«Desliguem-se de vez em quando,
façam uma pausa!»

Eis o que Gil Gordon, perito internacional em teletrabalho, recomenda à fauna dos «teleólicos» (uma nova espécie de «workaholics», viciados furiosos no trabalho, gerados pelo digital) numa entrevista a Jorge Nascimento Rodrigues. Faz uma sugestão aos políticos e responsáveis da economia para que se generalizem «off shores» locais nas regiões que sofrem da interioridade
e periferização em relação aos centros metropolitanos

Uma iniciativa Janela na Web com versão adaptada para o semanário Expresso/Economia

 O artigo de apresentação de Gordon no semanário Expresso 
aquando da sua vinda ao seminário no Porto
O site de Gil Gordon | A sugestão sobre «off shores» locais

Já não é uma coisa do outro mundo quando se fala do teletrabalho. Nalguns meios até é fino incluir o tema no discurso ou na conversa. «Mas continua a haver mais gente a investigar o assunto e a escrever sobre ele do que teletrabalhadores de verdade», diz por piada Gil Gordon que esteve, recentemente, pela primeira vez em Portugal, para falar a um público de mulheres empresárias e quadros sobre uma solução flexível de trabalho que ele não quer que «seja sinónimo de complemento para a fada do lar».

Gordon, considerado um dos especialistas internacionais no tema, ironizou ainda um pouco mais sobre o teletrabalho. «Há dois fantasmas que ensombram o dito. Uns porque resistem até ao último fôlego - os gestores intermédios da minha geração que foram educados no comando e controlo, e que eu não acredito que mudem. Outros porque se tornam viciados furiosos - e nunca conseguem 'desligar'», sublinhou, com o ar mais sério do mundo, quase no final de um seminário organizado no Porto pela Associação Nacional de Empresárias.

Confidenciou-nos que o seu próximo livro com o título sugestivo de Turn it off (Desliga) vai abordar precisamente esta última espécie de alcoolizados pelo trabalho gerados pela expansão do digital. «Façam um pausa de vez em quando!», aconselhou, como uma das melhores terapias para a boa produtividade do trabalho nesta galáxia digital (telemóveis, portáteis de mão, «assistentes digitais», etc.) em que começamos a viver submergidos em qualquer local e a qualquer hora.

Aliás, o guru do teletrabalho aproveitou a vinda ao Porto para fazer uma pausa de verdade e saborear um desejo antigo. Depois de uma ligeira preparação prévia «com apoio da Web», Gil Gordon dedicou uma manhã por uma ronda pelas caves em Gaia de onde trouxe três garrafas de Vinho do Porto, uma das quais já encetou à chegada a casa na América - e garante que é o melhor tónico para pausas. Numa pausa de toda esta azáfama nortenha, concedeu-nos esta entrevista.

Gil Gordon Gil Gordon (na foto), hoje com 50 anos, esteve quase 10 anos nos Recursos Humanos da Johnson & Johnson até que se integrou no movimento em prol do teletrabalho liderado por Jack Nilles na Califórnia. Desde 1982 que Gil trabalha a partir de casa, onde - insiste em sublinhar - «é geralmente responsável pelas tarefas de casa». Alimenta desde 1995 um «site» na Web em www.gilgordon.com e publica uma «newsletter» desde 1984 (hoje enviada por correio electrónico) que é referência no sector e que pode ser assinada gratuitamente a partir do «site».

Afirmou peremptório que é uma má desculpa ainda hoje haver gestores que alegam que há problemas tecnológicos para implementar o teletrabalho.
Afinal qual é o principal muro a derrubar?

GIL GORDON - Não há problemas tecnológicos de facto. O teletrabalho não começou sequer com o computador pessoal nem muito menos com a massificação da Internet. Já nos anos 60 e 70 se fazia, ainda que de outro modo, sem esses meios. O real problema são os gestores da minha geração - com a minha idade, 50, ou próximo. Eles são o principal obstáculo em termos individuais.

