A
Segunda «conversão»
dos informáticos
Jorge Nascimento Rodrigues em Orlando
no Lotusphere 98
Texto publicado no EXPRESSO em versão mais reduzida
É a segunda «conversão» em menos de cinco anos. Primeiro foi o boom da Internet
e a revolução trazida pela World Wide Web, que mudaram de alto a baixo o rumo
da informática e dos seus protagonistas. Agora é a gestão que lhes está a
entrar porta a dentro. Par alguns será mais uma «conversão» forçada, mas para
muita gente do software está a ser um motivo de grande entusiasmo.

Que o diga a verdadeira multidão que invadiu as duas sessões sobre o tema
no Lotusphere 98, organizado em Orlando, na Flórida, pela Lotus para apresentar
os seus novos produtos do semestre.
Kathy Curley, directora de investigação do Instituto da Lotus, e Christopher
Andrus, do grupo de Tecnologias Avançadas da Arthur Andersen, ficaram siderados
com mais de um milhar de assistentes, ávidos a tirar notas e a pedir cópias
das conferências (respectivamente "Forming a Knowledge Management Strategy
around business drivers" e "Knowledge Management: Components and Methodolgy"),
e não tiveram mãos a medir com o batalhão de jornalistas da imprensa especializada,
questionando esta «coisa» nova da gestão do saber - «knowledege management»,
como já baptizaram esta nova tendência para 1998.
O ouro do século XXI
No que poderia parecer um «show» apenas de soluções de «software», um tema
tão fora do jargão tradicional dos informáticos subitamente ganhou o papel
de actor principal. O líder da Lotus, Jeff Papows, já o aflorara logo no início
da convenção, mas, no final, não deixou de sublinhar que a sua mensagem tinha
passado - a gestão do saber é o enquadramento fundamental para as soluções
tecnológicas em que a Lotus se está a envolver. Por isso, salientou, "percebê-la
bem, é condição de vida ou de morte".
Michael Zisman, o estratega da Lotus, veio, em seguida, explicar, ao detalhe,
o porquê. "Depois da reengenharia, está é a próxima grande «coisa» que vai
fazer furor num mundo de empresas que cada vez mais olham o conhecimento como
o ouro do próximo século", começou por sublinhar, para concluir que, em termos
estratégicos, "este é o momento certo para atacar esta questão". Com muitas
empresas frustradas com os efeitos do «downsizing», pode ser "uma das luzes
ao fundo do túnel" para a retoma de estratégias de crescimento, comentou.
Depois, riu-se sonoramente, ao referir que, se calhar, no próximo mês, Bill
Gates e a Microsoft «descobrirão» o filão e macaquearão o tema.
Mas não se trata só de «filosofia». As contas sobre o mercado da gestão empresarial
do conhecimento já foram feitas por Peter Murray (p.n.murray@cranfield.ac.uk),
da Universidade de Cranfield, no Reino Unido, que estima para o ano 2000 um
volume de negócios em infraestrutura, serviços, «hardware» e «software» ligado
ao assunto na ordem dos 90 biliões de dólares, ou seja o triplo do mercado
actual. Segundo o estudo, as empresas mais avançadas estão a «juntar» a gestão
do saber ao desenvolvimento e a afectar percentagens crescentes dos seus gastos
anuais a esta rubrica. Murray espera que estes orçamentos "expludam" - no
caso das referidas empresas mais vanguardistas- dos 3,7 por cento prováveis
hoje para mais de 6 por cento no ano 2000.
O tema, naturalmente, não brotou do nada, agora. Anda no ar desde que Peter
Drucker falou do assunto e tem sido abordado por diversos autores mais recentemente,
estando a dar corpo a uma corrente de pensadores, em que se misturam, entre
os mais conhecidos, especialistas da estratégia, como Gary Hamel, e apóstolos
da "organização que aprende", como Peter Senge. O ano de 1997 foi, aliás,
particularmente generoso em obras sobre o assunto, nomeadamente em torno do
tema do "capital intelectual" (ver em www.janelanaweb.com/livros/ficha2.html).
Agora estão a esgotar-se rapidamente os livros que trazem no título o saber
como condimento.
Uma das obras, aqui referida insistentemente no Lotusphere, é da co-autoria
de um perito da família da IBM (empresa que comprou, recorde-se, a Lotus),
Laurence Prusak (lprusak@us.ibm.com),
líder da denominada Knowledge Management Competency da IBM Consulting, a funcionar
nos arredores de Boston. Ele escreveu já este ano, com Thomas Davenport (Davenport@mail.utexas.edu),
um reputado professor de gestão do Texas, Working Knowledge - How Organizations
Manage What They Know (Compra
do Livro), editado pela Harvard Business Scholl Press, que
se está a transformar rapidamente na «bíblia»
para os práticos do terreno.
A rede humana
É nas linhas essênciais deste livro que se está a inspirar muito do trabalho
do Instituto da Lotus (ver em www.lotus.com/services/institute.nsf),
dirigido por Christopher Newell (Chris_Newell/CAM/Lotus@lotus.com),
que nos explicou longamente as áreas de ponta em que a investigação e o desenho
de protótipos estão a ser levados a cabo.
"Todos nos baseamos no trabalho pioneiro aberto por Hamel ou Senge, mas o
que notamos é que lhes falta operacionalizar os conceitos", refere-nos, para
explicar a janela de oportunidade em que "entra" o seu instituto, criado em
meados de 1994, propositadamente para "rentabilizar o capital intelectual".
No fundo, sublinha o nosso interlocutor, o denominador comum desta investigação
é considerar que o elemento central é o «humanware», ou seja "o processamento
humano e não o processamento da informação". "O que nós queremos é criar soluções
que criem ambientes favoráveis à partilha de saber dentro da organização,
que instiguem a conversação em geral, que fomentem uma cultura colaborativa.
O espírito da rede humana sobrepôe-se à tecnologia", conclui.
LER AINDA:
- Chris Newell e Laurence Prusak
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