PORTUGAL EMPREENDEDOR AO ESPELHO

O lusitano síndroma crónico do falhanço
e o bom exemplo do Brasil

Em termos de empreendedorismo, o país classifica-se em 21º lugar num universo de 29 países analisados em 20001 pelo The Global Entrepreneurship Monitor, um "survey" da London Business School europeia e do Babson College norte-americano que pretende avaliar o pulso do empreendedorismo à escala mundial. Nos indicadores usados, o país posiciona-se sempre abaixo da "média".
Sintoma de uma doença grave, Portugal encontra-se literalmente no último lugar no critério de educação da população em empreendedorismo desde os bancos da escola ao ensino superior. Uma das "forças de bloqueio" já diagnosticada há muito é uma atitude cultural ligada ao medo de falhar, a não arriscar, nem a desenvolver estratégias pessoais independentes.
Sinal dos tempos, o Brasil é apontado como caso a estudar em áreas como o apoio à incubação e aos parques tecnológicos, o ensino da gestão e a transferência eficaz de tecnologia. O nosso "irmão" do Sul está claramente, em matéria de empreendedorismo, noutro campeonato.

Jorge Nascimento Rodrigues

Survey disponível na London Business School
ou pedir GEM Global 2001 por email a Juliet Rawstorne
Sítio do Babson College
Sítio do World Resources for Entrepreneurs -Entreworld
Quadros de síntese do "survey"

O País herdeiro dos Navegantes das Descobertas não é uma nação de empreendedores na abertura do século XXI, por mais retórica em contrário de uma parte da elite cosmopolita lusitana. Menos de 10% da população adulta pode ser classificada como "empreendedora" e o peso cultural da aversão ao risco, do medo social do falhanço e da recusa no desenvolvimento de carreiras pessoais independentes predomina. Estas barreiras culturais são, porventura, a principal "força de bloqueio" ao desenvolvimento de uma sociedade empreendedora, o que contrasta com países menos desenvolvidos como o México (em primeiro lugar neste "ranking" mundial) e o Brasil (em 5º lugar), ou com parceiros europeus como a sempre citada Irlanda (em 6º lugar) e mais recentemente a Hungria (em 8º lugar).

Um contexto social avesso, uma forte inadequação da acção governamental e um malha económica muito condicionada são os escolhos portugueses com que têm de lutar dia-a-dia as excepções à regra, os empreendedores. Uma situação destas não se supera por decreto e exige provavelmente um esforço de mudança de uma geração. Daí que a "mãe" de todas as medidas a tomar seja unanimemente apontada na área da educação - o cultivo de valores de empreendedorismo desde os bancos da escola, ainda que a definição do que é "ensinar" a ser empreendedor requeira alguma clarificação. É chocante que o nosso país se classifique em último lugar nesta questão decisiva entre o universo de 29 países abrangidos pelo mais recente «The Global Entrepreneurship Monitor», o "survey" internacional sobre a tematica do empreendedorismo.

Má figura na fotografia

Estas constatações não são novas, entre nós. O que é novo é o (fraco) grau de empreendedorismo do país poder ser colocado numa fotografia mais alargada, incluindo uma família de 29 países que o «The Global Entrepreneurship Monitor» rastreou no primeiro semestre do ano passado a partir de um inquérito de campo a uma amostra de 2000 pessoas da população adulta de cada país e da audição de um painel de especialistas. O inquérito foi realizado pela Metris em Portugal e foram ouvidas várias dezenas de peritos. Trata-se de uma avaliação - similar às que se fazem na área da competitividade - desenvolvida nos Estados Unidos pelo Babson College em Wellesley, no Massachusets e pelo Kauffman Center for Entrepreneurial Leadership em Kansas City, no Missouri, e pela London Business School, na Europa. Este "survey" internacional foi lançado em 1999 começando por cobrir dez países e no ano passado incluiu, pela primeira vez, Portugal, onde o estudo nacional foi dirigido por Augusto Medina, da Sociedade Portuguesa de Inovação, e João Silveira Lobo, do Instituto Nova Forum.

