Geo-Protagonistas
II - O Incumbente

Estados Unidos: As dores da águia

Por Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Janeiro de 2005

Premonição?: «A América trilha agora um caminho confortável para a ruína», Financial Times, Agosto de 2004

Maldita Economia

Apesar da geopolitica continuar a precipitar os acontecimentos e da maioria dos eleitores americanos acreditar que os "valores" salvam os EUA do declínio, as dores da economia americana poderão, segundo os mais pessimistas, gerar um "crash" do dólar e uma situação à beira da ruína financeira. Para os europeus e outros investidores internacionais chegou a altura de ir a "compras" nos Estados Unidos, tal como aconteceu entre 1985-87 e 1994-1995, quando o dólar também viveu um período de desvalorização rápida.

Não é o disparo nos preços do petróleo a principal ameaça à saúde da hiperpotencia incumbente. Segundo um estudo do especialista norte-americano Philip Verleger o impacto da alta do ouro negro em 2005 sentir-se-á mais na Ásia (um corte anual de 0,8 a 1,8 pontos percentuais no crescimento do PIB), na Zona Euro (entre 0,5 a 1,1 pp, apesar da apreciação do euro contra o dólar, moeda em que está cotado o crude) e no Japão (entre 0,4 a 0,9 pp), do que nos Estados Unidos - entre 0,3 a 0,7 pontos percentuais no crescimento do PIB americano.

O coro doméstico

O risco maior vem dos desequilíbrios da própria dinâmica da economia americana. O coro de críticas ao caminho que está a ser seguido não é só originado pelos economistas "clintonianos" - como Nouriel Roubini, entrevistado pelo EXPRESSO na semana passada, que, a partir do seu blogue "Global Economics", não tem dado descanso à indisciplina financeira da Administração Bush, ou Lawrence H. Summers, actual presidente da Universidade de Harvard, que sintetizou a actual situação como "equilíbrio do terror financeiro", parafraseando uma expressão do tempo da Guerra Fria. Os "números do Diabo" desse equilíbrio do terror podem ser apreciados no quadro que publicamos.

As críticas mais inesperadas vieram das próprias fileiras de prestigiados economistas republicanos. Peter G. Peterson, antigo secretário do comércio de Nixon e ex-presidente do Federal Reserve Bank de Nova Iorque, começou por escrever um artigo acutilante na revista Foreign Affairs intitulado "Riding for a Fall" (edição de Setembro/Outubro 2004) e acabou por publicar um livro no final do ano passado também sugestivo "Running on Empty" (editora Farrar Straus & Giroux). "O actual défice da conta corrente americana absorve, directa ou indirectamente, 2/3 dos excedentes das contas correntes do resto do mundo", sublinhou Peterson. A mensagem pode ser resumida em dois alertas. Um, de Paul Volcker, ex-presidente da Trilateral e antigo presidente da Reserva Federal: "A probabilidade de uma crise nos próximos cinco anos nos EUA é de 75%". Outro, do próprio Financial Times, que já publicou, sem rodeios, este título irónico, no ano passado: "A América trilha agora um caminho confortável para a ruína".

O "modelo" económico norte-americano da Era Bush foi, assim, sintetizado por Fred Bergsten, o influente presidente do Institute for International Economics (IIE): "São os estrangeiros - particularmente os asiáticos - que produzem o essencial dos bens que compramos e que nos adquirem a totalidade da moeda que imprimimos para os adquirir".

Risco de "crash"

Bergsten avisou na revista The Economist que "se houver aumentos desmesurados no défice da conta corrente poder-se-á descarrilar para um 'crash' do dólar". O défice da conta corrente atingiu os 614 mil milhões de dólares em 2004, ou seja 5,2% do PIB. Catherine L. Mann, especialista do IIE prognostica que o défice poderá chegar a 7,8% do PIB em 2008 e 13% em 2010, com um valor recorde de 1 bilião, a continuarem as actuais tendências. O dólar está actualmente 30% mais barato do que o euro e a Goldman Sachs fala de um cambio de 1,4 dólares por euro em finais deste ano.

A situação poderá agravar-se se o tal "equilíbrio de terror financeiro" se romper. "Se os bancos centrais estrangeiros arrefecerem o seu envolvimento no actual 'esquema', a moeda americana cairá a pique contra a maioria das divisas e as taxas de juro nos EUA terão de disparar", afirmou Brad Setser, professor no University College de Oxford e um especialista na dívida liquida americana, que deve ter ultrapassado os 4 biliões no final de 2004 (ver quadro). Ainda que não haja o perigo de "defaut" da América, os investidores estrangeiros já começaram a incorporar um risco futuro ligado à remuneração dos seus activos em dólares. E os analistas antevêem a subida das taxas de juro directoras - o analista Peter Cohan fala de um patamar de 4 a 4,5% no final de 2005, e a Goldman Sachs, mais moderada, de 3 a 3,5%. Uma bomba diferida é, segundo Cohan, "o possível rebentar da bolha imobiliária nos EUA em 2006".

Alguns analistas europeus estão dissonantes. Mieczjslaw Karczmar, do Deutsch Bank Research, considera que a desvalorização do dólar "é um fenómeno psicológico" e que o câmbio "justo" ronda os 1,05 dólares por euro. Alvitra, por isso, que "o dólar evoluirá provavelmente nesta direcção num futuro não muito distante".

Ir a compras nos EUA

No entanto, o consenso inclina-se para um período de queda do dólar, similar aos que ocorreram em 1971/73, 1978/79, 1985/87 e 1994/95, ainda que num contexto com outros ingredientes macro-económicos. Esta situação abre uma janela de oportunidade a investidores e empresários estrangeiros que entendam a mensagem de Brad Setser: "Chegou a hora de ir a compras nos EUA. Os activos americanos começam a parecer baratos".

Os analistas citam o exemplo inteligente da China - propostas cirúrgicas de aquisição e fusão (vide o acordo entre a Lenovo/Legend e uma área de negócio da IBM) e lançamento de IPO (entradas em bolsa) no Nasdaq, que têm tido valorizações enormes. Setser vai mesmo mais longe - é o momento de estudar deslocalizações para a América, por parte dos europeus que dependam de exportações para esse mercado. "Exportar da Europa para os EUA não será lucrativo com o dólar fraco. Produzir nos EUA pode ser um dos caminhos para driblar o risco cambial", sublinhou-nos.

Mais um ano de "urso" nas Bolsas norte-americanas

Apesar da euforia dos últimos dois meses de 2004 em várias bolsas do Planeta, os analistas independentes chamam a atenção para o facto que atravessamos ainda um período de ressaca da "bolha" de 2000. As valorizações bolsistas continuam historicamente muito elevadas, o que significa que ainda está caro comprar displicentemente. Análise cirúrgica e espírito "anti-manada" são as recomendações de Peter Cohan e Adam Hamilton. O cientista Didier Sornette continua a prognosticar na sua simulação para 2005 a continuação de mais um ano de "urso" nas bolsas.

Nas bolsas é de esperar a continuação de um clima dominado pelo "urso" (em oposição ao "touro" associado aos períodos de "exuberância" bolsista). O cientista Didier Sornette, nas suas simulações sobre as bolsas (em www.ess.ucla.edu/faculty/sornette/prediction/20041117.asp#prediction), continua a considerar que as norte-americanas não irão inverter esse clima até final do ano. A First Call admite que a "performance" das acções tecnológicas nos EUA venha a ser muito inferior à de 2004 - os ganhos nas acções desse sector deverão ficar pelos 13% em 2005, enquanto que se situaram nos 43% no ano passado.

