A moda do Vestuário Inteligente

Foto do Fashion Show em Boston

Media Lab de Negroponte lança primeira versão de softwear

Jorge Nascimento Rodrigues
no Wearables Computer Symposium
em Boston


Publicado no Expresso/XXI em versão mais reduzida


O novo pret-à-porter do vestuário computacional por Jesse Berst
da Anchor Desk, um serviço da ZDNet


Acabou de nascer mais um bébé da era digital em Cambridge, do outro lado de Boston, nos Estados Unidos. Com uma pequena magia, trocando a ordem das últimas três letras no «software», o Media Lab (www.media.mit.edu), dirigido por Nicholas Negroponte no Massachusetts Institute of Technology (MIT), criou este ano o «softwear», a que uns chamam o «vestuário inteligente» e outros simplesmente a «computação para você vestir no dia-a-dia».

Foto de Steve Mann O conceito já andava por aqui a germinar há 17 anos (!), desde que um estudante pioneiro - Steve Mann apaixonado por fotografia - começou a criar uns bizarros aparelhos com que andava "vestido". No caso, "vestir" significava encavalitar às costas e à cabeça um Apple II e mais umas engenhocas metidas no blusão e no boné.

De passatempo de um "lunático" que costumava vaguear pelo «campus» do MIT tirando imagens que processava em tempo real, tornou-se numa das linhas de investigação do Media Lab, financiada por respeitáveis multinacionais, e criou uma galeria de uns 20 «cyborgs» (o termo cunhado em 1960 numa novela de Manfred Clynes e Nathan Kline), que já não provocam tanto escândalo nas ruas de Cambridge.

Do género «cyborg», artesanal em matéria de estilo, ensaiou-se depois o passo seguinte. A «roupa computorizada» tentou o casamento com a moda. Assim nasceu a versão chique dos computadores para vestir.

Com uma mãozinha de jovens designers de quatro escolas de quatro capitais da moda (Paris, Milão, Tóquio e Nova Iorque), o Media Lab apresentou agora o primeiro show de moda futurista, na conclusão de um primeiro simpósio internacional sobre Wearable Computers nos dias 13 e 14 de Outubro de 1997 (ver em http://mime1.marc.gatech.edu/ wearcon/ graphical_wearcon/wearcong.html) e de um seminário aberto ao público no dia seguinte (http://wearables.www.media.mit.edu/projects/wearables).

Os modelos vestiram criações que em nada se assemelham à "roupa" que hoje usam os «cyborgs». Basta comparar o friso de «

cyborgs» com a galeria de modelos esculturais com vestuário futurista chique.

A assistência falava por si - gente de todas as empresas de nomeada do mundo, com os japoneses afanosamente a filmar tudo o que se mostrava ou mexia, e com uma boa mostra de fardados das Forças Armadas americanas. Aliás, a passagem de modelos seria patrocinada por entidades como o US Army Natick Lab e o US Army Soldier System Command, e por empresas como a Duracell, Levi Strauss, Swatch, 3M, L.L. Bean.

Convém recordar que o primeiro seminário sobre o tema dos «Wearables» foi patrocinado no ano passado pela célebre DARPA - a mesma agência do estado americano que esteve envolvida nos primórdios do que viria a ser a Internet. E que a toda-poderosa Boeing organizou o seguinte em Seattle, também no ano passado.

O que faz correr toda esta gente, é motivo para quem está de fora parar para pensar. O que está em jogo é um mundo de oportunidades de negócio da economia digital no próximo século.

O que aconteceu é que, em simultâneo, deram-se dois safanões - um na computação e outro na moda, o que, aliás, salientaram vários intervenientes.

A computação sofreu "mais uma revolução", frisou Alex Pentland (http://pentland.www.media.mit.edu/people/pentland), que no Media Lab dirige esta fronteira do «vestuário inteligente». Ela tenta agora passar do «interpessoal» - a era da comunicação que emergiu com a Internet e a Web - para uma computação centrada (na verdadeira acepção da palavra) no ser humano, em que expressões como a «innernet» e a «body net» assumem um significado literal.

O conceito "pessoal" já nada tem a ver com o sonho de Bill Gates - de um computador individual em cima de cada mesa de secretária. Mais propriamente, a próxima vaga será o computador embutido no tecido que vestimos, no adereço que usamos, colado à pele ou implantado nalguns dos nossos orgãos sensoriais.

A migração completa do computador dos locais convencionais em que estamos habituados a tê-lo ou usá-lo para o corpo está anunciada. A actual fase transitória dos portáteis assentes nos nossos joelhos, dos computadores do tamanho da palma da mão ou dos de bolso ainda está do lado de cá da ponte que nos há-de levar ao "nomadismo" computacional total - ao sonho tornado realidade pelos «cyborgs» do MIT de "sempre consigo e permanentemente ligado".

A moda, por seu lado, recebeu uma provocação. Os jovens estilistas da Creapôle École de Création et Management parisiense, do Bunka Fashion College, de Tóquio, da Domus Academia, de Milão, e da Parsons School of Design novaiorquina, de braço dado com os "lunáticos" do Media Lab e o apoio do Massachusetts College of Art vieram dizer que "não pode haver mais bela sem bits".

Aproveitando a Semana da Moda de Boston, que ocorre anualmente desde 1995, este «show» marginal pretendeu dizer aos estilistas que o vestuário do futuro "terá de ter a electrónica embutida ou então não servirá para grande coisa, mesmo quando falamos do chique e não só do dia-a-dia".

O que daqui advirá é um efeito multiplicador na economia. "Vamos assistir a uma nova convergência de indústrias, que até agora não se relacionavam. A electrónica de consumo pode encontrar o vestuário, o calçado, a chapelaria, o próprio têxtil. Surgem novas oportunidades para a óptica - o «Terminator» (filme) não é mais ficção -, a relojoaria - Dick Tracy, para os aficionados, já não está muito longe! -, e a joalharia mais diversa", afirmou Alex Pentland perante uma assistência entusiástica.

Aliás, as "estreias" em álgumas destas indústrias não se fizeram esperar. Um novo tipo de óculos electrónicos, muito ergonómicos, foi logo lançado no início do seminário. Já não têm aquele aspecto de "serviço secreto" mal disfarçado.

Um blusão musical da Levi's com um teclado bordado e um sintetizador como adereço foi passeado por vários estudantes do grupo de Pentland. Os mesmos que andam a tentar "remodelar" a velha técnica indiana de embutir metal no tecido, para confeccionarem o tecido electrónico do futuro.

Um joalheiro dos mais chiques da 5ª Avenida (em Nova Iorque), a casa Harry Winston, lançou um broche de diamantes e rubis que tem incorporado um sensor para medir a palpitação do coração e que emite diversos graus de luminosidade. É uma das suas primeiras aplicações em joalharia "médica preventiva", em colaboração com o Media Lab. A próxima etapa será a "joalharia comunicacional", o que algumas alunas de Pentland já exibem ao pescoço.

As aplicações cirúrgicas fizeram, também, os seus anúncios. John Wyatt, do MIT, anunciou que a primeira cirurgia com um implante electrónico na retina irá ocorrer a 9 de Dezembro, e que se espera no dia seguinte saber se se abriu ou não mais uma página na medicina.


A LER DE SEGUIDA: