Luc Soete, consultor da Comissão Europeia

«Europa quer mais emprego só para obter
maiores receitas fiscais»

Embora em fase de expansão económica e a recuperar lentamente a criação de postos de trabalho, há quem defenda que o objectivo da Europa
em alcançar uma taxa de emprego de 70% é uma estratégia para tapar o sol com a peneira e que põe em risco a coesão social europeia. Essa voz crítica
é Luc Soete, consultor da Comissão Europeia para as questões do emprego
e membro integrante da equipa de Maria João Rodrigues, consultora especial do Primeiro Ministro, que tomou as rédeas da organização da Presidência Portuguesa da União Europeia (UE). Ruben Eiras foi indagar a Luc Soete
as razões que fundamentam a sua opinião contra-corrente ao discurso dominante no seio da política comum europeia.

Luc Soete com Ruben Eiras

Versão adaptada do Expresso

Empregos "start-up" | Perfil | O site do Merit

Luc Soete Por que é que defende que o objectivo europeu da taxa de emprego de 70% é puramente inspirado por razões fiscais?

LUC SOETE - Este conceito está relacionado com o facto de se mais pessoas trabalharem, mais rendimento obtêm e assim contribuem com o pagamento de mais impostos e encargos sociais. Desta forma,ao aumentar a taxa de emprego, viabiliza-se o sistema de sistema de segurança social europeu, porque há mais pessoas a contribuir. Portanto, o objectivo principal não é melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas sim unicamente evitar o colapso do sistema.

Mas não é esse um objectivo louvável?

L.S. - Parcialmente, porque é redutor dos reais problemas que afectam a sociedade europeia, que vão além da simples criação de emprego.

Todavia, o trabalho é a fonte principal de rendimento para as famílias satisfazerem as suas necessidades básicas de sobrevivência...

L.S. - A sociedade não deverá ter como alvo o máximo de pessoas a trabalhar. Trabalhamos para ter um rendimento para viver, interagir com as pessoas e satisfazer as nossas necessidades básicas. Ao pressionar toda a gente a trabalhar, isso esmaga a organização do tempo nas famílias. Isto faz com que o trabalho seja um fim em si mesmo, o que não é correcto, sendo apenas um meio para atingir os nossos fins. Há um enfoque excessivo da política de emprego europeia na integração da pessoa no mercado de trabalho, em detrimento da integração social do indivíduo, que é o cimento da sociedade.

O valor do não-trabalho

Outro dos seus cavalos-de-batalha é a valorização económica do não-trabalho. Podia explicar este conceito?

L.S. - Cuidar dos pais, dos avós, do filho, exercer voluntariado, todas estas actividades não são valorizadas. Se toda a gente trabalhar a maior parte do tempo, não há coesão social e sociedade desmorona-se. Estas actividades também fazem parte do capital humano duma sociedade. Uma pessoa poderá preferir ficar em casa e cuidar do pai que está a morrer ou simplesmente estar com os filhos. Nós só temos uma vida e um tempo limitado em que a criança cresce, 15 a 20 anos. Depois o papel como pai acabou e a sua influência é muito limitada sobre o filho. Tenho a certeza de que muitos pais gostariam de não trabalhar durante um certo tempo para desempenhar o seu papel com maior dedicação. Mas a nossa sociedade não o permite.

A sua linha de pensamento vai de encontro ao que o sociólogo James Coleman e o filósofo social Francis Fukuyama defendem sobre o valor económico da interacção social.

L.S. - É um facto que além das competências profissionais e do conhecimento, uma dimensão importante do capital humano é a habilidade de uma pessoa interagir e associar-se com outras, factor crítico para a vida económica e existência social. O valor do não-trabalho é que as pessoas interagem socialmente fora do trabalho. Nós só valorizamos o tempo em que trabalhamos, em que alguém paga a nossa produção. Mas desempenhamos tarefas que fazem parte do capital social e que não são contabilizadas economicamente. Perante esta situação, as mulheres são obrigadas a efectuar uma opção drástica: ou tenho filhos ou vou trabalhar. Isto vai fazer que a taxa de natalidade caia ainda mais, pondo em risco a viabilidade do sistema de segurança social europeu.

Então, que medidas advoga para inverter a situação?

L.S. - A sociedade do conhecimento apregoada pela UE deverá contabilizar o factor social - valorização económica das actividades de não-trabalho e activação social das pessoas, especialmente dos desempregados -, em vez de somente focalizar-se no aspecto económico e tecnológico. Há uma ênfase exagerada na tecnologia, que é dominada por uma elite de profissionais. E não se conhece com rigor a situação social daquelas pessoas que enfrentam as maiores dificuldades pelo desaparecimento dos seus postos de trabalho e desactualização das qualificações. Todos estes problemas não se resolvem com uma taxa de 70% de emprego. Como é que alguém recupera qualificações sem interacção social?

Empregos "start-up"
Segundo Luc Soete, a terciarização da economia está a conduzir a uma dualização do mercado de trabalho no sector dos serviços. Por um lado, existem os empregos de alta qualidade, onde as pessoas decidem sobre o seu trabalho e, por outro, há aqueles empregos onde imperam as relações pessoais e sociais - por exemplo, serviço social, serviços domésticos, restauração -, mas os quais não exigem qualificações, nem as pessoas possuem capacidade de decisão sobre o desempenho da sua actividade.
Para atenuar esta clivagem, Luc Soete advoga que se deverá focalizar os aspectos positivos dos trabalhos menos qualificados. «São como empregos 'start-up', em que a pessoa aprende não só a estabelecer relações pessoais e lidar com o cliente, como também entra em contacto com o mercado de trabalho. É muito bom para o capital social e humano. É melhor do que estar desempregado e inactivo», considera.
Todavia, Luc Soete observa que é necessário incutir mais responsabilidade funcional nestes empregos, devido à tendência de envelhecimento demográfico europeu. «Como a nossa população está a envelhecer, é provável que os empregos relacionados com os serviços sociais se tornem mais qualificados, dado que a pessoa terá que desempenhar mais tarefas. Neste momento, já enfrentamos um mercado de trabalho estrangulado nestas funções», refere.
Segundo aquele responsável, o mercado de trabalho europeu sofrerá pressões sobre os serviços sociais dentro do prazo de cinco anos, variando a intensidade deste fenómeno de país para país, conforme o seu ritmo de envelhecimento demográfico.

Perfil
Luc Soete é consultor da Comissão Europeia para as questões do emprego e professor de economia internacional na Faculdade de Economia e Administração de Negócios, da Universidade de Maastricht, na Holanda. Presentemente, é director do MERIT, uma unidade de investigação da Universidade de Maastricht dedicada ao estudo do impacto das novas tecnologias no emprego. Já exerceu docência nas universidades de Antuérpia, de Sussex e de Stanford. Em 1995, foi coordenador do Directorado para a Ciência, Tecnologia e Indústria da OCDE, responsável pelo projecto "Tecnologia, Produtividade e Criação de Emprego", submetido na Cimeira do Emprego do G-7 em Lille, em Abril de 1996. De 1995 a 1997, presidiu o grupo de peritos de alto nível da UE "Aspectos Sociais e Societais da Sociedade da Informação".
Página Anterior
Topo da Página
Canal Temático
Página Principal