Letra C


A CHINA CONFUCIANA


Na China, as ideias de Confúcio têm merecido, ao longo dos tempos, condenação e louvor, mas a ética confuciana continua a ser a pedra basilar do comportamento chinês, especialmente nas comunidades ultramarinas.

Quando S. L. Chan era pequeno, costumava visitar os túmulos dos antepassados com os seus familiares, no nono dia da nona lua. Mais de seis gerações repousavam em túmulos dispersos pela montanha e, naquele período do calendário chinês, o céu estava normalmente limpo e brilhante e o ar era fresco.

Levantavam-se cedo pela manhã a fim de que o ritual estivesse cumprido no início da tarde e fosse ainda possível preparar uma refeição adequada. Os mais velhos ensinavam os mais novos a melhor forma de limpar as ervas acumuladas junto das campas. Oferecia-se comida, queimava-se incenso e dinheiro sagrado enquanto cada um se curvava em sinal de respeito.

Os mais velhos contavam também muitas histórias. Não era fácil, diziam, encontrar um bom sítio para uma sepultura, considerando em especial a sua influência sobre a fortuna dos descendentes.

Um bom sítio (com bom "feng shui") traria prosperidade à família, enquanto que um mau sítio só podia trazer desgraças e pobreza.

Em pé sobre uma campa, o avô de S. L. Chan dissertava sobre as virtudes do lugar, de como o pico daquela montanha se parecia com uma ameixoeira em flor.

"Mas e o dragão, avô? Aquele que tu disseste que vivia aqui?".

"Ah, não é fácil ver o dragão. Mas, se olhares bem para a tua esquerda, poderás ver na distância as curvas de uma montanha. No preciso momento de um dia muito límpido, poderás ver como que um espelho reflectido no vale. É a foz de um rio que se aproxima do mar e é nesse rio que, por vezes, o dragão vem beber. Satisfeita a sede, o dragão levanta a cabeça em direcção da nossa montanha e abençoa-nos com o olhar".

S. L. Chan semicerrou os olhos na direcção indicada, cheio de convicção. Palhetas de luz tremeluziam na distância. Demorou algum tempo, mas foi então que viu o dragão.

Poucos anos mais tarde, S. L. Chan deixou a China, para só voltar 40 anos depois. A primeira coisa que fez foi visitar as campas dos seus antepassados. Encontrou uma paisagem substancialmente alterada.

Apesar de tudo, a vida não lhe correu mal. Talvez, admite, porque um dia em que cumpria as suas obrigações de devoção filial, tivesse recebido a benção do dragão.

S. L. Chan, que viveu e estudou nos Estados Unidos da América, não é diferente dos outros chineses da sua geração, dos que o precederam ou, provavelmente, dos que lhe hão-de suceder.

A característica mais importante e persistente da religião chinesa tem sido o respeito e o culto dos antepassados, virtudes máximas da filosofia confuciana. A organização hierárquica da família, que inclui, na sua definição, o passado como uma parte integrante do presente e do futuro, desempenhou (e desempenha) um papel importante no comportamento individual e organizacional chinês.

Apesar de oficialmente abolidas após a revolução de 1949, as religiões chinesas, e em particular a filosofia confuciana, continuam implantadas na cultura e na formação das mentalidades.

Hierarquia e ordem social

Confúcio (551-479 a.C.) viveu numa época em que a China se encontrava dividida em múltiplos estados de pequena dimensão, perpetuamente envolvidos em guerras e conflitos.

Considerado um virtuoso pela sua integridade e honestidade, tornou-se professor e consultor de governos. Escreveu diversos livros compilados posteriormente num único volume: "Os Anacletos de Confúcio". Os seus ensinamentos só mais tarde vieram a ganhar importância decisiva com a dinastia de Han (início em 206 a.C.), responsável pela consolidação da unificação do império chinês.

A filosofia confuciana foi, então, decretada oficial, já que os seus ensinamentos e princípios éticos de respeito pela hierarquia e pela manutenção de uma certa ordem social eram susceptíveis de apoiar e reforçar um forte poder central.

Uma pessoa virtuosa, segundo Confúcio, exibe auto-reflexão, contenção, devoção, sentido de responsabilidade e respeito pelos mais velhos. Estas mesmas características tornavam difícil que um indivíduo se opusesse a quaisquer práticas ou actividades do imperador, mesmo que não concordasse com elas.

Os grandes problemas do tempo de Confúcio eram sobretudo governamentais: como governar, como manter a ordem na sociedade, como garantir a felicidade e a prosperidade das populações. Para Confúcio, a solução principal estava na educação. Governar é, acima de tudo, educar e formar.

