Ética no meio da «selva»

Tudo começou com uma brincadeira há 37 anos na África do Sul. O bichinho da mediação imobiliária nunca mais largou Fernanda Teixeira, uma «self-made manager» que criou uma empresa familiar internacional. Nos últimos três anos foi consecutivamente premiada pela qualidade e a ética num negócio que nem sempre tem boa reputação.

Jorge Nascimento Rodrigues com Fernanda Teixeira em Cascais (Portugal)

Sítio na Web de Fernanda Teixeira SMI Lda
Sítio na Web da Business Initiative Directions
Outra portuguesa premiada pela BID
Outros casos de self-made managers

Fernanda TeixeiraÉ a primeira empreendedora portuguesa a ser distinguida consecutivamente nos últimos três anos por qualidade e ética na sua actividade empresarial. As distinções foram atribuídas a Fernanda Teixeira pela Business Initiatives Directions (BID), uma organização internacional ligada à cultura da qualidade total, sediada em Madrid e espalhada em vários pontos dos Estados Unidos. A empresa, Fernanda Teixeira-Sociedade de Mediação Imobiliária, estabeleceu-se em Cascais há mais de uma década e tem afiliadas em Joanesburgo e Cidade do Cabo na África do Sul e em Toronto no Canadá e um escritório de representação no Dubai, nos Emiratos Árabes Unidos. Fernanda Teixeira, hoje com 60 anos e 37 de uma carreira iniciada na África do Sul, ganhou desde 2000 os vários galardões atribuídos pela BID - em Madrid começou por receber há dois anos (2000) a distinção de ouro, no ano seguinte (2001) em Frankfurt recebeu a de platina, e em Julho passado (2002) foi a Paris buscar o prémio diamante da Qualidade.

O sector «errado»

Fernanda Teixeira ainda hoje confessa «ter ficado totalmente surpreendida com a escolha e intrigada como a descobriram», mas admite que o facto de ter muitos clientes fiéis em diversas partes do mundo, incluindo «várias figuras públicas», deve ter pesado nos inquéritos internacionais que a BID faz permanentemente para seleccionar empresários em qualquer área de negócio. A BID usa uma matriz de vários critérios de management, como satisfação do cliente, estratégias de comunicação, "benchmarking", análise de dados, liderança, recursos humanos, formação contínua, inovação em processos e produção, resultados obtidos, aplicação de normas ISO e TQM (gestão da qualidade total).

«Apesar de portuguesa, quando me radiquei definitivamente em Portugal há 15 anos atrás, verifiquei que tinha aterrado num país completamente diferente no plano profissional nesta área. O que encontrei não era a minha forma de estar no negócio», diz Fernanda Teixeira.

O caso da escolha de Fernanda Teixeira pode parecer, à primeira vista, paradoxal ao leitor. Trata-se de uma área de negócio - a mediação imobiliária - em que a imagem de má reputação profissional predomina, sendo considerada uma «selva». O leitor mais reticente dirá que a BID escolheu o sector «errado». «Apesar de portuguesa, quando me radiquei definitivamente em Portugal há 15 anos atrás, verifiquei que tinha aterrado num país completamente diferente no plano profissional nesta área. O que encontrei não era a minha forma de estar no negócio. Tive, por isso, de criar o meu próprio espaço oferecendo um produto seleccionado», diz a nossa interlocutora. Ao longo do tempo, a firma especializou-se no segmento alto de palacetes, herdades, quintas, prédios antigos e hotelaria, por exemplo, em que o cliente tanto pode ser um investidor internacional como uma embaixada ou uma multinacional. «O nosso país é óptimo para o imobiliário», afirma Fernanda Teixeira, mas esta galinha dos ovos de ouro é muitas vezes morta pela «falta de profissionalismo e de ética», lamenta.

O país é cada vez mais procurado por estrangeiros para investir no imobiliário. Em alta, ultimamente, revela a nossa interlocutora, estão as propriedades rurais para fins vinícolas no Douro, no Alentejo e no próprio Centro do País, facto que a levou a abrir uma sucursal em Arganil. «Há, ainda, projectos na saúde - clínicas, por exemplo, onde há uma enorme procura por parte de investidores», acrescenta.

Marcar a diferença

Muitas ideias de negócio vêm-lhe da observação. «Pego no carro, viajo, paro em certos lugares e vejo oportunidades e potencial. Então desenvolvo a ideia», diz Fernanda. Mas o seu grande segredo é o relacionamento com o cliente: «a minha máxima de gestão é a ética», a que junta a organização, formação e actualização permanente. Ela crê que são esses aspectos que marcam a diferença «numa indústria que ainda carece de reputação valiosa e positiva».

Fernanda Teixeira estudou na África do Sul marketing imobiliário, investimento imobiliário e administração de empresas, mas considera uma vantagem competitiva a sua inserção «global» (está em quatro continentes) e o cosmopolitismo que sempre manteve na relação com o mundo. Mantém um pequeno grupo de empresas com um núcleo restrito, em que envolveu alguns dos filhos, e criou uma rede de colaboradores comissionistas independentes.

Tudo começou «quase por brincadeira em 1965 na África do Sul», recorda. «Havia uns amigos que tinham uma casa para comprar e na minha actividade também de intérprete de português ajudei a comprar. E desde aí ficou-me o bichinho para sempre», diz Fernanda, que, depois de um início de carreira como estilista, relações públicas, intérprete e organizadora de missões comerciais, passou «a levar o negócio do imobiliário mais a sério» sobretudo a partir de 1970.

Garante que manterá o negócio de família. «Já fui várias vezes abordada para vender a empresa, mas não tenho aceitado. Isto é a minha vida. Estou segura que os meus filhos a irão continuar», conclui.

BID E EUROMARKET PREMEIAM OUTRA PORTUGUESA
Mariana de Oliveira, uma açoreana emigrada no Canadá desde 1968, foi galardoada este ano (2002) pela Business Initiative Directions (BID) com o trofeu platina por Qualidade de nível internacional. Também, o European Market Research Centre, de Bruxelas, lhe atribuiu o galardão EuroMarket de 2002 por "performance" na adopção de padrões internacionais na gestão do seu negócio.
Esta portuguesa de São Miguel criou a De Oliveira Hair Care Systems em Toronto onde desenvolveu uma área de negócio de produtos originais para o tratamento do cabelo e da pele. «As ervas tornaram-se uma parte da minha vida», diz-nos Mariana de Oliveira, que comercializa hoje cinco produtos naturais para o tratamento do cabelo e três para tratamento de pele.
Mariana, hoje com 63 anos, emigrou para Toronto tinha 19, e poucos anos depois abriu um salão de cabeleireira e esteticista. Mas resolveu «subir na cadeia de valor» e começou a desenvolver soluções naturais para doenças capilares e da pele, o que lhe permitiu granjear clientela de todo o mundo. A filha Maria Manuela e o neto Lance, que tem hoje a idade dela quando emigrou, são os esteios da continuação deste negócio familiar agora premiado. A empresa conta abrir em breve um sítio na Web para comercializar para todo o mundo os seus produtos.
O BID tem vindo a «descobrir» e premiar pequenos e médios negócios que ganham dimensão internacional e se revelam exemplos de iniciativa empreendedora e de gestão da qualidade. Nestes últimos anos, algumas mulheres têm sido premiadas, destacando-se as portuguesas Fernanda Teixeira (a que nos referimos no artigo de cima) e Mariana de Oliveira.
Mariana de Oliveira pode ser contactada por email para deoliveirahc@aol.com.

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