Letra B


A CHINA BUROCRÁTICA


A China é a mais antiga e persistente burocracia do mundo. Em termos históricos, a implantação do sistema burocrático remonta ao século III a.C., ao tempo da dinastia Ch´In que decidiu adoptar uma estratégia legalista para dirigir o país, como forma de suprimir o sistema feudal até então vigente sob a dinastia Zhou.

O rei Ch´In centralizou a administração de todos os estados e vassalos e criou trinta e seis (mais tarde quarenta) zonas administrativas, cancelando oficialmente a ordem feudal.

No intuito de impedir a concentração de terras nas mãos de um número limitado de pessoas e de encorajar o aumento da produção agrícola, o rei procedeu à redistribuição equitativa dos recursos pelos filhos varões de todas as unidades familiares.

A ideia adulterou-se com o tempo, já que os mais capazes e/ou afortunados vieram a acumular grandes fortunas, associando-se de forma implícita ou explícita a quadros governamentais, e tornaram-se membros poderosos da sociedade chinesa.

O método dos exames

Mais tarde, as dinastias Ngai e Jin inpuseram um sistema administrativo com nove escalões oficiais em três níveis (três no topo, três intermédios e os restantes na base), sendo os lugares preenchidos por nomeação de entre as famílias notáveis.

Estas defendiam e perpetuavam os seus privilégios através de complexos jogos de poder político e de casamentos estratégicos. Foi a dinastia Tsui que, ao introduzir o método dos exames (em vez de nomeação) no processo de recrutamento de quadros governamentais, se notabilizou pela mudança mais radical no sistema.

A ideia dos exames foi bem aceite pela sociedade chinesa por ser susceptível de introduzir alguma justiça na ordem estabelecida.

Em princípio, todos os elementos do sexo masculino, das mais diversas origens, poderiam subir na hierarquia e contribuir para o bom nome das suas famílias desde que conseguissem qualificar-se nesses exames.

A educação passou a ser um bem valioso e extremamente procurado na China com o aforismo "só a profissão da educação vale a pena, tudo o resto é inferior", a exprimir bem a pricologia da altura. De início os candidatos eram avaliados através de um primeiro exame de cultura geral e, caso passassem, seriam treinados em conhecimentos específicos e sujeitos a um segundo exame. Com o tempo, as provas tornaram-se mais difíceis obrigando o aluno a esforços exaustivos para aprender inúteis estilos de composição de uma dificuldade extrema, de nada valendo o facto de possuírem ou não boas ideias.

Os quadros, assim formados, afastaram-se da realidade e refugiaram-se numa crescente centralização de todas as decisões, o que contribuiu para o reforço do sistema burocrático.

O papel burocrático do Governo raramente foi questionado ao longo da história da China. A mudança de dinastia apresentava-se como natural aos olhos da sociedade já que representava um mandato do céu executado pelos soberanos, e o que o movimento democrático de Sun Yat-sen (1911) apresentou à população chinesa foi uma proposta de liberdade no quadro de uma burocracia estabelecida.

A teoria do negro opaco

Na sociedade chinesa, desde o início do período burocrático (221 a.C), deter um lugar na burocracia governamental tornou-se a mais prestigiante das ocupações. Um quadro de topo está no cimo da ordem social e económica e, em consequência, é natural que muitos esforços e recursos sejam empregues na sua obtenção.

Lee Zhong Wu foi um filósofo e crítico social falecido na China em 1943, que escreveu um livro notável, A teoria do negro opaco, recentemente dado a conhecer pela escritora americana Chin-Ning Chu.

"Pretendendo descrever os sintomas que afectavam a sociedade, Lee analisa, no contexto da época em que viveu, os métodos utilizados por quem esteja interessado em conseguir (e conservar) um emprego na burocracia governamental", refere-se no livro.

Aponta, assim, seis passos (ou estados de alma) fundamentais para a obtenção do lugar - e outros para a sua conservação - que indica serem um exemplo da aplicação prática da "teoria do negro opaco".

Como conseguir um emprego na burocracia
1. O vazio
A primeira condição é esvaziar a mente de tudo o que não seja a ideia principal, isto é, o emprego que se pretende obter. Não se podem ter outros desejos, outros pensamentos, e deve meditar-se nesse objectivo todos os dias.
O nosso tempo deve ser igualmente vazio. Deve ter-se a capacidade de saber esperar não importa quanto tempo. É só naquele lugar que nos devemos ver e em mais nenhum outro.
Se a nomeação não chegar hoje, espera-se até amanhã. Se não chegar este ano, espera-se até ao próximo.

