Letra A


A CHINA AFLUENTE


Os atractivos do mercado da China são por demais evidentes. Eis porque se percebe mal a falta de interesse dos empresários portugueses, quando à partida têm, com Macau, condições privilegiadas para ajudar na sua fase de arranque.

"Gostaria de ser um pouco mais sofisticada, ainda não o sou, por enquanto..." Liang Zhi pediu-me para me encontrar com ela em Hong Kong. Liang Zhi tinha perdido muito tempo comigo quando a visitei em Xangai, e claro que, agora, eu gostaria de lhe mostrar Hong Kong.

Ela queria comprar uma mala, uma que tem um nome que parece apelido, é qualquer coisa "Chan"... que tem uma loja linda perto do Hotel Mandarim no centro de Xangai. Fartei-me de pensar, Chan, Chan, será Chanel? É isso mesmo. Liang Zhi estava radiante, ela ainda mal sabia pronunciar o nome, mas sabia bem a marca que queria.

É para isso mesmo que essas marcas estão em Xangai e noutras partes da China. Nas melhores avenidas, entre a decoração elegante, o ar condicionado e a música ambiente, as lojas esperam que o mercado desperte.

Para algumas a sorte começou a mudar, como é o caso da boutique Chris & Chris, propriedade de uma criadora de Taiwan. "Apesar dos nossos preços, vendemos tanto como um armazém de grandes dimensões", afirmou ela. Depois de alguns anos de insucesso, a Chris & Chris e muitas outras empresas fornecedoras de produtos de consumo estão finalmente a fazer dinheiro na China.

Do vermelho ao preto

De acordo com um estudo publicado em 1995 pela Andersen Consulting e pela The Economist Intelligence Unit, intitulado "Moving China Ventures Out of the Red Into the Black", 64% das 47 maiores empresas estrangeiras na China apresentam já números a preto, havendo casos de lucros declarados superiores a dez milhões de dólares.

Em conclusão, diz o estudo, se neste momento alguma empresa estiver durante mais de quatro anos no mercado chinês sem conseguir lucros é porque alguma coisa está mal. E talvez seja o melhor seja sair dali.

O segredo do êxito não difere muito do conjunto de requisitos exigidos em qualquer outro lugar, tais como: uma estratégia de negócio bem concebida, uma gestão eficaz, fornecedores de confiança, um sistema de distribuição eficiente, produtos a um preço adequado.

Contudo, como não se cansam de lembrar os observadores, as variáveis que compõem cada um destes requisitos são, na China, diferentes das aplicáveis nos Estados Unidos da América ou na Europa. Acresce que a China é um mercado de longo prazo onde é necessário capital bastante para investir nos anos de arranque e que exige um acompanhamento contínuo ao nível da criação e manutenção de uma rede de relações.

Nesta fase e em função das necessidades do país, parece certo que alguns negócios são melhores do que outros e os produtos de consumo estão seguramente entre estes últimos.

Em 1994 um estudo da McKinsey concluía que a China possuía já 60 milhões de pessoas com um rendimento acima do qual algum consumo poderá começar a existir. E estes consumidores potenciais representam apenas uma pequena percentagem da população.

O salto de rã

Uma das áreas em franca expansão é a tecnologia da informação, com um crescimento de 30% ao ano, enquanto no mundo o sector cresce a 10%.

Quantas pessoas no seu país estariam dispostas a comprar um telefone celular que representa um ano de vencimento? A resposta foi, para a China, 600.000, em 1994. Dois anos depois, em 1996, o país corre o risco de se transformar no primeiro mercado mundial em telefones móveis.

Americanos e finlandeses devem por certo sorrir ao saber que a Motorola Inc. e a Nokia Corp. tomaram de assalto o mercado chinês com 60% e 20% da quota de mercado, respectivamente.

Nas sociedades industrializadas as telecomunicações evoluiram de forma progressiva: primeiro foram os telefones, depois os faxes, depois as comunicações por computador e depois os telefones celulares. Esperou-se que uma dada tecnologia fosse desenvolvida e testada antes de avançar para uma nova.

Mas o desenvolvimento económico da China é demasiado rápido, o país demasiado grande, para poder esperar pela instalação de infra-estruturas de telecomunicações em todas as províncias, nas aldeias mais recônditas. E o custo seria por certo insustentável.

E assim, para poupar tempo e dinheiro, a China ultrapassa tecnologias intermédias, iniciando um fenómeno que Tohru Osyuya, do Xangai Economic Data Service (no Japão), designa por "salto de rã": o fenómeno económico A, em vez de progredir para o fenómeno B, salta directamente para o fenómeno C.

Um país onde, ainda há pouco tempo, apenas duas em cada 100 famílias possuíam um telefone sofre o efeito inesperado e acelerador da difusão da informação através de telefones celulares, o que, por seu turno, induz um maior crescimento económico.

De "Império imóvel" (o que se fez nunca se poderá fazer), como lhe chamou Alain Peyrefitte, a China tem demonstrado neste século uma enorme vontade e capacidade de experimentar.

Os atractivos do mercado chinês são por demais evidentes. E, porque talvez "a mais útil das figuras retóricas seja a repetição", perceber-se-á mal a razão da falta de interesse dos empresários portugueses, quando à partida tinham, com o território de Macau, condições privilegiadas para ajudar na fase de arranque da China.

Interrogar-nos-emos mais tarde sobre a perda desta oportunidade histórica, o que não impede que se continuem a fazer ainda aquelas recomendações, já que começou na China o tempo de recolher benefícios, maiores para aqueles que, como diz o poeta latino, "per aspera ad astra", isto é, por caminhos árduos souberam alcançar as estrelas.

Levei Liang Zhi ao Hotel Península, em Hong Kong, à hora em que a orquestra de violinos estava a tocar. Duas mulheres que conversam separadas por uma chávena de chá e outra de café. É preta e branca a mala da Chanel e a pele tão macia! "A felicidade é como uma bola de sabão, desfaz-se mal se lhe toca", sorriu Liang Zhi.


Textos originais publicados na Revista Macau © Virgínia Trigo
Reprodução On-line ou em papel não permitida sem autorização prévia.

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