Relatórios da UNICE sobre inovação e competitividade

Europa sem «gazelas» e imaginação

Dois relatórios de benchmarking elaborados pela União das Confederações
da Indústria e Empregadores da Europa (UNICE) atestam o fosso da inovação
e do empreendorismo que separam a Europa dos EUA, com diferenças visíveis na criação de empregos, de empresas, de novos produtos e serviços em ambos os espaços económicos. Se a UE pretende ultrapassar os Estados Unidos
em termos de competitividade numa década, então as desculpas para os adiamentos de reformas inevitáveis vão ter que acabar. Caso contrário, os retratos que se seguem continuarão a ser os mesmos daqui a dez anos.

Análise de Ruben Eiras

Versão adaptada do Expresso

 Propostas para inovar e empreender 

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Empreendorismo na Europa

Numa economia de negócios a alta velocidade, só as empresas de rápido crescimento - as «gazelas» - é que sobrevivem e criam mais postos de trabalho. Os Estados Unidos são o espelho desta realidade: embora as «gazelas» constituam apenas 4% do tecido empresarial americano, foram responsáveis por 80% do crescimento do emprego (seis milhões de postos de trabalho) entre 1991 e 1995.

Outro facto que vem reforçar a necessidade do aumento da criação deste tipo de empresas no Velho Continente é que, no período de 1991 a 1997, as «gazelas» europeias aumentaram o emprego a um ritmo de 20% por ano. Todavia, o número de «gazelas», tido como uma percentagem da totalidade das Pequenas e Médias Empresas (PME), é significativamente menor nos países líderes da União Europeia (UE) face aos EUA. Apenas 4% das PME europeias são «gazelas», em comparação com os 19% do outro lado do Atlântico. Portanto, os europeus têm um longo caminho a percorrer no desenvolvimento do seu espírito empresarial, como mostram outros números do relatório de benchmarking «Promover o empreendorismo na Europa», da UNICE.

De facto, o espírito empreendedor do Velho Continente ainda não abraçou por completo o sector «hi-tech». Neste plano, apenas 10% do valor acrescentado da produção total da UE provém desta indústria, contra mais de 16% nos Estados Unidos e perto de 15% no Japão. Aliás, em comparação com os EUA, a Europa tem três vezes menos pessoas empregadas no sector da biotecnologia. A excepção europeia é a Irlanda, que regista uns impressionantes 46,5% de valor acrescentado da produção total proveniente do sector «hi-tech». Por outro lado, o sector das tecnologias de informação e comunicação (TIC) americano representa mais de 6% do PIB. Além disso, este também é líder mundial, dado que cerca de 18 das 20 maiores firmas de software são dominadas pelos EUA. Por sua vez, na Europa, o sector das TIC conta menos de 4% para o PIB da UE.

A Europa também investe menos em I&D Empresarial - um dos motores da criação de novos produtos, serviços e empregos - do que os EUA. Enquanto que os americanos gastam cerca de 456 Euros per capita, a UE fica-se pelos 175, ou seja, apenas 40% do valor americano.

O ambiente para o empreendorismo no Velho Continente também não é dos melhores. Além do maior peso dos impostos e da menor quantidade de incentivos fiscais, a aplicação e o acesso ao capital de risco também têm que ser substancialmente melhorados. O capital de risco americano investe o dobro da proporção dos seus fundos nas empresas «hi-tech» em comparação com a Europa e três vezes mais na fase de «arranque» do ciclo de vida empresarial, isto é, as «start-up's».

E na força de trabalho, as clivagens entre os dois blocos económicos ainda são mais gritantes. Apesar dos custos salariais na UE serem 15% menores do que nos Estados Unidos, os custos salariais não relacionados com o trabalho - como, por exemplo, as contribuições para a segurança social - são 70% mais altos, o que perfaz com que a totalidade dos custos laborais por hora na Europa sejam 10% maiores do que nos EUA.

Na produtividade, a mão-de-obra europeia também fica atrás da americana, com 10% a menos, apesar dos altos índices registados em países como a Holanda e a Finlândia. No que diz respeito ao número de investigadores a trabalhar em empresas, um factor crítico de sucesso para a competitividade das PME, mais uma vez se repete a classificação. Além de possuir menos graduados em ciências, só 23 investigadores por cada 10 mil trabalhadores é que desempenha actividade no sector empresarial (menos 60% do que nos EUA). Portugal aparece no penúltimo lugar da tabela, com dois investigadores por cada 10 mil, ultrapassando a solitária Turquia.

As competências de gestão são outro ponto crucial para a actividade empresarial. Quando começam os seus negócios, os empreendedores necessitam deste tipo de conhecimentos, especialmente na crítica fase de expansão, a segunda do ciclo de vida das empresas. E aqui é que a Europa bate mesmo no fundo. Enquanto que nos EUA 94 mil quadros frequentam MBA's e muitos destes graduados criam os seus próprios negócios, no Velho Continente apenas 25 mil voltam à escola para aperfeiçoarem as suas competências. No entanto, quando se compara o número de disciplinas relacionadas com o empreendorismo existentes na estrutura curricular dos cursos, a diferença, é no mínimo, abismal: 350 nos Estados Unidos contra 25 na Europa. Como é que a UE poderá ultrapassar o bloco económico americano no espaço de uma década e criar mais empregos, quando o sistema educativo permanece desligado do mundo empresarial, e não educa para o empreendorismo?

Inovação à Europeia

Os europeus são pouco inovadores. Em comparação com os americanos, o seu instinto competitivo é menor e a dificuldade em lidar com a incerteza maior, como também a aversão ao risco. De facto, enquanto que 8% da população adulta americana esteve envolvida na criação de um negócio (start-up) em 1999, somente 2,5% da europeia desenvolveu uma actividade semelhante.

Esta é uma das conclusões do relatório de «benchmarking» elaborado pela (UNICE), «Estimular a criatividade e a inovação na Europa». E o resultado da esclerose da inovação europeia reflecte-se na criação de postos de trabalho. De 1970 até ao presente ano, a taxa de emprego - o nível de participação da população em actividades produtivas - europeia baixou de 65% para 60%. Contudo, no mesmo período, a percentagem de americanos a trabalhar aumentou de 62% para 74%.

Inovar na Europa não é fácil. Segundo os dados daquele relatório, o registo de uma patente na Europa custar seis vezes mais do que nos EUA e dos encargos da sua renovação (para um período de 20 anos) serem 15 vezes maiores na UE, o que levanta sérias dificuldades financeiras às PME, a espinha dorsal do tecido empresarial do Velho Continente. O resultado está à vista: o número de patentes registadas na Europa representa apenas um terço das japonesas e cerca de metade dos Estados Unidos.

Por outro lado, a actual legislação sobre a falência estigmatiza o fracasso e cria barreiras desnecessárias à saída, devido à lentidão burocrática do processo. A rigidez da legislação laboral é outro obstáculo à inovação, dado que esta muitas vezes requer mudanças profundas na empresa, como, por exemplo, o despedimento dos empregados que detêm competências ultrapassadas e que não são passíveis de reconversão profissional. Além disso, as restrições da legislativas em relação ao trabalho temporário e aos despedimentos tornam mais lento o processo de procura de um novo emprego. Assim, a renovação das competências da organização torna-se difícil. Neste plano, de acordo com o relatório, Portugal possui a lei do trabalho mais protectora da União Europeia.

A colaboração entre as universidades, os institutos de investigação e as empresas para a comercialização de novas ideias e produtos é outro espinho atravessado na inovação europeia. Em muitos países da Europa, existem regulamentos que dificultam a exploração de inovações financiadas pelo Estado. Por outro lado, a título de exemplo, as universidades em Portugal têm sérias dificuldades em entrar no capital de uma empresa e receber a compensação em forma de crescimento do seu capital. Em contraste, nos EUA não existem barreiras de qualquer espécie nesta matéria.