2. A persistência
Deve aproveitar-se qualquer oportunidade, por mais ínfima que seja, de fazer saber as nossas intenções. Quando ela aparece, há que valorizá-la.
Se as oportunidades não surgirem, todos os nossos esforços devem ser concentrados na sua criação.

3. O auto-elogio
Sempre que possível devem ser referidas e lembradas as nossas qualificações e importância pessoal a todos quantos sejam susceptíveis de nos ajudar.

4. A adulação
Devem elogiar-se todos os que poderão contribuir para a nomeação. O elogio deve ser feito cara a cara, mas também a outros que eventualmente irão transmitir a mensagem.

5. A ameaça
De forma subtil e insidiosa, as ameaças deverão estar subjacentes ao auto-elogio. Devemos deixar o interlocutor concluir que, em face do nosso talento, seria deveras ruinoso se por acaso um departamento rival nos contratasse.
As nossas ligações são tão importantes que bem poderemos vir a criar problemas no futuro. Lee adverte neste ponto: qualquer passo em falso poderá virar-se contra nós.

6. O aliciamento
Existem dois tipos de aliciamento. O primeiro inclui a oferta de pequenas prendas, convites para jantar, para tomar uma bebida. A ideia é criar, em quem recebe, uma sensação de obrigação muito superior aos custos envolvidos.
Os destinatários serão não só quem nos pode nomear, mas também os seus familiares e amigos. As ofertas maiores, de segundo tipo, destinam-se a confirmar a nomeação e serão distribuídas ao grupo restrito dos que têm maior influência sobre a pessoa com poder para desencadear a mesma.
Sendo o objectivo a obtenção de um emprego na burocracia governamental, Lee recomenda que se actue de forma virtuosa (de acordo com os padrões da época). O candidato deverá aparentar benevolência, devoção e moral; deverá passear-se com um livro adequado debaixo do braço e exibir um certo ar de graça interior.

Como conservar um emprego na burocracia
Uma vez obtido, há que fazer tudo para conservar este lugar. Lee aponta seis formas:

1. A imobilidade
Não deve fazer-se ou dizer-se nada. Deve-se falar tudo sem dizer nada. Deve-se parecer muito activo e ocupado, sem fazer nada.
Não se deve jamais tomar uma posição definida que possa depois voltar-se contra nós. Afastemo-nos da acção apenas o suficiente para podermos reclamar créditos se as coisas correrem bem ou sermos desresponsabilizados se correrem mal.

2. O obséquio
É necessário curvar-se perante os superiores. Lee fala em "articulações fléxiveis" para designar todo o conjunto de vénias, curvaturas e gestos de assentimento que devem ser feitos.
Devemos insinuar-nos a todo o momento junto do nosso superior, mas também dos seus familiares e amigos. Se ele tiver uma segunda mulher, refere Lee, deveremos tudo fazer para que ela simpatize connosco, pois a sua influência será determinante.

3. A distância
Deve-se cultivar uma atitude distante e desdenhosa em relação aos inferiores. É importante parecer inabordável quer na aparência, quer na escrita ou no discurso.

4. Ser impiedoso
Deve ser-se impiedoso na prossecução dos objectivos, mantendo sempre, no entanto, uma imagem piedosa a fim de que os outros sejam mais vulneráveis à nossa vontade.
As palavras de Confúcio estão sempre nos nossos lábios: tornar-nos-emos membros de organizações com fins virtuosos, a fim de que seja difícil acreditar que alguma vez seremos capazes de acções menos nobres.

5. Ser cego e surdo
Não devem ser ouvidas as críticas ou os olhares desaprovadores dos outros. Qualquer reprovação passará por nós como "cão por vinha vindimada".
Na vinha nada há para comer e o cão não se detém.

6. A colheita
Chegámos por fim, diz Lee, ao último passo. No posto desejado é agora possível fazer os outros pagar pelos nossos favores, tal como nós pagámos no passado.
Todo o trabalho não foi apenas para conseguir um emprego. No sistema burocrático é agora possível utilizar a influência conquistada.
A China burocrática é, no dizer de Max Weber (na sua célebre obra Economia e Sociedade), um sistema racionalista com características cósmicas e éticas; uma força impessoal e providencial que garante a regularidade e a harmonia de uma certa ordem no mundo. Daí a sua continuada persistência.


Textos originais publicados na Revista Macau © Virgínia Trigo
Reprodução On-line ou em papel não permitida sem autorização prévia.

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