O assalto final dos asiáticos

Os grupos económicos e as start-ups tecnológicas da Ásia estão numa nova vaga de internacionalização. A palavra de ordem é "go global" e os alvos não são só os países do Terceiro Mundo - mas os mercados da OCDE. China e Índia levam a dianteira. E, paradoxalmente, a face da liderança começa inclusive a mudar para caras ocidentais à frente de marcas asiáticas de referência. Um estudo do INSEAD e do World Economic Forum em forma de livro explica porquê, combatendo inclusive algumas ideias erradas que os ocidentais mantêm.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, com Frank-Jurgen Richter, coordenador de Global Future- Next Challenge for Asian Business, e responsável da Horasis em Genebra, Abril 2005

Sítio na Web da Horasis-The Global Visions Community

Os ocidentais ficaram surpresos com dois acontecimentos num tão curto espaço de tempo, a tal ponto que ainda não tiveram tempo de os digerir. O final do ano de 2004 trouxe a noticia do acordo da Lenovo chinesa para tomar conta no segundo trimestre de 2005 da divisão de computadores pessoais da IBM e a Inglaterra ficou suspensa, em Abril de 2005, em torno da compra ou não da mítica MG Rover pela Shanghai Automotive Industry Corp (SAIC), o maior construtor chinês de automóveis.

O PROJECTO DO LIVRO
Capa do livro Global FutureA iniciativa de publicação de Global Future derivou de um trabalho conjunto entre o INSEAD, a escola de negócios europeia, e do Fórum para a Ásia do World Economic Forum (WEF). Arnoud de Meyer e Peter Williamson são professores do INSEAD, Pamela Mar é do WEF e Frank-Jurgen Richter foi director do Fórum para a Ásia do WEF. O livro bebe boa parte dos resultados da investigação sobre as metanacionais e a emergência das multinacionais chinesas conduzido pelo INSEAD.
GLOBAL FUTURE- Next Challenge for Asian Business
- Hardcover: 228 páginas
- Editor: John Wiley & Sons, 2004
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Em Julho do ano passado, o mundo da electrónica de consumo fora sacudido pela criação de uma "joint-venture" em Shenzhen entre a TCL chinesa e a Thomson Electronics francesa, gerando o maior grupo fabricante de televisores do mundo. Mais surpreendente, ainda, no campo geo-estratégico, empresas estatais chinesas posicionam-se nas fontes chaves mundiais de matérias-primas, particularmente na geografia do petróleo. A China National Offshore Oil Corp estuda inclusive a aquisição da Unocal nos Estados Unidos, segundo o Financial Times. Para muitos analistas, a China está a tornar-se no principal teatro de operações para fusões e aquisições.

Go global

Parece um "remake" de um filme dos anos 1980 sobre as investidas do "Sol Nascente" (as multinacionais japonesas) no coração dos Estados Unidos e da Europa. De facto, um conjunto vasto de empresas chinesas, estatais e privadas, assumiu a directiva oficial de "go global". A lógica da exportação chinesa para o contentor já não entusiasma, apesar de ser a imagem de marca que os ocidentais retêm ainda hoje. "A globalização tornou-se a palavra de ordem para as empresas chinesas que aspiram passar de campeões nacionais a jogadores globais. E, por isso, é natural que passem a mostrar a sua ambição global", afirmou-nos Frank-Jurgen Richter, coordenador do livro Global Future-The Next Challenge for Asian Business, uma iniciativa conjunta do INSEAD e do World Economic Forum (WEF).

1ª IDEIA ESTRATÉGICA: «Os asiáticos olham para os europeus como pontes para os mercados e daí a procura de alianças, de fusões e de aquisições».

Os ocidentais dão-se conta que não há, apenas, um sentido - o da deslocalização das firmas europeias e norte-americanas para a Ásia paraíso do fabrico barato de mercadorias. Há a direcção inversa: "Os asiáticos olham para os europeus, por exemplo, como pontes para os mercados e daí a procura de alianças, de fusões e de aquisições", refere Richter. Também é erróneo o olhar ocidental que se limita ao "offshoring" de serviços de baixo valor. "Hoje, a Ásia é um local de testes em diversas áreas das novas gerações de telecomunicações e um ponto quente para a própria Investigação & Desenvolvimento em geral", continua o nosso interlocutor. A combinação ganhadora define-se numa fórmula, adianta Richter: "Custo baixo do talento asiático para serviços de alto valor acrescentado".

2ª IDEIA ESTRATÉGICA: «Hoje, a Ásia é um local de testes em diversas áreas das novas gerações de telecomunicações e um ponto quente para a própria Investigação & Desenvolvimento em geral».

