, o que já traz muita gente com água na boca.

Para esta contra-corrente, a China de hoje (e da próxima década) não pode ser comparada à URSS no seu período de ascensão hegemonista. Pelo contrário, a China estaria a atingir «um ponto crítico» em que se moveriam «ao estilo de placas tectónicas» diversos problemas estruturais que funcionam como verdadeiras bombas ao retardador. Esta é a tese central de China on the Brink, um livro polémico escrito por Callum Henderson, um analista financeiro inglês ligado aos mercados emergentes.

Capa do livro: China on the BrinkApesar de parecer que a China passou incólume pela crise financeira asiática de 1997/98, paradoxalmente foi esta que colocou ainda mais a descoberto os calcanhares de Aquiles deste grande país. Para Handerson, as fraquezas do modelo «asiático» - antecipadas por Paul Krugman - estão bem patentes na China...com a agravante da dimensão.

O problema da reestruturação da banca, afundada em 1,3 triliões de renmimbi em crédito mal parado (35% do crédito concedido), custará 272 mil milhões de dólares, ou seja 26% do PNB chinês actual, segundo os últimos cálculos da Goldman Sachs. O especialista Peter Cohan, acabado de chegar de uma visita à China, comentou-nos que «ninguém arrisca saber se a China conseguirá controlar o grau de endividamento doméstico» e até que ponto o crédito mal parado não irá provocar, quando se começar a mexer no saneamento do sistema financeiro, «uma explosão de consequências imprevisíveis».

A este problema trilionário junta-se a situação do actual sector empresarial do Estado (SEE), com 45% do seu universo de 350 mil empresas no vermelho, aguentado pelas injecções de capital dos tais bancos em situação insustentável para o continuar a fazer indefinidamente. A mexer-se na parte falida do SEE os custos sociais serão muito elevados, num país em que um sistema de almofada social levará uns 5 a 10 anos a criar.

Em paralelo o desastre ecológico da industrialização recente representa perdas equivalentes a 8% do PNB e os mais pessimistas falam de um «excesso» de 150 a 250 milhões de pessoas em relação ao que os recursos disponíveis «aguentam».

Esfriamento do crescimento

Para completar, a taxa de crescimento económico esfriou. Para o período de 2001 a 2025, estima-se que ronde em média os 7% ao ano, abaixo dos 10% do período 1980-1998, e em particular do quinquénio eufórico de 1991 a 1995, com 12% ao ano. O problema deste arrefecimento é que 1 ponto percentual a menos na taxa de crescimento do PNB significa, segundo estudos chineses, mais 4 milhões de desempregados na rua, num país onde já deambulam como «flutuantes» 150 milhões. A saída para muita desta gente é a economia paralela, o mercado negro e mesmo a economia do crime organizado.

Para fechar o ramalhete, permanece a questão do valor da moeda chinesa, não convertível totalmente até 2010. Os analistas falam de uma sobrevalorização do renminbi na ordem dos 30%, mas a Goldman Sachs só vê «politicamente» possível uma desvalorização suave de uns 10%. O problema é se a economia chinesa não aguentar durante muito tempo esta sobrevalorização forçada e se este destapar da tampa da desvalorização coincidir com uma nova recaída grave da crise financeira asiática.

Os optimistas respondem sempre que os líderes chineses têm o processo sob controlo e «planeado», como se fossem uns semi-deuses. Não fossem os analistas desmancha-prazeres, e tudo seria uma calma passeata até ao próximo congresso do Partido Comunista da China em 2002.




«Ninguém arrisca saber se a China conseguirá controlar
o grau de endividamento doméstico»

Peter Cohan, um dos gurus americanos da gestão, acabado de regressar da China comentou para a Janela na Web o seguinte em directo:


Acha que o século XXI será o da Ásia, e em particular o da China?

PETER COHAN - Não. Não creio. E particularmente penso que a China não atingirá tão cedo o mesmo nível de sucesso económico do que os países ditos ocidentais. Os problemas da China prendem-se com o estatismo que esmaga a actividade empreendedora. Por outro lado, países da região, como o Japão, Singapura e Taiwan, continuarão a avançar. Eu penso que os vencedores no século XXI serão os países que impulsionarem o empreendedorismo, e particularmente o de base tecnológica.

Mas, apesar das fraquezas, a China conseguirá tornar-se numa super-potência disputando a hegemonia?

P.C. - Não me parece também que possa vir a ser a primeira super-potência, como alguns anteviram. Não tenho informações rigorosas sobre as capacidades militares da China, particularmente em relação aos Estados Unidos e à própria Rússia. O meu vatícinio, no entanto, é que os EUA manterão a sua liderança, pois dispõem do melhor ambiente para fomentar a inovação tecnológica mesmo neste campo.

Quando é que a crise «correctiva» chegará à porta da China?

P.C. - Penso que a «correcção» havida nos tigres asiáticos deveu-se à questão do crédito malparado e do endividamento excessivo. As empresas endividaram-se ao sabor das bolsas, mas estes activos não geraram suficiente «cash» para honrar as dívidas. Quando os bancos começaram finalmente a mexer no crédito mal parado, as empresas endividadas começaram a entrar em falência, implicando despedimentos, empurrando o imobiliário para a crise e as cotações das bolsas para o chão. Se a China conseguir manter sob controlo os níveis de endividamento doméstico, talvez consiga evitar a crise. Mas quem arrisca?

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