Os 50 anos do transistor - II

Pela mão de Vinton Cerf, um histórico da Net
Regresso ao berço de um novo paradigma

por Jorge Nascimento Rodrigues Publicado inicialmente no suplemento XXI do Expresso

Por ocasião dos 50 anos da Association for Computing Machinery americana, que reuniu o seu encontro anual nos princípios de Março de 1997, fomos falar com um dos históricos da Internet, Vinton Cerf, um dos criadores dos protocolos que hoje nos permitem comunicar na rede, e que foi fundador e presidente da Internet Society. Hoje é vice-presidente da MCI Communications. Curiosamente, foi há trinta anos que outro dos históricos, Lawrence Roberts, apresentaria o primeiro Plano para a criação da ARPANET, a rede que seria a «mãe» da Internet. Foto de Vinton Cerf Fica claro das respostas de Vinton Cerf que um novo paradigma, diferente do inicial da Revolução da Informação, se veio afirmando - desde o berço em 1948, imagine-se! - e cujo ponto de não retorno se situou recentemente com a criação da Web e dos primeiros «navegadores». Entrámos na Era da "inteligência em rede", como clama Don Tapscott, ou do "telecosmos", como diz George Gilder. A Era do Transistor foi deposta, clamou já Paul Romer, alcunhado o "Adam Smith de Silicon Valley", o economista de Stanford de maior nomeada na actualidade.


Anos 40, o ponto de referência da revolução da informação

EXPRESSO -- O professor Paul Romer sugere que poderemos considerar a invenção do transistor em 1947 como uma espécie de marco histórico da "Revolução da Informação". Acha que podemos encontar aí o ponto de inflexão para o que Alvin Toffler viria a chamar a Terceira Vaga?

VINTON CERF -- É, efectivamente, tentador considerar a invenção do transistor por John Bardeen, William Shockley e Walter Brattain, dos Bell Lab, o ponto de partida de uma nova era. É claro que podemos sempre olhar ainda mais para trás na História, e encontrar a "Máquina Analítica" do inglês Charles Babbage, no século XIX, ou mesmo recuar até à "arte combinatória" do alemão Gottfried Leibniz ou até ao francês Blaise Pascal e à sua máquina mecânica de somar (a "Pascaline"), ambos no século XVII.


EXP. -- Aliás, em 1943, testara-se o pioneiro "Mark I", em que, segundo se conta, Howard Aiken havia seguido as descrições de Babbage para a tal "Máquina Analítica" e acabado por ocupar quinze metros de uma sala de laboratório em Harvard... O que o professor Romer sugere é que o pequenissimo transistor permitiu que a capacidade computacional disparasse e tornasse industrializáveis essas novas máquinas.

V.C. -- É indiscutível que, nesse período dos anos 40, houve uma confluência de eventos que levaram ao que se viria a chamar a "Idade da Informação".


EXP. -- E que tipo de mudanças ocorreram com o nascimento dos computadores pessoais em 1975, quando apareceu o Altair criado numa empresa pioneira engolida pelo esquecimento, a Micro Instrumentation and Telemetry Systems?

V.C. -- A criação dos PC trouxe a computação para o mercado de massas no final dos 70. Deixou de ser um serviço centralizado, carissimo e reservado a gente super-treinada. Os PC tornaram-se ferramentas para milhões. Esta inflexão, por seu lado, abriu a porta a uma cornucópia de novas aplicações e ideias, pelo simples facto de que tanta gente passou a ter a oportunidade de explorar o potencial destas poderosas máquinas.


Um «paper» que originou o novo paradigma "comunicacional"

EXP. -- Quando é que marcaria o nascimento do novo paradigma comunicacional, que viria a alimentar o que o canadiano Don Tapscott chamou de segunda revolução da informação, que está a ser a mãe de todas estas maravilhas actuais?

Foto de Claude Shannon V.C. - Logo em 1948. Claude Shannon, também dos Bell Lab, escreveu o seu agora famoso "paper" científico "Uma Teoria Matemática da Comunicação", onde abordou o problema da codificação da informação para transmissão, o que foi a base para muitos dos aspectos das redes de comunicações de dados que usamos hoje.


EXP. -- E quando é que poderemos situar o berço da Internet?

Foto de Claude Shannon V.C. - Há um período, nos anos 60, muito rico teoricamente, em que surge, independentemente e sem qualquer conhecimento mútuo entre três grupos, a noção de "pacote" e a invenção de uma técnica de comunicação através do envio de "pacotes" de dados de um computador para outro numa rede. O "paper" pioneiro sobre "Redes de Comunicação" foi publicado em Julho de 1961 por Leonard Kleinrock, quando estava no Massachusetts Institute of Technology. Por outro lado, Paul Baran escreveu, por volta de 1964, uma série de onze volumes sobre "Comunicação Distribuída", baseada no trabalho de investigação que ele liderara em 1962 na Rand Corporation, no âmbito de comunicações militares. Por volta de 1965, segundo creio, outra equipa, agora inglesa, do National Physical Laboratory (NPL), liderada por Donald Davies, inventaria a noção de "pacote" e desenvolveria, provavelmente, a primeira rede local de computadores na base deste conceito de transmissão por "pacotes". Foi Davies que acrescentou o termo "pacote" ao nosso vocabulário.


EXP. -- Mas quando é que esses conceitos revolucionários tomaram forma concreta?

V.C. -- Com a sua aplicação no projecto ARPANET lançado por Lawrence Roberts num plano em 1967 e com uma equipa liderada por Frank Heart e Robert Kahn da empresa de Cambridge (perto de Boston) Bolt, Beranek & Newman (BBN), que ganharia em Dezembro de 1968 um concurso lançado pela Agência de Projectos Avançados de Investigação do Departamento de Defesa (ARPA) para a construção de "nós" de uma rede na base dessa tecnologia dos "pacotes". Esta foi a base para a moderna comunicação de dados que hoje conhecemos e é o berço do que se viria a chamar mais tarde a Internet.


O berço da Internet

EXP. -- Onde é que encontramos o ponto de inflexão da era do transistor para a era do telecosmos, como lhe chama George Gilder?

V.C. -- Penso que é legítimo sugerir que a ARPA lançou o mais significativo esforço para mudar o panorama das comunicações computacionais com o projecto da ARPANET. Quando o primeiro nó dessa rede foi instalado na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) pela firma BBN em Setembro de 1969, uma nova Era indiscutivelmente havia nascido. O segundo nó viria a ser instalado no Stanford Research Institute, em Menlo Park (no Silicon Valley). Houve, também, pela mesma altura, trabalhos paralelos no Reino Unido, no NPL, a que já me referi, sob a direcção de Davies.


EXP. -- Como é que surgiu o seu envolvimento pessoal no desenvolvimento deste novo paradigma da rede?

V.C. -- Eu pertenci ao primeiro grupo, liderado pelo meu velho amigo Steve Crocker, que desenvolveu os primeiros protocolos para a ARPANET. Em 1973, eu e Bob Kahn desenvolvemos o desenho para a rede e as primeiras especificações para os protocolos TCP(protocolo de controlo da transmissão) e IP (protocolo internet). Eu dirigi, depois, desde 1976 até 1982, o programa de investigação em torno da Internet.


EXP. -- Bob Kahn lançou a ideia de "internetting" logo em 1972. Na altura, tinham ideia de até onde isto poderia ir?

V.C. -- Durante, os primeiros anos, eu via a investigação em torno da Internet como uma tentativa para inserir os computadores no sistema de comando e controlo militar. Para o conseguirmos, eram necessárias diversas redes e a tecnologia Internet era um modo de as ligar a todas. A Internet seria publicamente lançada em Janeiro de 1983, quando foi autonomizada a Milnet, só para a área militar. A ARPA e a Agência de Comunicações da Defesa marcou o primeiro mês desse ano como a data em que todos os "hospedeiros" da ARPANET tinham de mudar do velho Protocolo NCP (Network Control Protocol) para o TCP/IP que criáramos. Na prática, este foi o berço da Internet em termos operacionais. Entre 1973 e 1982 era tudo muito experimental.


Algo em grande estava a emergir

EXP. -- Quando é que se aperceberam que algo em grande estava a emergir?

V.C. - A explosão da Internet começou em 1988, se olharmos aos números de redes e de "hospedeiros" no sistema. Em 1989, tornara-se claro que algo de grande estava a acontecer, porque a indústria estava rapidamente a meter-se no fabrico de equipamento e de software para a Internet. Todos nós apreciávamos o enorme potencial tecnológico da Internet, mas creio que o seu impacto social e económico - muito do qual ainda estará no futuro - não era para nós evidente, pelo menos até 16 anos depois do trabalho de investigação inicial que fizeramos.


EXP. -- Mas o que é que permitiu a massificação actual do uso da Net pelos particulares e pelas empresas?

V.C. -- Creio que a World Wide Web, inventada por Tim Berners-Lee e Robert Caillau, em 1989, no CERN (em Genebra), realizou o velho sonho de Vannevar Bush, o sistema "Memex". Bush nunca chegou a materalizar a ideia que expôs, creio que em 1947, num artigo na revista The Atlantic Monthly, onde especulava sobre uma memória em microfilme, em que se poderia armazenar toda o conhecimento do mundo, e em que haveriam apontadores, ligações, entre todos os documentos. Foi a partir deste conceito que surgiram as ideias das hiperligações e que o hipertexto nasceu. Depois, da WWW, naturalmente, há os primeiros «navegadores». O «Mosaic» criado por Marc Andressen atraiu imensa atenção em 1993, mas foi o «Netscape», também dele, há menos de dois anos atrás, que rapidamente dominou o mercado. Agora está a ser desafiado pelo Explorer da Microsoft e mais concorrentes se seguirão certamente. Esta combinação da Web com os «browsers» foi o «click» para o uso da Net pelo público em geral. Mas, atenção, a Web não é necessariamente o único incitador do crescimento da Net a que estamos a assistir - nós sabemos que o tráfego na Net tem estado a crescer cerca de 15 por cento ao mês ou mais, no último par de anos, e que a navegação na Web consome apenas uns 50 por cento desse tráfego global. O resto é correio electrónico, o célebre @, e grupos de discussão. Portanto, o correio electrónico tornou-se uma ferramenta indispensável dos negócios e o rápido crescimento das intranets (as Internet privadas) também aquece os sectores do «hardware» e do «software». Como diz o meu amigo John Vittal, que esteve envolvido nos primórdios do @, a Web provocou uma escalada na Net, e esta, por sua vez, uma outra no uso do correio electrónico, que vai fazer agora 25 aninhos.


O perfil de Vinton Cerf pode ser consultado em: http://www.mci.com/technology/ontech/cerfProfile.shtml

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As respostas não publicadas

A HISTÓRIA

Contada pelos seus próprios fundadores, pode ser consultada em:
http:// www.isoc.org/internet_history/#origins ou então pode ser lida em: The Roads and Crossroads of Internet History http://www.internetvalley.com/