Mas não são só as empresas chinesas que assumiram a globalização. A Índia está, também, a afirmar-se como uma potência mundial nas tecnologias de informação e na biotecnologia. "Podemos falar de facto de um milagre indiano. E a Índia vai surpreender de novo", sublinha Richter, que foi director do Forum Ásia do WEF e que criou em Genebra a Horasis, uma consultora para a globalização das empresas asiáticas. Ex-startups indianas como a Biocon, Shantha Biotechnics e Panacea Biotech dão cartas na área da farmacêutica, enquanto a Moserboer se afirma nos CD e a TCS, Infosys, Wipro, TCL e Satyan são referências nas tecnologias de informação. "Paulatinamente, os ocidentais dão-se conta de que os antigos subcontratados do offshoring, passaram a uma ofensiva global", acrescenta Richter.

O fenómeno destes novos "globalizadores" é mais geral. As marcas emergentes abarcam grupos tão distintos como os indianos Bajaj e Tata nos automóveis e VIP Luggage (o segundo maior do mundo depois da Samsonite), Charoen Pokphand (agro) da Tailândia, IKPP (pasta para papel) da Indonésia, Proto (que comprou a Lotus) e YTL (utilities) da Malásia, e Jollibee (fast-food) das Filipinas

Estrangeiros ao leme

Ao mesmo tempo, este estudo Global Futures salienta que algo mudou também nas empresas asiáticas das duas primeiras vagas de internacionalização protagonizadas pelas pioneiras do Japão (vide o caso emblemático da Sony) e Coreia do Sul (por exemplo, a Samsung, cuja primeira deslocalização mundial foi para Portugal em 1982) e, depois, de Taiwan (Acer, por exemplo).

Estas multinacionais mais maduras corrigiram o tiro estratégico. Abandonaram a lógica tradicional - o que Richter designa por "implantar a bandeira em solo estrangeiro" - e passaram a globalizar-se no sentido pleno do termo. Foi Akio Morita que primeiro falou do conceito de "glocalização", com a sua expressão "pensar global, agir local". Mais tarde, o INSEAD cunhou o termo "metanacional", e inverteu a expressão do japonês; o novo "must" passou a ser "captar o conhecimento local, agir global". Os traços "nacionais" começaram a esbater-se nestas multinacionais.

Não admira, por isso, que subitamente caras ocidentais passassem a aparecer à frente de multinacionais asiáticas. "Vejo nisso uma tendência muito óbvia - as multinacionais asiáticas cada vez mais são geridas por gestores profissionais. Não quero desvalorizar o conceito de negócio familiar, típico na Ásia, mas as empresas que se querem globalizar com sucesso têm de ser astutas. A vantagem do 'outsider' pode ser importante para quebrar velhos hábitos", sublinha-nos Frank-Jurgen Richter. O livro aborda três casos que são de antologia e que corporizam "um movimento que vai continuar" (ver caixa).

4 CARAS OCIDENTAIS AO LEME DO ORIENTE INC
O caso mais badalado é o do brasileiro Carlos Ghosn, nascido em Porto Velho, mas de origem libanesa, cuja alcunha o "quebra-gelos" e "mata custos" no sector automóvel, o catapultou em 1999 para uma missão difícil da Renault, a de dar a volta à Nissan japonesa. A partir de agora, ele vai liderar esta aliança binacional. Ghosn considera-se a si próprio "um cidadão do mundo", título de um livro que co-publicou em França, na Grasset, em 2003.
Howard Stringer, que é nativo de Cardiff e ganhou o título de "Sir" em Inglaterra, acabou por assumir, já este ano, a liderança da mítica Sony, depois da reforma dos dois fundadores carismáticos, Akio Morita e Nobuyuki Idei. Stringer tinha entrado apenas em 1997 na multinacional nipónica e fez um bom lugar à frente da Sony America. Sinal dos tempos, Howard vai dirigir o império Sony, a partir de Londres e Nova Iorque.
Outro caso é o do italiano Gianfranco Lanci, à frente da Acer desde Janeiro deste ano. Lanci tinha dado provas no mercado europeu. Foi premiado com o lugar de Presidente da multinacional de Taiwan pelo seu estilo de gestão e o seu modelo de negócio que agora vai ser estendido a todo o grupo. O objectivo estratégico é colocar a Acer entre as três marcas de topo no negócio mundial dos computadores pessoais. A multinacional admite recrutar ainda outro estrangeiro para a direcção de topo no "sentido de fortalecer o conhecimento e a visão sobre o negócio das tecnologias de informação à escala global".

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