e-Learning: novos modelos de aprendizagem

Criar uma economia de aprendizagem

O mundo dos negócios e das empresas é suportado, cada vez mais, por uma economia baseada no conhecimento. Nos EUA, por exemplo, as tendências económicas e tecnológicas fizeram evoluir as organizações, nos últimos quarenta anos, de um cenário de negócio centrado na produção para um cenário de negócio focalizado nos serviços.

Na velha economia, a criação de valor definia-se por variáveis físicas ou financeiras. A nova economia distingue, claramente, o valor organizacional centrado no capital intelectual. No entanto, a longevidade do conhecimento e das competências utilizadas em contexto organizacional é cada vez menor - diminuindo e desvalorizando-se a cada momento - fazendo aumentar a pressão no sentido de nos mantermos na linha da frente da actualização profissional e do to be marketable, ao longo de uma carreira.

No actual contexto de globalização e aumento gradual da tecnologia, quatro anos de formação superior é apenas o início de quarenta anos de aprendizagem contínua. Assim, se bem que a ideia de formação ao longo da vida (life-long learning) possa ser encarada como mais uma buzz idea, a verdade é que se afigura como um verdadeiro imperativo.

A criação de uma economia de aprendizagem encontra-se também associada à noção, cada vez mais presente nas organizações, de que os modelos de aprendizagem e formação são armas competitivas e não factores de custo acessórios. O sucesso dos negócios depende, cada vez mais, de desempenhos excepcionais por parte dos colaboradores das organizações, requerendo isto formação de elevada qualidade. Esta tendência acompanha a crescente consciencialização colectiva de que aumentar as competências destes colaboradores corresponderá a um incremento efectivo de uma vantagem competitiva sustentada. Desta forma, na perspectiva de se manterem competitivas nos mercados em que operam, as organizações de hoje exploram os avanços na tecnologia para formar os seus recursos humanos de uma forma mais rápida, mais eficaz e menos dispendiosa que no passado.

Ainda nos EUA, pesquisas recentes como a que acaba de ser realizada pela Drake Beam Morin em parceria com a ASTD (American Society for Training & Development), revela que 42% das organizações dos EUA estão a utilizar soluções de e-Learning para formar os seus colaboradores. Das companhias que ainda não corporizaram este novo conceito, 92% esperam fazê-lo nos próximos doze meses. Das companhias que pretendem implementar soluções desta natureza, 70% indicaram que planeiam adoptar as soluções e-Learning para desenvolver competências de gestão, enquanto que 51% informaram que devem usar as soluções para potenciar capacidades técnicas. Sessenta por cento dos entrevistados responderam que prefeririam adquirir os serviços de e-Learning de um único fornecedor. Mas mais interessante é a lista de serviços adoptados por estas empresas através das soluções de aprendizagem pela Internet, por ordem de importância: hosting (53%), aferição de necessidades de formação (50%), consultoria (44%), salas de chat para formandos (42%), aconselhamento e online mentoring (41%), conteúdos formativos personalizados (35%), avaliação de competências (30%), gestão do desempenho (21%), avaliação da formação (18%) e, finalmente, extracção de relatórios (9%). Estes serviços permitem às organizações estender temporalmente o impacto da formação, distribuir conhecimento rapidamente e de forma global, bem como possibilitar a re-utilização de conteúdos (de forma síncrona ou assíncrona).

Porquê o e-Learning?

A tecnologia tem vin do a transformar o modo como vivemos, trabalhamos, pensamos e aprendemos. Hoje em dias, temos necessidade de processar mais informação em períodos de tempo mais curtos, porque o tempo de que dispomos é também um recurso cada vez mais escasso. À medida que os processos de produção e novos serviços são criados ou transformados, a informação e o conhecimento gerado pela formação tornam-se rapidamente obsoletos. Os responsáveis de formação das organizações sentem a necessidade de distribuir conhecimento e promover o desenvolvimento de competências rápida e eficazmente, onde e quando tal se manifestar necessário. Neste contexto, o conceito de formação just-in-time ganha cada vez mais significado, tornando-se um elemento crítico. Noutra dimensão, a evolução das tecnologias de informação e a quebra das barreiras comerciais entre os países resulta num aumento da competição entre as organizações, mundialmente dispersas e empregadoras de colaboradores de culturas distintas e com níveis de educação e formação extraordinariamente diferentes. Este factor, cada vez mais presente, pressiona a necessidade de se encontrarem modelos de distribuição de conhecimento, de conteúdos formativos a populações geograficamente dispersas.

Potencialmente, as organizações consomem mais recursos e dinheiro através dos métodos tradicionais de formação - e isto fará ainda mais sentido à medida que se desenvolvem as tecnologias de informação e comunicação disponíveis - nomeadamente na deslocação e alojamento de formadores e formandos. Estes aspectos logísticos, consumidores do tempo e da motivação disponível para aprender, reduzem significativamente a produtividade e o retorno obtido pelo investimento efectuado. Também os chamados trabalhadores do conhecimento exigem maior flexibilidade no seu contexto de trabalho, porque trabalham mais, esforçam-se mais e viajam mais que nunca. Possuem uma orientação não-tradicional para os factores tempo e espaço, acreditando que desde que as suas missões e objectivos sejam cumpridos, não será importante onde ou quando isto aconteça. Também por isto, os novos métodos de formação devem reflectir e acompanhar as crescentes transformações no mundo do trabalho.

A possibilidade de acesso a uma formação personalizada, em que a cada pessoa é possibilitado aprender de acordo com as suas necessidades e o seu próprio ritmo, surge como um factor de distinção das soluções e-Learning. As soluções de aprendizagem baseadas nas tecnologias de informação criam também mais espaço para as diferenças e estilos individuais na aprendizagem. Refiro-me, particularmente, à auto-formação (e auto-avaliação) como possibilidade de utilização constante e re-aproveitamento dos conteúdos formativos, disponíveis numa base tecnológica. Isto permite que as pessoas possam utilizar esses conteúdos as vezes que necessitarem, dando-lhes uma maior controlo sobre o processo de aprendizagem, nomeadamente sobre a construção do seu percurso formativo, associando, adicionando ou eliminando conteúdos.

Ainda neste domínio, um aspecto mais soft, relativamente ao ambiente de aprendizagem. O processo de aprendizagem via e-Learning poderá vir a ser considerado menos intimidatório para os formandos, na medida que podem experimentar novas situações e cometer erros sem se exporem demasiado. Provavelmente, este facto será mais nítido na formação comportamental, das soft skills como liderança ou tomada de decisões. Um bom programa de formação revela aos formandos, isoladamente, as consequências das suas acções e as situações em que deveriam ter agido de outra forma. Este tipo de experiência na aprendizagem elimina possíveis percas de face perante um grupo.

Ainda algum cepticismo…

Apesar dos elevados investimentos, especialmente nos EUA e em alguns países europeus, existe ainda alguma resistência, por parte de empresa e universidades, à penetração deste tipo de soluções de formação. Recentemente, o Forrester Research Institute publicou um estudo sobre a formação à distância em que quarenta empresas norte-americanas - entre estas a IBM e a Microsoft - avaliaram a opinião dos seus colaboradores que beneficiaram de bolsas de estudo pela Internet. Em cada dez colaboradores, oito não viram vantagens significativas nestas soluções e sete revelaram-se cépticos quanto à possibilidade das mesmas possibilitarem a melhoria das suas prestações. E um dado nada motivador: a taxa de desistência em alguns cursos chegou a 80%. É pouco provável, no entanto, que tais números desanimem os investidores.

Qual é a dimensão deste mercado? Como está a crescer?

Nos EUA, o mercado de e-Learning é um dos que apresenta maiores índices de crescimento, sendo um dos mais promissores, na grande indústria da educação, ainda que se apresente excessivamente fragmentado e suportado no factor brand. Espera-se que o mercado da formação online duplique a sua dimensão a cada que passa, prevendo-se que alcance os 11 biliões de dólares em 2003 (IDC), acompanhando os investimentos de grandes empresas neste domínio.

Neste segmento, a quota de mercado e os índices de crescimento variam também em função dos três componentes existentes: Conteúdos, Tecnologias e Serviços.

Em Portugal, este mercado é ainda embrionário e extremamente pobre, embora comecem a surgir algumas iniciativas neste domínio. Os possíveis vencedores serão aqueles que combinem uma oferta de qualidade, com serviços que acrescentem efectivo valor, aliados a uma forte presença no mercado ou em alguns nichos de clientes. Vencedores serão também aqueles que assegurem qualidade de conteúdos formativos e da tecnologia envolvida, por forma a poderem assegurar a construção de uma solução completa. A construção deste cenário passará, decerto, pela realização de parcerias de know-how entre organizações. Vencedores serão também aqueles que consigam influenciar positivamente as organizações para a importância e vantagens das soluções e-Learning como forma de enriquecer a sua prestação no domínio da formação e desenvolvimento.

Estou certo que as organizações que já hoje percepcionam a importância da formação para um desempenho mais competitivo das suas pessoas, reconhecerão e aproveitarão estas soluções.

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