Mas essa gente é irrecuperável? Essa sua cruzada contra os cinquentões gerou algum mal estar entre a assistência masculina neste seminário a que veio aqui no Porto...

G.G. - O problema é que foram educados no paradigma da sensação de poder em controlar visualmente e não pelo cumprimento de objectivos. Habituaram-se a essa cultura durante 15 ou 20 anos. Pensam assim. Têm grande dificuldade em mudar de paradigma. Sem que eles se vão embora dos postos de gestão, não há hipótese de generalizar o teletrabalho. Não penso que essa geração alguma vez se convença do contrário.

Mas os gestores chegam a abarcar várias «camadas» dentro das empresas. Qual é o seu alvo?

G.G. - Todo o tipo de intermédios. Os gestores do topo como têm uma visão de conjunto e se sentem mais pressionados pelas realidades dos números - custos, concorrência, rotação de bons quadros, e outras coisas que provocam «dor» na competitividade da empresa - são mais abertos. A gente do «meio» é, por vezes, muito conservadora.

Se calhar alguns evangelizadores «vendem» o teletrabalho de um modo exagerado, não acha?

G.G. - Acho que a questão essencial é perceber que o teletrabalho é uma solução empresarial para um problema empresarial. Não é romance, nem pode ser pintado como tal. Nos anos 80, de facto, exagerou-se muito pintando o teletrabalho com uma só cor, com uma só variante. Levou-se demasiado à letra o «slogan» de trazer o trabalho a casa em vez de levar o trabalhador ao local de emprego. A palavra certa é diversidade. Haverá múltiplas soluções. Nem todos os que teletrabalham à segunda serão os mesmos que o fazem à terça-feira. Nem toda a gente está apta a teletrabalhar. Nem todas as casas são adequadas para teletrabalho.

Aquela imagem do escritório do futuro completamente às moscas e com toda a gente na praia de calções com o portátil entre os joelhos é mesmo para cultivar ou são apenas piadas para capas de revista?

G.G. - Talvez eu seja demasiado conservador (risos), mas acho que os escritórios serão necessários, mesmo no futuro. O escritório vazio é mais do reino do «cartoon». O que é correcto fazer-se é descentralizar o escritório. Usar uma variedade de sítios, de acordo com as circunstâncias. Na Europa fala-se de Centros de Teletrabalho - como este aqui de mulheres no Porto. A palavra chave é flexibilidade de soluções de um ponto de vista do negócio. Além disso, as pessoas precisam de se encontrar. Nunca defendi o teletrabalho a 100%.

CINCO RECOMENDAÇÕES
  • A maior resistência são os gestores intermédios da geração dos 50 anos. Veja-se livre da resistência deles
  • Teletrabalho não é trazer o trabalho a casa, mas deixar que o trabalho se faça nos locais mais adequados, dependendo das pessoas e das circunstâncias
  • Teletrabalho é sinónimo de flexibilidade de soluções, não de uma receita única meio romântica
  • O Escritório é para descentralizar, não para liquidar
  • A introdução do teletrabalho não é para ser feita por alguns isolados vanguardistas, mas tem de ter alguma massa crítica dentro da empresa
  • Uma das questões que provoca alguma hesitação é a de como começar. Podemos sugerir a alguns voluntários isolados que dêem um exemplo de vanguarda?

    C.G. - Não creio que isso resulte. Programas com isolados e com muito pouca gente não resultam. Acabam por exigir o mesmo esforço do que se fossem com muita gente e os resultados são pobres. Numa empresa média ou grande creio que a massa crítica mínima anda à volta de 10 a 25 pessoas envolvidas na fase pioneira. Se tivermos uma amostra muito pequena, se falhar ou se tiver sucesso nunca sabemos porquê.

    Mas isso é um programa só para multinacionais e grandes empresas que se podem dar ao luxo de o ter ou as pequenas empresas também têm vantagens em ter gente em teletrabalho?