Portugal situa-se no limite inferior do bloco intermédio de países (ver lista de referência) em que o empreendedorismo varia entre 10% e 7,5% da população adulta, já significativamente distanciado dos líderes, onde encontramos o México e o Brasil. O nosso vizinho espanhol situa-se três posições acima da nossa e merece uma menção honrosa no ensino da gestão.

No caso português, a culpa é acima de tudo da (falta de) educação, alega o relatório, onde estamos na última posição, como já referimos, mas também "da inadequação das políticas governamentais", em que ficamos apenas à frente da Argentina (um país com uma crise social e políticas profunda há alguns anos).

Mas as "forças de bloqueio" são mais vastas. De facto, viajamos no "carro-vassoura" em outros pontos capitais:
- como as dificuldades de acesso a fontes de financiamento das 'start-up' que não sejam os empréstimos bancários ou o dinheiro dos fundadores e famílias;
- o poder dos incumbentes no mercado doméstico, havendo monopólios e oligopólios privados "sancionados pelo Estado", que aumentam as barreiras à entrada no mercado nacional, como o relatório refere explicitamente;
- a fraqueza da legislação anti-trust e de protecção da propriedade intelectual;
- e a debilidade da cadeia de valor a nível de serviços profissionais e de subcontratação.

Recomendações de política

Os resultados do inquérito, e em particular a audição dos peritos ouvidos em Portugal, apontam para duas grandes áreas de intervenção:
- a do ensino, com uma ofensiva no cultivo dos valores do empreendedorismo para vencer o nosso crónico síndroma cultural;
- e a de estabelecer alavancas de financiamento e facilitação da criação e amadurecimento de 'start up'.

Neste último campo, o "survey" aponta três recomendações:
- usar os parques de ciência e tecnologia e as incubadoras como "pontes" privilegiadas entre o capital de risco formal e informal ("business angels") e os projectos de novas empresas;
- a criação de políticas governamentais com discriminação positiva em relação às 'start up' nos seus primeiros anos de vida;
- e a criação de uma agência coordenadora de programas para esta área.

O relatório desaconselha a que se reinvente a roda - é preferível estudar os casos de "boas práticas", como a Alemanha e Singapura no campo de programas governamentais, os Estados Unidos e a Alemanha na transferência eficaz de tecnologia, a França no apoio à incubação, a Finlândia no campo da educação (é destacado o papel dos Politécnicos) e a Espanha e os Estados Unidos no ensino da gestão.

Sinal dos tempos, o Brasil é apontado como caso a estudar em áreas como o apoio à incubação e aos parques tecnológicos, o ensino da gestão e a transferência eficaz de tecnologia. O nosso "irmão" do Sul está claramente, em matéria de empreendedorismo, noutro campeonato.

A nível pessoal, convirá que os empreendedores portugueses tenham a cabeça fria e não cultivem ilusões de facilidade. Como o relatório sublinha, as expectativas colocadas na criação de empresas são muito superiores às barreiras que depois vão ser encontradas na realidade nacional (e a que já nos referimos acima). Também a motivação para empreender é mais forte do que a capacidade sentida, depois, para levar o projecto para a frente, conclui o "survey" sobre o nosso país.

Prioridade das prioridades
«Reformar o sistema Educativo, nomeadamente, os métodos de ensino e os programas curriculares», é a tarefa número um apontada por Augusto Medina, que dirigiu este "survey" em Portugal. De um modo mais concreto, este professor universitário da área da biotecnologia e responsável pela Sociedade Portuguesa de Inovação aponta duas ordens de medidas:
- Os métodos de ensino devem fomentar o pensamento criativo e inovador (características empreendedoras por excelência). Os professores devem reconhecer a importância destes aspectos de modo a serem capazes de os transmitirem aos alunos;
- O número de disciplinas/módulos relacionados com o empreendedorismo deverá aumentar drasticamente, assim como a sua qualidade. Esta medida deveria ser implementada em todos os graus de ensino de modo a influenciar a atitude de professores, alunos e publico em geral.

