50 anos do transistor - I


Uma colecção de artigos sobre os 50 anos deste pequeno invento
que revolucionou o século XX serão aqui publicados.


O FIM DO MITO DO TRANSISTOR

por Jorge Nascimento Rodrigues
Publicado inicialmente no suplemento XXI do Expresso



Foto de Paul Romer Ironia da história, o transistor faz 50 primaveras este ano. É o avô do microprocessador que permitiu o triunfo da era da massificação do PC bem artilhado com software em cima de cada uma das nossas secretárias, em que se tem baseado a economia capitalista da informação. Foi o pontapé de partida para o que Alvin Toffler pintou como a terceira vaga. Mas "o mito do transitor está a chegar ao fim", escreveu recentemente Paul Romer, um dos mais conceituados economistas americanos da actualidade.

Com o definhar desse mito tecnológico está a emergir, desde o começo dos anos 90, um novo paradigma, o da economia digital, uma expressão que foi popularizada há um ano pelo canadiano Don Tapscott, num livro que se tornou «best-seller». Por detrás dela está uma inversão tecnológica de sentido: a função central está a passar do PC para a rede. A lógica, diz Scott McNealy, da Sun Microsystems, uma das empresas que aposta tudo neste novo jogo, é que a nova cadeia de valor é "webcêntrica" (palavrão criado a partir da World Wide Web, uma criancinha que apenas tem cinco anos). Das tecnologias de informação estamos a passar para as "tecnologias relacionais", em que esta expressão, cunhada - imagine-se - por dois franceses, pretende acentuar "o papel cada vez mais estratégico das conexões, no duplo sentido de relações entre conteúdos e relações entre crâneos".

«Conectividade» é justamente a palavra-chave do livro em preparação por Derrick de Kerckhove, outro dos gurus que está a ficar completamente apanhado pelo «webcentrismo». O que daqui se deve depreender, explica este autor, também canadiano, em Webness (que há-de sair em Abril), é que vão estar na berra duas oportunidades: de um lado, vamos ter a indústria da memória (da informação e do saber digitalizados e ligados pelo hipertexto), e do outro, as indústrias viradas para a conexão da massa cinzenta. Mas, atenção: como a memória vai ser cada vez mais uma mercadoria, é no segundo vector que vai estar o segredo do valor acrescentado no século XXI.

A guerra entre duas cadeias de valor


Estes dois conceitos brotaram de uma vaga de inovação bem recente, que fez projectar mediaticamente os famosos «browsers» de navegação na Web, a ponto que muita gente tomou esta núvem por Juno, e crê centrar-se na esgrima entre «browsers» a guerra da década. De facto, o que está em confronto é muito mais, são duas cadeias de valor baseadas em paradigmas distintos, como afirma George Gilder, o polemista da revista «Forbes».

A revista «Fortune» já aconselhou para 97 estar-se de olho nos vários elos quentes dessa nova cadeia de valor da impropriamente ainda chamada "indústria informática": não só nos «browsers», mas sobretudo na nova linguagem de programação «Java», nuns aparelhos que dão pelo nome de «routers» (que como o nome indica servem de rota para as mensagens que trocamos no ciberespaço) e outros de «servidores» (que bem podem engordar a ponto de armazenarem a memória sagrada dos nossos conteúdos), na nova geração de «modems» (incluindo os para o cabo), em quem também possa "engordar" a largura de banda (e aqui vai haver certamente uma grande guerra), e nos fornecedores de encriptação e de autenticação digital.

Mas não só a cultura "informática" dos últimos dez anos foi abalada pela pujança da Net. Também os fundamentalistas da «rede» começaram a ver com maus olhos o encontro da Net com o capitalismo. Vive-se o fim da idade da inocência, segundo os arautos da economia digital. "Talvez seja um anátema para os puristas, mas a lógica económica - publicidade, pagamento de serviços com real valor acrescentado, vendas e distribuição para um mercado «customizado» de massa - é a única forma de garantir a sobrevivência da Net e a própria manutenção de um certo espaço de troca de informação voluntarista graciosa", escreveu um ex-«hacker» inglês, Neil Barrett, em The State of the Cybernation, um livro recente editado pela Kogan Page em Londres. Segundo a «Fortune», o comércio digital pode dar um salto este ano, a partir do momento em que a Visa e a Mastercard garantam publicamente a segurança dos pagamentos «on line» com o número do cartão de crédito.

Oportunidades para a Europa


Mas para que a Net signifique negócio a sério, o dinheiro tem de funcionar em pleno no novo paradigma. Neste ponto, os analistas vislumbram "mais uma óptima oportunidade para a Europa".

Os dois sistemas de dinheiro digital mais bem posicionados são europeus. Um, o «Mondex», nasceu no Reino Unido, onde ainda decorre um projecto-piloto, e estendeu testes ultimamente a Hong Kong, Canadá, Nova Zelândia e São Francisco, nos EUA. A Mastercard anunciou, entretanto, a promessa de em 97 tomar 51 por cento da Mondex International. O outro é liderado pela DigiCash holandesa e conta com experiências na Finlândia, nos Estados Unidos, na Austrália e na Alemanha (com o Deutsch Bank). Espera-se, em 97, que o sistema seja estendido ao conjunto de 41 países (onde se integra Portugal) que formam a rede EUnet. Já se diz, por piada, que este dinheiro digital - com capacidade de câmbio automático em várias divisas - o torna "ideal como moeda única electrónica para uso no contexto da União Europeia, mais fácil de aceitar que o tal euro em papel ou moeda".

Mas uma das chaves do futuro da economia digital "reside no casamento feliz entre a finança e a segurança na rede". São palavras de Robert Hettinga, o organizador do primeiro congresso sobre Encriptação Financeira, que se realizou em finais de Fevereiro de 1997, e que irá decorrer num dos «off-shore» de dados nas Caraíbas.

A outra chave tem a ver com a privacidade, com o direito à propriedade dos seus dados pessoais (o que Don Tapscott já apelidou de 30º Direito do Homem), e com as questões do direito autoral, da propriedade intelectual.

Nestes dois pilares joga-se o futuro do próprio Direito na Net, que, no ano de 97, vai emergir claramente como um novo movimento de jurisprudência, particularmente nos Estados Unidos e, em menor medida, na Europa. A digestão dois dois tratados saídos há duas semanas da revisão da Convenção de Berna, que vão estar para assinatura, pelos países interessados, até 31 de Dezembro, irá estar na ordem do dia.

* Com a colaboração de Manuel Lopes Rocha, advogado, e Libório Manuel Silva, director do Centro Atlântico



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