Radiografia da formação dos Recursos Humanos nacionais

Comentário sobre o Forum Recursos Humanos 2000
realizado em Portugal

Ruben Eiras

Adaptação de versão publicada no Expresso-Emprego

 Medidas para aumentar a sua eficácia | As Competências-Chave 

A competência central do futuro será a atitude de aprender ao longo da vida. Isto exige que as empresas e a formação criem as condições para o novo paradigma da aprendizagem no posto de trabalho. O mercado de trabalho nacional está completamente «estrangulado» e enfrenta uma situação de considerável fragilidade: 76% da população activa portuguesa apenas possui até seis anos de escolaridade.

Foi com este panorama de fundo que decorreu o Fórum Recursos Humanos 2000, nos dias 22 e 23 de Março na Culturgest, em Lisboa. No evento foram abordadas vários temas críticos concernentes à gestão das pessoas, desde a mudança organizacional, a flexibilidade, o trabalho temporário, as novas tecnologias e a criatividade nas organizações. Mas aquele que suscitou particular discussão em vários painéis do evento foi o da qualificação da mão-de-obra.

Panorama desadequado

«Actualmente, o sistema de ensino e de formação estão desadequados tanto da sociedade como das empresas face às competências requeridas pela acção e exigem a rotura com a antiga organização do trabalho, baseada no taylorismo», afirmou Pedro Mendonça, docente da Universidade Atlântica, que apresentou o seu estudo «Formação em Competências-chave para Trabalhadores de Baixo Nível de Escolarização (BNE)».

De acordo com aquele investigador, há que investir muito em formação, especialmente nos trabalhadores com baixas qualificações, caso crónico da força de trabalho nacional. Todavia, apesar da formação ser um factor crítico para a sobrevivência da economia portuguesa, «boa parte da que se realiza no nosso País é apenas um custo e repercute-se insuficientemente no trabalho, pelo que não tem a utilidade para que foi concebida», afirma Pedro Mendonça. E logo numa era em que o mercado de emprego é cada vez mais exigente em escolaridade e competências.

A agravar ainda mais este cenário, segundo o estudo referido, o facto dos trabalhadores pouco qualificados serem o segmento da força de trabalho que é mais difícil mobilizar para a formação, nomeadamente ao nível do encorajamento. É indispensável muita criatividade para encontrar respostas muito diversificadas para isso. Além disso, estes trabalhadores são aqueles que se encontram numa situação mais desabrigada e em maior risco de exclusão social na Sociedade da Informação. Com efeito, os BNE estão no fim da escala dos info-excluídos.

As competências-chave

Assim, para que estes trabalhadores tenham lugar no mercado de emprego da Sociedade do Conhecimento, o investigador defende que a solução reside na formação em «competências-chave», isto é, as competências não técnicas, que mobilizam diversos tipos de saber, que fazem apelo a aspectos psicológicos - cognitivos e afectivos -, a saberes sociais, tais como os conhecimentos do meio profissional e as normas das organizações e ainda a saberes sociológicos e culturais.

Dentro destas, a título de exemplo, contam-se o trabalho em equipa, comunicação, espírito de iniciativa, flexibilidade e polivalência. «As pessoas, ao integrarem estas competências não técnicas, modificam as representações de si próprias e das situações sociais em que se inserem. Assim, podem tornar-se mais autónomas e capazes de tomar iniciativas», explica Pedro Mendonça.

