A biologia dos novos negócios
tem de ser aprendida

Kevin Kelly sobre as regras para se fazer dinheiro no mundo em rede

O editor da revista «Wired» com Jorge Nascimento Rodrigues

Publicado inicialmente no suplemento XXI do Expresso numa versão reduzida


A "revolução digital" e a "sociedade digital" estão na moda. Mas, por debaixo delas há algo mais profundo que mexe - a economia em rede, que tem leis muito próprias, algumas delas o inverso daquelas a que nos habituámos na economia industrial.

Foto: Kevin Kelly O advento deste novo tipo de tecido dos negócios terá sido antecipado por Peter Drucker, desde que o «pai» da gestão começou a falar da sociedade do saber. Por vezes, dá-se o nome a esta nova realidade de "sociedade da informação", mas o conceito parece "muito insuficiente" a Kevin Kelly (kk@kk.org), o conhecido editor executivo da revista «Wired».

A saga de Kelly para "vender" o conceito de "economia em rede" começou em força com Out of Control, um grosso livro (520 páginas!) publicado pela Addison-Wesley há dois anos atrás (ISBN 0201483408), que o autor acabou por colocar gratuitamente em linha mais tarde (ver em www.kk.org/outofcontrol/index.html).

A tese por detrás dos escritos mais recentes de Kelly é que a dinâmica actual da economia não é mais "controlável" pelas regras capitalistas anteriores, e que é indispensável aprender "a biologia dos negócios na economia em rede", o que motivará, um dia destes, mais uma obra sua, confessou-nos.

Ele começou a trabalhar a ideia num capítulo de Out of Control, alinhavou depois uma colaboração para a colectânea Rethinking the Future (editada pela Nicholas Brealey Publishing, em Londres, este ano, ISBN 1857881036) e sistematizou umas novas tábuas da lei num artigo na revista que dirige, intitulado «New rules for the Economy:Twelve dependable principles for thriving in a turbulent world» (ler na edição em papel da «Wired» de Setembro 97, ou então em www.wired.com/5.09/networkeconomy).

No ano do cinquentenário do transistor, a que temos vindo a dedicar este projecto de artigos, damo-nos conta de que a economia deu uma grande volta, como Paul Romer já alvitrou ao decretar o fim de uma era (ver em www.janelanaweb.com/sociedad/transit1.html).

Em entrevista concedida «on line», Kevin Kelly, a partir de São Francisco, esclarece alguns pontos mais «chocantes» e reafirma a sua admiração pela Microsoft.


Desde Out of Control que vem dizendo que a economia emergente se rege por leis muito parecidas com as da biologia?

KEVIN KELLY -- O tema que abordei nesse livro e agora no artigo da «Wired» é que a melhor forma de perceber a nova economia é entender que ela segue os princípios que governam as redes. Assim sendo, obedecendo a essas regras - como a de prosseguir o gratuito, antecipar o barato, abraçar o poder das coisas "estúpidas", etc. - pode ter-se sucesso.

E isso é um mecanismo similar ao biológico. O que estamos a assistir pela primeira vez na história é ao facto de que um modelo de crescimento biológico está a ocorrer nos sistemas tecnológicos criados pelo homem.

Umas das suas afirmações que choca é ouvir dizer que o poder reside nas coisas "estúpidas"...

K.K.: ... conectadas ;O). Essa lei (também) dos sistemas vivos é esta: muito simplesmente, a força vem da conexão de uma forma estruturada e intensiva de imensas partes "estúpidas". Essas ligações generalizadas permitem simultâneamente a evolução, a co-evolução, a adaptação, a interacção e a mudança cibernética. E isso é o que é a vida.

Com essa transição para o reino da conectividade, acha que entrámos decididamente numa Quarta Vaga, para "actualizar" a metáfora lançada por Alvin Toffler nos anos 70?

K.K. -- Boa pergunta. Mas só a história saberá responder se a Idade da Rede vai ser substancialmente diferente da Idade da Informação. Suspeito que não.

Não?! Como assim, depois de tudo o que tem escrito?

K.K. -- Sinceramente, eu penso que a Terceira Vaga e a sua "economia da informação" é mais similar do que divergente em relação à economia em rede, ainda que eu insista que o conceito de "economia da informação" é muito insuficiente para dar uma imagem da realidade actual. A Quarta Vaga - o que quer que isso venha a ser - está ainda, de momento, para além da nossa compreensão.