QUADROS SÍNTESE

PERFIL DO PAÍS
- 7,5% da população adulta é empreendedora (a maioria dos 29 países está acima desta fasquia); Portugal está no limite inferior do bloco intermédio de países entre 7,5 e 10%
- A maioria dos empreendedores tem mais de 35 anos (ao contrário de Espanha e Irlanda), mas numa vantagem ligeira em relação ao escalão dos 18 aos 34
- As expectativas na criação de empresas são superiores às barreiras que depois encontram na realidade (os especialistas ouvidos pelo "survey" são ainda mais pessimistas)
- A motivação para empreender é mais forte do que a capacidade sentida para levar o projecto para a frente
- O financiamento mais comum nas "start ups" é o tradicional por via de capital próprio dos fundadores e empréstimo bancário

PRINCIPAIS "FORÇAS DE BLOQUEIO" AO EMPREENDEDORISMO
1. Apesar do empreendedor ser socialmente reconhecido, as barreiras culturais são mais fortes: 40% da população e 20% dos peritos assinalam o medo de falhar como decisivo para não empreender. Independência e risco não são valores dominantes na cultura portuguesa
2. No último lugar da educação empreendedora em 29 países. Como há uma correlação forte entre ensino destes valores e empreendedorismo, este fraco peso do empreendedorismo no ensino é um problema estrutural muito grave
3. Dificuldades de acesso a fontes de financiamento não tradicionais e nomeadamente no estrangeiro
4. Portugal está na penúltima posição em termos de inadequação das políticas governamentais (o último é a Argentina)
5. O poder dos incumbentes no mercado doméstico é a principal barreira à entrada no mercado (há monopólios e oligopólios privados "sancionados" pelo Estado que agravam esta situação)
6. A estrutura da cadeia de valor a nível de serviços profissionais e de fornecedores e subcontratados é considerada abaixo da média dos 29 países
7. A legislação anti-trust é fraca e a protecção à propriedade intelectual também
8. A legislação do trabalho é considerada rígida

RECOMENDAÇÕES
Principais alavancas possíveis
1. Ensino do empreendedorismo para vencer o síndroma cultural
2. Incubadoras e parques de ciência e tecnologia poderão ser canais privilegiados do capital de risco e "business angels"
3. Políticas governamentais aos diversos níveis particularmente favoráveis nos primeiros anos de vida das "start ups"
4. Criação de uma agência para "start ups" de coordenação de programas

BENCHMARKING DE BOAS PRÁTICAS
1. Programas de Governo: Alemanha, Singapura, Dinamarca, França, EUA
2. Apoio à incubação e parques: França, Brasil, Alemanha, EUA, Reino Unido
3. Educação empreendedora: Finlândia (papel dos Politécnicos destacado no estudo); EUA
4. Ensino da Gestão: Espanha, EUA, França, Brasil
5. Transferência de tecnologia eficiente: EUA, Alemanha, Reino Unido, Brasil

OLHANDO O VIZINHO IBÉRICO AO LADO
E O IRMÂO ALÉM ATLÂNTICO
Na classificação geral
Espanha está em 18º lugar
Brasil está em 5º lugar

PIRÂMIDE INVERTIDA DA % DA POPULAÇÃO
ADULTA EMPREENDEDORA
Entre os 20% e os 10%
México (o nº1 da lista)
Austrália
Coreia do Sul
Brasil
Irlanda
EUA
Hungria
Índia
Canadá
Argentina
Entre os 10% e os 7,5%
Itália
Polónia
África do Sul
Nórdicos (Finlândia, Noruega, Dinamarca)
Espanha
Reino Unido
França
Portugal (último deste bloco intermédio)
Menos de 7,5%
Alemanha
Rússia
Suécia
Holanda
Israel (o que é curioso)
Singapura
Japão
Bélgica (último da lista)

Página Anterior
Topo da Página
Canal Temático
Página Principal