Foi com base nestes princípios que o acesso aos postos oficiais na China se passou a fazer através de exames, e que o sistema se estruturou numa vasta e complexa burocracia. Confúcio visualizava um mundo em que a harmonia poderia ser atingida se todos e cada um reconhecesse o seu lugar na sociedade. Se os filhos obedecessem aos pais e os súbditos aos governantes, poderia haver ordem e paz.

Cem anos mais tarde, Mêncio, seguidor de Confúcio, tornou estes princípios ainda mais idealistas. A sua teoria de governo pela benevolência baseava-se na aceitação de que todo o ser humano é essencialmente bom. As qualidades de benevolência, rectidão e sabedoria são inatas: uns são capazes de as conservar, outros não.

Se comparamos estas ideias de há dois mil anos com o moderno pensamento de gestão, poderemos encontrar algumas semelhanças com as teorias X e Y (McGregor, 1960). A teoria de Y privilegia o lado positivo da natureza humana, já que considera que todas as pessoas são em geral boas, gostam de trabalhar e de estar activas. Compete à gestão reconhecer esta realidade e proporcionar aos trabalhadores oportunidades de actualização.

Governo pelo homem e governo pela lei

A tradição administrativa chinesa atribuía grande importância ao papel desempenhado pelo ser humano na administração, e a ideia confuciana de "governo pelo homem" aparece mencionada com frequência em contraste com a ideia ocidental de "governo pela lei", que dá à lei a primazia sobre o homem.

Segundo Confúcio, nas sociedades governadas pela política e onde a disciplina se obtém através da lei, não existe oportunidade de transmissão aos cidadãos de quaisquer valores morais ou da noção de vergonha. Assim, nesses países, o cidadão infringirá a lei quando isso lhe for benéfico.

Pelo contrário, nos países governados pela virtude e por normas de conduta, as pessoas desenvolvem um elevado sentido de moralidade e comportam-se sem necessidade de ameaças ou punições.

Esta forma de garantir a ordem social está presente na importância dada às relações pessoais em qualquer comunidade chinesa a operar numa lógica de mercado, como acontece com os chineses ultramarinos. As relações pessoais e a confiança, herdada ou estabelecida, sobrepõem-se à lógica dos contratos e regulamentam todo o genéro de transacções.

No Ocidente, como refere o sociólogo Wong Siu-Iun, a honestidade tem um significado legal e religioso cuja aplicação compete aos tribunais. Na China tradicional, assenta sobre princípios de coesão e identidade de grupo (famílias, empresas, associações), cuja missão é reforçar o sentido de honra pessoal.

Confucionismo e modernidade

As ideias de Confúcio têm merecido, ao longo dos tempos, condenação e louvor. Foram especialmente criticadas durante a Revolução Cultural (1966- 1976), mas a situação mudou, e em 1985 foi criado em Beijing um instituto dedicado ao estudo do pensamento confuciano.

No Ocidente responsabilizou-se o confucionismo pela homogeneização da cultura chinesa e pelo extremo conformismo da sociedade, que terão contribuído para o atraso relativamente a invenções e a novas formas de pensamento.

No entanto, ainda que a ética confuciana continuasse a ser a pedra basilar do comportamento chinês, isso não impediu o sucesso económico em Singapura e Taiwan e noutras comunidades chinesas fora da China, o que obrigou a um reequacionamento da questão.

Por exemplo, Fukuyama (1995) afirma: "É evidente que não existe um único caminho para a modernidade. Os últimos a modernizarem-se (alguns países do Sudeste Asiático) seguiram até um caminho bem diferente, em que o Estado (à boa maneira confuciana) assumiu um papel central".

Muitos homens de negócio chineses entendem que os valores éticos e as normas de conduta ensinados por Confúcio são particularmente adequados às relações comerciais de hoje em dia, apesar da crença comum de que o filósofo não se interessava por dinheiro ou por assuntos económicos. "Pelo contrário, Confúcio aconselhava que se fizesse dinheiro até ao máximo das nossas capacidades", diz o Dr. Sinn whor Shu, um estudioso de Confúcio, residente em Singapura.

Enquanto que, em Singapura, se aconselha a todos os homens de negócio que estudem Confúcio, e, desde 1982, disciplinas sobre ética confuciana passaram a fazer parte do currículo escolar, em Taiwan um grupo de empresários propõe o estabelecimento de uma "rede chinesa" assente em três pilares, um dos quais o confucionismo.

É certo que o confucionismo confirma valores exclusivamente orientais.

Mas, quando nos perguntamos "porque é que as relações económicas entre os chineses são pessoais?", talvez devessemos perguntar: "E porque hão-de ser impessoais?".

Mas porque é que a "harmonia e a cooperação" deverão ser sacrificadas em favor "do conflito e da competição"?


Textos originais publicados na Revista Macau © Virgínia Trigo
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