E qual é a sua dívida intelectual para com Peter Drucker, o «pai» da gestão, à primeira vista tão estranhamente misturado com o cibermundo?

K.K. -- As minhas ideias são um refinamento do que Drucker - e outros - têm vindo a dizer, desde o final dos anos 60. É, agora, óbvio que eles estavam certos àcerca do papel do saber e do conhecimento. Penso que lhe juntei alguma dinâmica adicional, mas, é claro, que há ainda muito mais por explicar.

Eu presumo que nos próximos cinco anos, verdadeiros economistas começarão a desenvolver modelos matemáticos muito rigorosos e teorias cabais para se perceber a fundo o que está a ocorrer. Passaremos do nível da metáfora - por onde eu e Drucker andamos - para o da ciência.

Nesse movimento de "academização", como vê o papel de Paul Romer, o economista actualmente mais admirado na América?

K.K. -- Ele é uma das pessoas que eu julgo que de facto virão a protagonizar o que eu disse. Ele postulou, com grande argúcia, que a principal questão teórica que precisa de ser explicada numa economia é a forma como cresce, e não a forma como ela "assenta" ou se "acomoda" - esta última abordagem é a opção dos economistas tradicionais. Assim, Romer e outros teóricos do "novo crescimento" tornaram-se muito populares entre os jovens economistas iconoclastas de hoje.

Mas tem de concordar comigo que para o comum dos homens de negócios é muito difícil aceitar novas regras como essa de ter de desaprender frequentemente tudo o que se aprendeu antes, ou a de deixar de se concentrar na produtividade e na optimização do que está a produzir. Que tipo de viragem ideológica no mundo dos negócios tem em mente?

K.K. -- Creio que essa viragem é melhor entendida com esta máxima de que eu falo - é necessário "alimentar primeiro a rede". Você tem de se assegurar que as redes em que se insere crescem de facto, para que você próprio possa medrar.

E isso pode implicar muitas vezes que tenha de apoiar indirectamente a sobrevivência - atenção: não a dominância! - dos seus próprios concorrentes, e que deva apagar as distinções entre os seus clientes e a sua própria empresa.

Estas ideias podem começar por parecer estranhíssimas, mas fazem imenso sentido para muita gente depois de algum tempo.

Outra das sua máximas bizarras é a de "prosseguir o gratuito", ou seja uma estratégia de dar de borla para alcançar a liderança na quota de mercado durante um período inicial que denomina de "protocomercial". Mas como é que se consegue sobreviver a tal, sem ter as costas quentes, com o apoio muito activo do capital de risco, como acontece aí na Califórnia, algo que escasseia na Europa?

K.K. -- É claro que nem todos sobreviverão. Mas ficarão os suficientes.

Falando dos que têm muito dinheiro para essa fase inicial, acha que a Microsoft percebeu de facto a regra de ouro da nova era - de que a Net é acima de tudo um meio de conectividade gerador de um novo ambiente social -, ou não estará a empresa de Bill Gates tentando "encurralar" a Internet e a Web em mais um ícone no ecrã dentro de um PC "gordo"?

K.K. -- Eu penso sinceramente que o Bill e particularmente o seu camarada Nathan Myrvold entenderam muito bem as leis da Net. Eles têm a tarefa dificilima de moverem para este novo campo uma grande e lucrativa empresa da era da Informação. E como toda a gente sabe, conseguir mudar empresas super-lucrativas é o mais difícil - precisamente porque são bem sucedidas e líderes no quadro da situação actual!

Kevin, há alguma empresa da nova economia digital que o impressione em particular?

K.K. -- A Microsoft - uma vez mais - continua a surpreender-me.

Qual é o papel que idealizou na economia em rede para essa aventura editorial que é a sua revista «Wired»?

K.K. -- A «Wired» é o local ideal para observar, explorar o futuro, e relatar-nos como é que é a vida onde o futuro irrompe no presente. E isso, meu amigo, não é apenas na Califórnia que acontece. O futuro está a irromper por todo o mundo! Nós tentamos, também, gerir a própria «Wired» como uma rede - criamos uma nova empresa sempre que nos damos conta que somos mais de 100 pessoas.

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