No berço das "coisas" que pensam

Jorge Nascimento Rodrigues no Media Lab
no MIT em Cambridge/Boston
Publicado no Expresso/Economia em Maio de 1996

O "MEDIA" Laboratory do Massachusetts Institute of Technology (MIT) é um dos pontos obrigatórios de um roteiro - real ou virtual - pelo mundo do "multimedia". Tornou-se famoso a partir do momento em que o conceito explodiu numa imensa oportunidade empresarial.

À frente tem um homem que há dez anos era considerado um "charlatão" pelos bem-pensantes da academia e hoje é tido como o guru mais respeitado do digital: Nicholas Negroponte, que já viu traduzida para português a sua "bíblia" "Being Digital".

O EXPRESSO esteve um dia no Media Lab e viu o "livro" que Gutenberg jamais sonharia que pudesse existir e brincou com um cãozinho, o Silas, que vai transformar radicalmente o negócio da chamada "realidade virtual".

Nós ainda andamos a tentar perceber o que é o "multimedia" e a ensaiar os incómodos e extravagantes capacetes, óculos e luvas da realidade virtual que hoje se começam a comercializar, mas eles, a gente que povoa o Media Laboratory do Massachusetts Institute of Technology (Media Lab, no diminutivo), já estão noutra fronteira.

O hoje famoso "multimedia" tem quase um "século", medido segundo a escala temporal de Nicholas Negroponte, o guru do Media Lab, para quem uma década nesta área deve ser multiplicada por um factor 10, para se perceber o "envelhecimento" que, entretanto, ocorreu, desde que ele e mais alguns "charlatães" (como foram considerados no começo dos anos 80) começaram a "cruzar" o então impensável - a computação, os "media" e as comunicações.

Poucos sonhariam que desta "mistura" saísse uma revolução da informação que está a fazer emergir a economia digital como novo modo de produção.

A nova fronteira da investigação

Mas o "multimedia" está já no mercado e no Media Lab a missão é "abrir caminho, passar adiante, não especializar, não ficar atados ao passado", explicou-nos Richard Bolt, um dos cientistas séniores da casa. "Por isso, estamos a desbravar terrenos que podem parecer, de novo, fantasia e loucura", comenta, a rir-se.

Aqui, neste canto do "campus" do MIT, em Cambrigde, há 350 pessoas que, agora, andam à volta das "coisas" que pensam (já pensou se a maçaneta da sua porta tiver inteligência?), do computador que se pode vestir (por exemplo com roupa interior) ou calçar ou colocar nuns óculos, dos "agentes inteligentes" (um deles é o simpático "Silas", um cão virtual, que é uma das atracções mediáticas), das notícias do futuro seleccionadas e lidas à medida por si, do "papel" e do "livro" digitais, e da "televisão" de amanhã, uma mistura da filosofia Internet com a distribuição de som e imagem a alta velocidade.

E o que pode deixar incrédulo o leitor é que todas estas "fantasias" são reais, podem ser vistas (só algumas, outras são totalmente "top secret") nos "open space" e nos laboratórios do edifício. Há já estilistas que estão a trabalhar em protótipos do tal vestuário e em adereços de moda computacionais (pense-se primeiro nos relógios, óculos, chapéus, brincos, jóias e cintos).

Numa sala inteligente, qualquer um de nós pode interagir com o "Silas" e, meio à socapa, consegue-se apalpar o tal "papel" do futuro. Há tampos de mesa que são "interfaces" activas (há mesmo um protótipo em exposição) e há gente a ensaiar o quadro (de parede) activo, e fala-se, em breve, da porta de frigorífico com as mesmas capacidades multimedia. Há ainda uma batuta digital que serve de controlo remoto.

Ao todo existem 151 projectos, que levariam vários jornais a descrever, que num dia é impossível visitar no Media lab, e que são seguramente várias noites a "navegar" nas páginas que podem ser consultadas na World Wibe Web (em www.media.mit.edu).

Mas qual é a "cola" estratégica de tudo isto? Bolt explica-nos: "No âmago de todas estas pesquisas estão três novos anéis ou argolas, o da aprendizagem e do senso comum, o da computação perceptiva, e o da informação e entretenimento. Do cruzamento deles estão a resultar três novas palavras-chave: interagir, expressar e divertir". O que é que vai sair daí é, ainda em grande parte, futurologia.

Uma das "argolas" que logo nos impressiona é a do "senso comum", pois é um discurso muito distante daquele que os fabricantes da era da informação seguiram nos últimos quarenta anos.

Tecnologia para o senso comum

Bolt atira-nos com esta explicação: "Se queremos ter objectos, físicos ou virtuais, que vão ter inteligência (artificial), esta ainda não pode ser definida em abstracto, tem de estar ligada ao papel concreto que devem desempenhar realmente na vida dos humanos - é a isto que nós chamamos a computação do senso comum".

Pelo contrário, prossegue o nosso interlocutor, o paradoxo de hoje é este:"Há ´chips` por todo o lado, à sua volta. Os nossos electrodomésticos, por exemplo, têm imensos. Mas são estúpidos. Não comunicam entre si, nem comigo ou consigo. Por outro lado, o seu PC está carregado de ´gordura`, que só atrapalha".

Depois, há a própria parte ergonómica do problema. "Eu e você somos os meios mais portáteis que há e, no entanto, o corpo humano não está aproveitado como meio de comunicação, apesar de carregar imensos objectos e roupa e de fazermos imensos movimentos. Já pensou, por exemplo, que ao cumprimentar-me podia estar a trocar comigo um cartão de visita por via digital? Nós começámos aqui no Media Lab a falar do conceito de ´body net`, de ´body modem` e de ´personal area networking`. Temos em curso a construção dessa plataforma em protótipo", sublinha Bolt, carregando o tom de voz à medida que desfila todos estes ciberpalavrões.

Mas, não irão todas essas cibercriações um dia revoltar-se? "Não. O nosso objectivo é criar uma colecção de objectos do dia-a-dia que mantenham a sua identidade, mas que sejam ´assistentes` da nossa vida. Trata-se de colocar a tecnologia ao serviço das pessoas nos seus imensos detalhes diários, poupando-nos energia e tempo", conclui Richard Bolt, antes de nos convidar a descer ao interior desta fábrica de ideias.


A LER DE SEGUIDA: