Universidades europeias apostam na ciência

O ensino superior europeu está a guinar para a ciência e tecnologia. Em comparação com os EUA, a União Europeia está a desinvestir nas licenciaturas em ciências sociais, direito e gestão e está a apostar nos cursos superiores de engenharia, indústria e construção civil, ciências exactas, saúde e serviço social. Este foi o quadro do ensino superior europeu mostrado por Kosmo Kalliarekos, consultor do Parthenon Group, uma empresa americana de consultoria de educação, na terceira edição do Mercado Mundial de Educação (World Education Market), evento que decorreu no Centro de Congressos de Lisboa (antiga FIL), de 21 a 24 de Maio.

Análise de Ruben Eiras

Artigo publicado no Expresso Emprego

O site do WEM | O site do Parthenon Group
«e-learning» e educação global

De acordo com aquela análise sobre o mercado de educação europeu, enquanto que o "mix" de licenciaturas de ciências sociais, direito e gestão na UE representa 30,9% do total de cursos, nos EUA o peso destas áreas de conhecimento situa-se nos 41,5% no total de cursos. No Velho Continente as engenharias, indústria e construção civil detêm uma fatia de 15% e as ciências exactas representam 11,3%. Nos Estados Unidos, estes valores situam-se nos 8,5% para aqueles dois grupos de licenciaturas. Os diplomas em saúde e serviço social representam 15,7% na Europa e 13,7% nos EUA.

De acordo com Kosmo Kalliarekos, esta viragem no ensino superior europeu deve-se às necessidades deste tipo de profissionais no mercado europeu e às orientações políticas definidas por Bruxelas sobre a construção de uma economia baseada no conhecimento, princípio adoptado na Estratégia de Lisboa, definida em 2000.

Contudo, a análise não inclui dados sobre a Grécia e Portugal. O Expresso contactou o Ministério da Ciência e do Ensino Superior para a obtenção de informação sobre a realidade nacional neste plano, mas até ao momento do fecho da edição não obteve qualquer resposta.

No entanto, tendo em conta os dados do desemprego de licenciados registado no Instituto de Emprego e Formação Profissional, é possível que Portugal esteja em divergência com a UE no que toca à estratégia de capital humano qualificado.

Com efeito, a maior parte dos desempregados com formação superior registados no IEFP detêm cursos nas áreas de administração e gestão, direito e ciências sociais e humanas e, segundo os dados do Anuário Mundial de Competitividade de 2002 do Institute for Management Development (www.imd.ch/), uma prestigiada escola de gestão suíça, Portugal sofre uma «fuga de cérebros, não conseguindo reter os profissionais altamente qualificados que forma e educa.

Todavia, a procura por formação superior em Portugal está nos 18%, próxima da média europeia, que se situa nos 20%. Um indicador provável de que os jovens portugueses escolhem cursos sem colocação no mercado de trabalho, mas praticamente no mesmo grau de procura dos seus parceiros europeus. Ou seja, em termos proporcionais, Portugal forma tantos licenciados como os outros países da UE, mas nas áreas de conhecimento sem emprego. De facto, recentemente vários estudos e especialistas têm indicado a má qualidade do ensino da matemática, da física e da química no ensino primário e secundário como razão para este comportamento dos jovens face à escolha do curso.

Apesar da aposta europeia na ciência e tecnologia, a verdade é que, em comparação com os EUA, o investimento no capital humano é muito menor. Segundo o estudo do Parthenon Group, enquanto a média de despesa por estudante na UE é de 8,743 euros, este valor nos Estados Unidos é mais do dobro, perto dos 18,000 euros. Portanto, a Europa ainda tem um longo caminho pela frente para alcançar o vizinho do outro lado do Atlântico.

Kosmo Kariallekos define algumas linhas de acção para os governos europeus aumentarem a capacidade de oferta e a qualidade de ensino do sistema de educativo. «Tem que existir uma combinação entre um aumento dos níveis de exigência tanto no ensino primário e secundário, como no superior, para que a qualidade da formação dos alunos aumente da base para o topo», explica.

Neste plano, aquele especialista defende para o aumento da eficiência e qualidade do ensino primário e secundário - com base em exemplos de países como o Reino Unido, a França e a Alemanha -, a introdução de exames nacionais aos sete, 11, 14 e 17 anos de idade, quatro testes por período na escola secundária, grupos de apoio para os alunos nas disciplinas com maior grau de insucesso, «outsourcing» da gestão escolar a empresas privadas e acesso a fundos especiais para escolas situadas em zonas desfavorecidas.

Para o ensino superior, Kosmo Kariallekos aponta a introdução das propinas para financiar a contratação de pessoal e aumentar a capacidade das universidades, a aposta no sistema privado mas assente em mecanismos que assegurem a sua qualidade, e a criação de universidades virtuais, já que estas podem absorver parte da procura adicional sem necessidade de espaço físico. «Só que esta alternativa tem algumas dificuldades de monta: O custo de criação de um projecto deste género é elevado e ainda não há tecnologia e conteúdos disponíveis em grande escala», contrapõe.

Para contornar estes obstáculos, aquele consultor sugere a criação de soluções de formação superior «online» direccionadas ao segmento dos executivos e altos quadros e a constituição de alianças entre várias universidades para partilharem recursos, receitas e custos entre si. «A parceria entre as universidades de Oxford, Yale e Stanford para criar uma universidade virtual é um bom exemplo neste campo», remata.

«e-learning» e educação global
As tecnologias ao serviço da educação e formação e as universidades globais foram os pratos fortes da terceira edição do Mercado Mundial de educação (World Education Market - Wem) que se realizou em Lisboa na semana passada, organizada pelo Reed Midem. Além de pequenas empresas especializadas em «softwares» e soluções de «e-learning» específicas, este evento ficou marcado não só pela entrada em grande força de gigantes como a IBM e a Hewllet Packard no mercado de formação «online», como também pela ofensiva da Alemanha no mercado global de educação - com um consórcio formado por 99 universidades - e do surgimento de uma universidade privada localizada em várias nações, a Sylvan Learning Systems, que detém estabelecimentos de ensino superior em França, Espanha, EUA e em alguns países da América do Sul. Tanto no consórcio universitário alemão como na universidade Sylvan, é possível ao aluno realizar a licenciatura em diferentes universidades ou países.
De novo em Portugal
Segundo os dados fornecidos por Elaine Legault, a presidente da organização do Wem, estiveram presentes 370 entidades de vários sectores do mercado educativo, sendo 50% da Europa, 20% do continente americano, 12% da Ásia e 7% de África e resto do mundo. Em relação ao ano passado, o número de países representados aumentou de 62 para 71 e houve um aumento de 15% de participantes, tendo o número este ano alcançado perto de 2000 pessoas. Face aos bons resultados obtidos, Elaine Legault avançou que a quarta edição do Wem irá realizar-se novamente em Portugal no ano que vem, de 20 a 23 de Maio. «O nosso objectivo é 'evangelizar' o mercado e aumentar a participação dos países do Sul da Europa, do Mediterrâneo e no Norte de África. Achamos Portugal o país indicado para esta estratégia e os resultados confirmam-no. E para o ano o Wem irá ser maior em dimensão e qualidade. O objectivo é que este evento se afirme como uma plataforma de contacto entre as entidades públicas e privadas no meio educativo», remata.
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