A tendência global em 2005 nas bolsas norte-americanas será de continuação do período descendente, segundo Adam Hamilton, o analista que no princípio de 2000 antecipou o "crash" do Nasdaq, com base no seu modelo de "vagas longas de valorização". Hamilton contesta a euforia despropositada de muitos analistas e investidores em torno do "aquecimento" bolsista do final de 2004 motivado pelas eleições norte-americanas, que logo foi arrefecido pelo comportamento da primeira semana de Janeiro, tida por muitos analistas como "barómetro" do ano. Hamilton afirma que estamos a viver a parte final de um ciclo bolsista de 30 anos que se iniciou em 1982 e que teve o seu auge especulativo em 1999/2000, entrando desde Março de 2000 num período descendente, em que as valorizações terão de ser "corrigidas" para a sua média histórica.

O multiplicador do valor das acções (tecnicamente designado por PER-price-earnings-ratio) continua no princípio de 2005 muito elevado quer no índice S&P 500 como no Nasdaq 100 - 23,2 no primeiro e 42,2 no segundo, face a médias históricas de longo prazo na ordem dos 14. No caso do Nasdaq 100, Hamilton chega mesmo a falar de "valorização ainda maníaca". "Ora a combinação entre valorizações ainda excessivas e displicência na atitude dos investidores é a melhor receita para o desastre, como a história tem provado. Os sinais coexistem. A altura em que é mais provável o 'crash' é quando muito pouca gente o julga possível. Os mercados são muito consistentes numa maldade - punir os investidores que agem em manada", sublinha Adam Hamilton.

«Os mercados são muito consistentes numa maldade - punir os investidores que agem em manada»

No entanto, Peter Cohan salienta que há muitas oportunidades de investimento nos EUA: "O que se requer é uma atenção cirúrgica". Há empresas cujos preços estão excessivos e que provavelmente irão baixar, sendo uma boa opção de comprar barato e bom no momento oportuno. Por outro lado, sublinha que há empresas em sectores cuja valorização bolsista é garantida num horizonte mais largo. Cohan criou dois índices, um que designa por "e-stocks" - e que vem desde 1998 - e outro, recente, que toma a abreviatura do nome do meio de George Walker Bush, o índice W.

O analista sublinha que o seu índice "e-stocks" se valorizou 367% desde 11 de Setembro de 2001, e que o índice W já subiu 20% desde a reeleição do Presidente Bush. O índice W acolhe os sectores bafejados pela actual orientação da Administração - energias (carvão, gás, petróleo, "commodities" em alta), defesa e logística (derivado da geo-política) e retalho (fruto do consumismo). Nos "e-stocks" encontramos 6 empresas com valorizações acima dos 400% num período de três anos: Internet Capital Group (2603%); CBS MarketWatch (1598%); Meta Group (1175%); e as conhecidas de toda a gente, Amazon (723%) e eBay (437%).

Outra alternativa, diz Peter Cohan, é olhar com atenção para as bolsas que no mundo mais se valorizaram.

QUADROS

 AS BOLSAS MAIS VALORIZADAS EM 2004 
 Áustria 51% 
 África do Sul 42% 
 Noruega 37% 
 Bélgica 35% 
 México 29% 
 Irlanda 29% 
 Grécia 27% 
 Filipinas 27% 
 Suécia 25% 
 Nova Zelândia 22% 
 Fonte: valores em11/01/2005, Peter Cohan

Top 10 dos "e-stocks"
 (valorização entre 11 de setembro de 2001 e 30 de Dezembro de 2004) 
 Internet Capital Group 2603% 
 CBS MarketWatch 1598% 
 Meta Group 1175% 
 Amazon 723% 
 eBay 437% 
 Yahoo 375% 
 CMGI 350% 
 TheStreet.com 346% 
 Symantec 300% 
 CNET 288% 
 Fonte: Peter Cohan

OS NÚMEROS DO DIABO
(em mil milhões)
 Indicadores 2001 2002 2003 2004
 Défice corrente -385 -474 -531 -614
 Défice comercial -363 -422 -497 -559
 Dívida liquida dos EUA 2212 2729 3380 4144
 Obrigações do Tesouro
na posse de estrangeiros
1040 1239 1528 1799
 Fonte: Brad Setser e Nouriel Roubini, The US as a Net Debtor, Setembro 2004

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