Já ouviu falar em 'mobbing'?

«Sinto-me chantageado, forçado a actuar de uma forma com a qual não me identifico. Sei que,se não o fizer, poderei perder este emprego. Sinto-me violado nos meus princípios e no que entendo ser o mais correcto.» Este relato, embora fictício, poderá não o ser na boca de muitas pessoas que hoje, neste momento, podem estar a ser moralmente assediadas. A questão do assédio moral não é propriamente uma novidade, assim como novidade não é o comportamento que o descreve. O que é novidade, sim, é a utilização desta expressão em contexto de trabalho e o seu reconhecimento actual, em muitos países, como um tipo identificável de comportamento em ambiente profissional.

Correndo o risco de eu próprio ser excessivamente violento, acredito que nas organizações de hoje, na sociedade em que vivemos, facilmente poderemos viver uma situação de assédio moral - 'mobbing' - constante. A discussão pode ser demasiado filosófica mas…não vivemos nós em assédio moral permanente? E não deixamos nós que toda esta pressão que nos rodeia nos empurre inexoravelmente para situações de assédio moral? Para agressões emocionais e psicológicas à nossas próprias pessoas, que as organizações infligem sem piedade, prescrutando as nossas vidas privadas e a nossa identidade pessoal? Por tudo isto e por muito mais, importa reflectir a respeito das actuais e futuras consequências do assédio moral e emocional nas organizações de hoje.

Meios profíquos em crescentes frustações, considerando os contextos socio-económicos em constante mutação, assim como em desmedidas exigências colocadas aos indivíduos, favorecem o desenvolvimento de situações de assédio moral e 'mobbing', enquanto reacções adversas. Poderá parecer, à primeira vista, que tamanhas reacções ocorram em contextos de 'menor qualificação' dos envolvidos, carecendo dos recursos intelectuais favoráveis ou necessários à resolução do problema. Isto, de facto - e como sabemos - não é bem assim. Situações de assédio moral ocorrem, desenvolvem e propagam-se em qualquer meio, mais ou menos estruturado, mais ou menos protegido, mais ou menos informado.

Expressões como 'assédio moral', 'coacção psicológica', 'violência emocional', 'mobbing' ou 'bullying' representam diferentes formas de adjectivar uma e só uma realidade. Esta realidade consiste no abuso psicológico de alguém (ou de um grupo) sobre outro alguém por uma ou mais razões. Normalmente, o 'mobbing' é motivado por sentimentos de inveja ou por uma qualquer forma de frustração básica e insegurança por parte de quem o pratica. O 'mobbing' pode ser definido como um qualquer comportamento abusivo, traduzido em palavras, actos - ou sob qualquer outra forma de comunicação individual - que poderão afectar negativamente a dignidade física / mental ou a integridade de uma pessoa, a realização de actividades no contexto de uma função ou um determinado ambiente de trabalho.

Na esfera profissional, o assédio moral está normalmente limitado à destruição psicológica da vítima, de forma progressiva, embora possa ser associado a abusos de natureza humilhativa, física ou corporal, para além de eventuais abusos de carácter estrutural, como sejam a rejeição, as ameaças ou os roubos.

Recentemente, alguns casos recentes de abuso generalizado numa escola do ensino secundário, em França, trouxeram à discussão o tema da violência escolar. No entanto, mais do que simples ocorrências ou relatos de violência gratuita entre alunos, a situação desencadeou verdadeiros fenómenos de assédio moral, por parte de alguns alunos sobre um número de vítimas submetidas a abusos psicológicos e físicos acompanhados da natural cumplicidade dos restantes colegas.

O iniciador dos estudos do fenómeno do assédio moral (mobbing) foi um psicólogo alemão de nome Heinz Leymann que, em 1992, os analisou pela primeira vez. Heinz defende que o assédio moral, no campo profissional, poderá ssumir duas formas: pode consistir numa 'agressão vertical' (um superior agride um subordinado ou vice-versa, se bem que esta situação seja bastante mais rara); ou pode consistir num acto de sentido horizontal por parte de colegas de trabalho ou por parte de pessoas, relacionadas com a vítima, com interesses directos ou indirectos na sua saída da organização. Ambas as formas são particularmente frequentes nos dias que correm e nas organizações de hoje, especialmente onde a lei do silêncio é mais eficaz num contexto onde as pessoas têm medo de perder o seu emprego e a sua forma de sustento.

Segundo alguns autores, o assédio moral pode desenvolver-se de acordo com três fases distintas:

1. Num primeiro momento, o agressor priva a vítima da sua própria personalidade, tornando-se indispensável à sua existência. Ao mesmo tempo, procura isolar a vítima de qualquer outra pessoa que a possa ajudar a pensar autonomamente. De facto, a sedução exercida pelo agressor - por aquele que assedia - é baseada na sua personalidade segregante. No entanto, após uma fase de sedução, o agressor tenta impôr o seu poder perante a vítima. Muito subtilmente e de forma muito perversa, o agressor tenta espalhar a dúvida e suspeição perante os restantes colegas de trabalho, privando a vítima de qualquer apoio, tornando-se esta um verdadeiro brinquedo nas suas mãos. Perante esta pressão, a vítima perde qualquer sentido crítico e é literalmente minimizada pelo seu agressor. Poderíamos comparar estes comportamentos com a de um sabotador que destrói todas as possibilidades de ajuda à sua vítima, isolando-a e tornando-a inofensiva.

2. Num segundo momento, o agressor domina a vítima, controlando as suas expressões e actos. Passa a determinar e a coordenar todos os seus desejos. Nesta segunda fase, o agressor tenta obrigar a vítima a reagir, de forma a descredibilizada definitivamente. As possíveis reacções da vítima permitem ao agressor surgir como a própria vítima da situação gerada. Não deixa de ser verdade que, em alguns casos, a relação existente entre a vítima e o agressor é bastante mais complexa.

3. A terceira fase assiste à marcação da vítima por parte do agressor. Muitas vezes, a vítima vive sentimentos de confusão, instabilidade e incapacidade de pensar autonomamente, ficando acorrentada à relação que mantém com o agressor. Pessoas que estejam sob este tipo de acções vivem em insegurança extrema, depressão, solidão, medo, baixa auto-estima…podendo conduzi-las ao suicídio. Muitas destas pessoas poderão ter dificuldades em - numa situação de recuperação - poder retomar os seus círculos de amizade e relação. As consequências a longo prazo poderão ser ainda mais penosas para o indivíduo e para a sociedade: choque, vergonha, descompensação, dissociação de personalidade, stress pós-traumático.

Provavelmente, referiram-se aqui situações extremas. Como dizia ao início, poderei estar a ser excessivamente violento. Mas a verdade é que muitas pessoas já viveram - e vivem - situações semelhantes de assédio moral, em contexto organizacional. Muitos de nós poderão até nem associar as situações que vivem, no dia-a-dia, a abusos de carácter psicológico ou emocional, embora a sua amplitude possa ser consideravelmente ampla e diversificada. Falo de situações específicas em que um colaborador é 'aconselhado' pelo seu superior a não tomar certa decisão, embora tenha a 'liberdade' total para o fazer. Mas falo também de situações de humilhação profissional, desgaste psicológico, perca de identidade pessoal por associação forçada a valores e práticas literalmente opostas. E falo ainda de expectativas goradas, falsas promessas, ausência da família, abuso físico, chantagens, poderes, prateleiras douradas, xenofobia, racismo, homossexualidade, divórcio, depressão, suicídio. É preciso falar de mais alguma coisa?

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