As «competências-chave» identificadas na pesquisa foram seis: comunicação, trabalhar em grupo, responsabilidade, sentido de organização, autonomia, flexibilidade e polivalência de funções.
O estudo também revela que a formação nesta vertente permite a apropriação de saberes, transmite competências e melhora as existentes. Outro factor identificado na investigação é que a formação em «competências-chave» ajuda os BNE a integrarem-se melhor nas crescentes exigências de qualificação das empresas e melhoram as representações que fazem de si mesmos - realização do seu trabalho, satisfação no trabalho, convicção da importância do trabalho, contacto com os outros, e identificação com a empresa.
Ademais, dá-se também uma alteração positiva dos seus comportamentos e afirmam que são mais pró-activos e agem com mais eficácia, a nível pessoal, interpessoal e profissional. Desta forma, o estudo frisa que a competência central passará a ser a atitude de aprender ao longo da vida. Só que, para tal, o papel da formação, dos modelos de aprendizagem e dos formandos tem que ser reequacionado. «A competência central passará a ser a atitude de aprender ao longo da vida», sublinha Pedro Mendonça.
Neste plano, a Escola tenderá a ser apenas UM dos elementos de aprendizagem na Sociedade da Informação. As modalidades de formação serão mais abertas, flexíveis e efectuadas à distância e, além disso, possuirão uma forte componente de autoformação e formação contínua. Por outro lado, a empresa deverá proporcionar a todos os trabalhadores a informação que lhes possibilite tomar iniciativas e trabalhar com autonomia.
O formador passará a ser um tutor e a responsabilidade social das empresas deixará de ser a de oferecer emprego para passar a ser a de oferecer empregabilidade. Quer isto dizer que as empresas darão oportunidade às pessoas para adquirirem as competências de que necessitam no presente e no futuro, na mesma ou noutra empresa.

Medidas para aumentar a eficácia

  • Ensino por projectos. Alargar e divulgar novos conceitos de formação no sistema educativo, como o ensino por projectos ou baseado em problemas. A formação dos futuros quadros portugueses tem de mudar, para poderem ajudar os BNE a mudarem. Acabou-se o mito do «pleno emprego» e estamos a passar para o «trabalho escolhido».
  • Formação em competências-chave. Adoptar nos planos curriculares do sistema de ensino e formação - não só na formação profissional do IEFP como no sistema educativo oficial - a formação em «competências-chave», particularmente em comunicação e a formação em idiomas, em especial o inglês. Em vez de avaliações baseadas apenas em provas escritas, deveriam incluir-se as provas orais de grupo e em sala, onde se teria em conta, nomeadamente, a utilização dos meios audiovisuais.
  • Formação em Tecnologias de Informação e com apoio das Tecnologias de Informação (TI). Corremos o risco de o tema das TI ser confundido ou reduzido à sua componente tecnológica. As TI ainda não são uma forma de comunicar. Há muitos cibernautas portugueses não praticantes: a toda a hora deparamos com sites profundamente desactualizados ou com correios electrónicos errados. As TI ainda não são consideradas como material pedagógico - um número demasiado elevado de professores não usa adequadamente o simples projector de transparentes em apoio às suas aulas. O ensino da informática tem de ser estimulado, nomeadamente no seio das famílias, com os filhos a ensinar os pais. Tem de ser igualmente banalizado, nomeadamente com o Ministério das Finanças a deixar de considerar o ensino de informática para crianças um produto de luxo e sujeito a IVA.
  • Balanço e portefólio de competências. Nos centros de emprego, adoptar a noção de balanço e portefólio de competências, nomeadamente em apoio de desempregados, por induzir uma atitude autoavaliativa, apelar a diferentes níveis de imagem de si e a interpretá-los e os ajudar a construir um plano de acção.
  • Adaptação da legislação laboral à Era da Informação. Criar incentivos à rotação de funções, estímulos à formação, à flexibilidade e à polivalência, adopção da certificação de competências e reformulação do espírito taylorista da legislação actual. A contratação colectiva pouco mais é do que um meio regulador das variações salariais e um «caldo de culturas» reivindicativas, para separar os «bons» e os «maus». Os principais protagonistas nesta matéria - partidos políticos, associações sindicais e patronais, governo e todas as instituições que personificam o Estado - ainda não perceberam ou não terão conseguido persuadir os restantes ou os seus representados que, o que dá segurança e estabilidade ao emprego, não são garantias jurídicas, mas sim qualificação e flexibilidade.
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