Teletrabalho em crise
nos Estados Unidos da América

Análise de Fernanda Pedro

Versão adaptada do Expresso

Gurus do Teletrabalho em confronto | Ler mais sobre teletrabalho

Apesar do teletrabalho estar em crescimento em todo o mundo, os Estados Unidos da América (EUA) vêem-se agora confrontados com o retrocesso
de algumas empresas norte-americanas em relação à oferta de emprego
a teletrabalhadores. Esta foi a conclusão a que chegou o Wall Street Journal depois de um inquérito realizado a grandes empresas nos EUA
e a alguns teletrabalhadores.

Ideias-chave
  • No ano passado, 24 milhões de americanos teletrabalharam. No entanto, muitos teletrabalhadores queixam-se de discriminação laboral
  • As razões apontadas para tal fenómeno são o isolamento social dos teletrabalhadores e a falta de comunicação com o ambiente de trabalho da empresa
  • Os telecentros poderão afirmar-se como a solução de compromisso, dado que asseguram a intercação socila do teletrabalhador
  • 1. Segundo um estudo protagonizado por Jack Niles, para o International Telework Association and Council em Washington, estima-se que em 2000, 24 milhões de americanos utilizem regularmente ou ocasionalmente o teletrabalho. Contudo, a pesquisa do Wall Street Journal revela que apesar de muitas empresas promoverem o teletrabalho, muitos teletrabalhadores queixam-se que não conseguem trabalho.

    2. Os ressentimentos do teletrabalho: De acordo com Tom Ferrara, presidente da www.careerengine.com, alguns empresários acreditam que o teletrabalho causa ressentimentos entre os trabalhadores das empresas e outros, que os teletrabalhadores por não estarem presentes no escritório, ficam afastados do espírito da equipa e não comunicam com os colegas. Ainda para aquele responsável, os empresários escondem os sentimentos negativos que têm em relação ao teletrabalho. Reforça mesmo o facto, ao dizer que as empresas alegam a agressividade que o teletrabalhador fica sujeito quando trabalha em casa e que poderá inclusive prejudicar a família por serem os elementos que lhes estão mais próximos.
    O vice presidente da Fort Point Partners, uma empresa de serviços na Internet, refere mesmo que «precisamos de pessoas que trabalhem lado a lado no escritório, a partilharem ideias». Um exemplo disso, é Dawn Silvia de 28 anos, foi consultora numa agência de Relações Públicas virtual, em Boston, e explica que o teletrabalho está de facto em recessão, pois tem tido muito dificuldade em conseguir um emprego como teletrabalhadora. Quando a chamam para um lugar ficam admirados com as suas habilitações e mostram-se interessados no seu trabalho, contudo não querem que ela trabalhe em casa, todos lhe dizem a mesma coisa: «Nós queremo-la aqui, mas numa secretária onde a poderemos observar e verificar se está a fazer o seu trabalho».
    Steve Manes, de 50 anos, é um especialista em software e trabalha na Grey Global Group. Steve trabalhava alguns dias da semana em casa, onde tem equipamentos mais eficientes. Mas há alguns meses atrás, começou a ouvir rumores dentro da empresa que a sua atitude não era bem vista pelos seus superiores. Depois de lhe ter sido anunciado que se ele continuasse a trabalhar naquelas condições seria despedido, Steve teve mesmo que passar a trabalhar no escritório todo os dias da semana.
    Ray Mary, presidente da Spherion Corporation, uma empresa de consultoria em recursos humanos, explica que anteriormente a empresa apostava no teletrabalho. Agora, permite que os funcionários trabalhem em casa só até seis meses e depois têm de estar no escritório durante o período de um ano até voltarem novamente a trabalharem a partir de casa. Tricia Chamberlain, de 29 anos e gerente da Spherion, é teletrabalhadora durante os seis meses autorizados. Mas por esse motivo, perdeu a oportunidade de se tornar directora executiva da empresa, tudo porque não estava presente no escritório, impossibilitando-a de tomar decisões.
    Burke Stinson, da AT&T Corporation, estimou que na quarta parte das companhias americanas, 80.000 dos gerentes trabalham em casa pelo menos um dia por semana, mas este número não cresceu nos últimos anos, nem irá crescer nos próximos.

    3. A possível solução dos telecentros: Numa altura em que o teletrabalho está a crescer em Portugal, que medidas tomar para que as empresas portuguesas não ponham os mesmos entraves que os empresários americanos, aos potenciais teletrabalhadores? Teresa Antunes, empresária e responsável pelo primeiro telecentro "on-line" em Portugal, revela que «os espaços telecentro, são soluções integradas com sistemas de multiserviços pluridisciplinares para negócios do futuro. São uma alternativa para combater as dificuldades apresentadas pelos empresários norte-americanos». Ainda para a responsável, o objectivo é atribuir uma nova dimensão à organização do espaço, integrando novas formas de trabalho que se suportará nas novas tecnologias da informação e da comunicação.
    Para Teresa Antunes, «o teletrabalhador não terá que deslocar-se para a Empresa durante um determinado período, mas sim para um espaço telecentro perto da sua área residencial», acrescentando ainda que, «é importante para o desenvolvimento do teletrabalho em Portugal podermos avaliar os erros cometidos noutros países». Assim, aquela responsável reforça a sua posição no sentido de serem desenvolvidos no nosso país projectos com uma estrutura diferente e inovadora não submetendo os teletrabalhadores a um isolamento que só alguns terão perfil psicológico para o combater. «Infelizmente em Portugal há uma grande tendência para copiar tudo o que vem dos EUA como exemplo a seguir, julgo que é tempo dos empresários começarem a acreditar em projectos internos de grande valor, criatividade e inovação», salienta a empresária.
    A Interwork, uma empresa portuguesa responsável pelo projecto espaços telecentro, dentro das suas competências de consultoria e assessoria na área do teletrabalho, desenvolveu um estudo sobre os "prós e os contras" do teletrabalhador domiciliários, o qual originou um projecto no sentido de tentar encontrar soluções para estas questões pertinentes, num país como os EUA onde cerca de 10% da população trabalha em regime de teletrabalho. Os espaços telecentro apresentaram-se como uma das alternativas, apesar do trabalho domiciliário se adaptar perfeitamente a um perfil específico de teletrabalhadores. A solução é direccionar os teletrabalhadores de acordo com o seu perfil, teletrabalho domiciliário para quem tenha perfil para ultrapassar as dificuldades inerentes a um trabalho isolado, os espaços telecentro para utilizadores que necessitem de um ambiente de escritórios e conviver com outros utilizadores. Outra das alternativas, é a utilização parcial de ambas as situações considerando a deslocação para a empresa uma vez por semana, para que o teletrabalho passe a ser encarado como uma nova forma de trabalhar funcional, rentável e adaptável ao perfil de cada teletrabalhador.

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