Investigadores a menos

A agravar este panorama, a aposta das empresas europeias na inovação é menor do que as suas concorrentes do outro lado do Atlântico - mais de 10% do total de vendas de 26% das empresas americanas é proveniente de novos produtos, enquanto que este valor corresponde a 21% do tecido empresarial europeu.

De facto, o investimento das empresas europeias em Investigação&Desenvolvimento (I&D) nem chega a metade do nível dos EUA (40%). E no que diz respeito ao número de investigadores a trabalhar em empresas, a clivagem ainda é mais acentuada.

A Europa emprega menos de 50% dos seus investigadores no sector empresarial, em comparação com os 80% dos Estados Unidos e 65% do Japão. Com efeito, na UE apenas existem 25 investigadores a desenvolverem actividade no meio empresarial por cada 10 mil pessoas da força de trabalho, em comparação com os cerca de 60 no Japão e nos Estados Unidos. Por sua vez, Portugal possui somente dois.

As razões advogadas no estudo para este marasmo da I&D nas empresas europeias são a falta de incentivos para os inovadores e os obstáculos do ambiente empresarial. Entre ambos, são mencionados os altos impostos, a menor quantidade de cientistas e investigadores, o sistema de patentes pouco competitivo e a menor disponibilidade de capital de risco.

Poucas competências

Paralelamente, para inovar é fundamental uma força de trabalho altamente qualificada e educada. E aqui a Europa também perde em relação aos EUA. Na UE, cerca de 22% da população entre os 25 e os 64 anos possui um grau de formação superior. Do outro lado do Atlântico, este número eleva-se para os 35%. Nesta classificação, Portugal apresenta os valores mais baixos dos países incluídos no estudo, com cerca de 9,2%. E a mesma posição repete-se no que diz respeito ao sucesso escolar em matemática e ciências.

As competências de gestão também apresentam valores consideravelmente baixos na EU: enquanto os EUA produzem 100.000 MBA por ano, a Europa apenas produz um quarto desse valor, ou seja, 25.000. Sendo assim, a União Europeia também falhou no desenvolvimento rápido de sectores de serviços que utilizam competências de alto nível, como as finanças, os seguros, a consultoria, a mediação imobiliária e serviços de comunicação. Nos EUA, metade do sector dos serviços está assente em competências de alto nível, enquanto que na UE este valor apenas ascende a 38%.

Em suma, a Europa parece estar velha, cansada e sem imaginação. «Enquanto os europeus continuarem a responder aos novos problemas com as soluções do passado, a inovação permanecerá apenas como mais uma palavra emblemática do discurso político europeu, do que uma acção concreta», remata George Jacobs, presidente da UNICE.

Propostas para inovar e empreender
  • Introduzir uma nova legislação da falência até 2002
  • Mudar as atitudes dos europeus face à inovação e ao risco para o mesmo nível dos americanos até 2005
  • Remover os obstáculos de colaboração entre as universidades e as empresas até 2004
  • Reduzir a lacuna de competências em TI em 5% até 2005 e eliminá-la até 2010
  • Melhorar a educação em matemática, ciência, tecnologia e gestão
  • Reduzir o fardo fiscal das empresas e dos investidores
  • Flexibilizar a legislação laboral e dignificar as novas formas de trabalho (trabalho temporário, teletrabalho, trabalho a tempo parcial)
  • Aumentar os contactos das empresas com escolas locais e universidades
  • Aumentar o investimento de recursos na inovação em sectores de crescimento rápido baseados no conhecimento e na melhoria contínua de produtos tradicionais
  • Desenvolver até 2002 planos de suporte a fundos de capital de risco para reduzir os custos das estruturas de investigação em novas empresas
  • Actualizar continuamente os sistemas de inovação por adoptar «boas práticas» globais e as infra-estruturas de TI das empresas

  • Fonte: UNICE

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