    G.G. - O número crítico de que falo é relativo. O meu ponto de vista nas pequenas empresas é que o teletrabalho é tão solução empresarial como nas grandes. Em termos relativos, numa PME de 20 pessoas, provavelmente 3 ou 4 é o ideal para começar.

    Fala-se de um grande fosso entre os Estados Unidos e a Europa, mas você veio aqui falar-nos de que há uma Europa a duas (ou mais) velocidades nesta matéria...

    C.G. - De facto. Eu comecei a dar-me conta disso quando verifiquei que grande parte do tráfego no meu «site» na Web vem dos países nórdicos. Segundo dados comunitários, países como a Dinamarca, a Holanda, a Finlândia e a Suécia têm entre 6 a 10% da população activa num regime qualquer de teletrabalho. A Irlanda também está próxima. É claro que em toda a Europa comunitária haverá ainda hoje ½ do número de teletrabalhadores que há nos Estados Unidos. O vosso país, apesar de andar por uma percentagem de 1,3% da população activa num regime deste tipo - talvez umas 60 mil pessoas que o praticam de alguma forma durante uma parte do seu tempo - espantou-me por ter mais, em termos relativos, do que a França ou a vossa vizinha Espanha!

    OS NÚMEROS NA EUROPA
     (% na população activa) 
    Pelotão da frente
    Dinamarca: 9,7
    Holanda: 9,1
    Reino Unido: 7,0
    Finlândia: 6,3
    Irlanda: 6,1
    Suécia: 5,4
    Bélgica: 5,3
    Corredores do meio
    Alemanha: 1,9
    Áustria: 1,5
    Portugal: 1,3
    Itália: 1,2
    França: 1,1
    Carro-vassoura
    Espanha: 0,6
    Grécia: 0,5

    Para fechar, quer revelar o tema do seu próximo livro?

    G.G. - Terá um título curioso - Turn it off (Desligue). É um pouco provocatório, no sentido de que reclama que as pessoas têm de controlar o excesso de trabalho nas condições actuais permitidas pela tecnologia. Têm de dizer «alto!» ao princípio do estar operacional em qualquer altura e em qualquer lugar. As ferramentas de tecnologia actuais estão a criar um fosso - crescente - entre o vício do trabalho (constante) e o resto da vida. Não sou «anti-tech», mas quando vejo as pessoas em férias, e por todo o lado, com os telemóveis e os computadores portáteis, ou os de mão, fico arrepiado. Eu pessoalmente, «desligo-me» duas a três vezes por ano. Vou para as montanhas, andar de bicicleta e tirar fotos - tenho mesmo uma zona no meu «site» na Web sobre isso. Façam uma pausa!

    «Off-shores» Locais
    «Começámos a assistir ultimamente nos Estados Unidos a movimentos de deslocalização de novo tipo para outros Estados da Federação, contrabalançando um pouco as deslocalizações para fora de portas, como aconteceu nos tempos de Reagan com a Iniciativa Caraíbas, ou tradicionalmente com as 'maquilladoras' para o México, ou em certas áreas mais especializadas com a subcontratação à distância para Bangalore (Índia) ou a Irlanda», refere Gil Gordon.
    Ele vê nesse «sinal» a possibilidade de fomentar a criação de emprego local em zonas de maior interioridade e grau de periferização em relação às áreas metropolitanas do seu país. «Coisas desse género são hoje possíveis com as novas tecnologias, desde que haja recursos humanos aí disponíveis ou formas de os atrair e fixar», salienta o especialista, acrescentando que mecanismos locais de «off shore» para empresas e pessoas poderão tornar-se comuns.
    Com base nesta tendência norte-americana, Gordon chama a atenção para a necessidade de corrigir as velhas concepções de desenvolvimento industrial em regiões rurais. «Criar emprego no mundo rural não é transferir gente da agricultura para a indústria, isso só por piada hoje em dia. É preciso criar novos mecanismos de trabalho e de criação de empresas, diversificar e modernizar o tecido empresarial e os quadros de emprego», advoga o nosso interlocutor.
    Página Anterior
    Canal Temático
    Topo da Página
    Página Principal