Relatório do emprego na Europa revela

Formação aumenta 3% da produtividade

O crescimento anual da produtividade das empresas portuguesas que apostaram na formação contínua dos seus trabalhadores no período de 1995 a 2001 foi de 3%, sendo este o terceiro melhor valor na UE, atrás da Grécia (3,5%) e da Irlanda (4%). Este é um dos resultados em destaque da análise sobre a situação do mercado de trabalho europeu patente no UE Employment Report 2002, elaborado pela Comissão Europeia, o qual vem demonstrar a importância estratégica da formação no debelar do crónico calcanhar de Aquiles da economia portuguesa, a baixa produtividade.

Análise de Ruben Eiras

Artigo publicado no Expresso Emprego

O essencial sobre a formação contínua | Faça o download do relatório

Todavia, esta boa performance não surtiu um impacto significativo no desempenho produtivo nacional devido ao facto de apenas 17% da força de trabalho ter participado em acções formativas regulares. Em contraste, na Irlanda, o país do grupo de coesão que mais crescimento económico alcançou no período referido, mais de 40% da mão-de-obra teve acesso à formação contínua. O resultado foi um aumento da produtividade de 4% registada em quase metade dos empregados irlandeses.

De acordo Maria Márcia Trigo, presidente da Agência Nacional para a Educação e Formação de Adultos (Anefa), a educação e formação em Portugal apresentam um dos valores mais elevados em retorno de investimento da UE devido à sua escassez, ainda que relativa, no mercado nacional. «Por isso, o impacto da formação no aumento da produtividade é relevante, dada a mudança de fundo que se opera nos processos de trabalho. Isto é tanto mais verdade no plano da formação contínua e qualificante dos adultos activos, que infelizmente rareia em Portugal», observa aquela responsável.

Além da mentalidade adversa da maioria dos empresários portugueses face aos benefícios para o negócio que advêm das acções formativas, Rui Moura, sociólogo do trabalho e docente na Universidade Autónoma de Lisboa, coordenou um estudo no qual constatou que a fatia de 22% das empresas nacionais investidoras na formação não recorrem aos fundos europeus. Isto devido à excessiva burocracia dos processos de candidatura, a aprovação e o financiamento.

Para inverter esta situação, aquele especialista propõe que não só é crucial desburocratizar os processos de apoio à formação, como também flexibilizar os financiamentos à medida da realidade empresarial portuguesa. «Há que criar programas permanentemente abertos a candidaturas de empresas, de modo a apoiar casos urgentes que perfilem situações de crise ou de mudanças rápidas e indispensáveis», reforça.

Quanto ao formato, Maria Márcia Trigo defende que os resultados do estudo da UE destacam a urgência de conceber e colocar no terreno modalidades de formação com componente muito prática e orientada para o posto de trabalho. «Esta iniciativa deve ser realizada não só pelas políticas públicas, mas também pelas empresas», remata.

Ao nível da organização, Carlos Marques, assessor na área dos recursos humanos do conselho de administração do Banco Espírito Santo (BES), refere que para um programa de formação contínua ser bem sucedido, tem de assentar na normalização e «standardização» dos processos produtivos. «Desta forma, podemos definir com precisão o perfil de competências exigido para cada posto de trabalho e identificar quais as lacunas existentes no trabalhador em relação à função que irá desempenhar», explica aquele especialista. «Assim asseguramos que a formação é realmente eficaz e aumenta a produtividade, porque é cirurgicamente orientada para as necessidades específicas de cada empregado na relação com o seu posto de trabalho», esclarece.

Outro factor indispensável para que a formação contínua origine crescimento da produtividade é a sua correlação com os restantes indicadores de gestão. «A formação tem que 'falar' a linguagem do negócio. Se não for assim, a administração nunca apoiará a política formativa num sentido estratégico», enfatiza Carlos Marques. Ou seja, para que os patrões encarem a formação como um investimento, há que demonstrar a sua rentabilidade para a empresa em termos quantitativos, através da medição da melhoria da qualidade do serviço ao cliente, da produtividade gerada ou dos ganhos de eficiência alcançados.

Dentro da política de formação contínua, Rui Moura aconselha também a que as empresas apostem no cruzamento de tipos mistos de acções formativas que desenvolvam uma plataforma de soluções múltiplas de aquisição de competências. «Um exemplo é o 'blended-learning', a interligação entre a formação presencial e de simulação em sala, com a formação a distância apoiada por um orientador e formação experiencial em contexto real de trabalho orientada para resultados concretos, claros e mensuráveis, e em regime de tutoria», sugere.

«Não basta discursar e dizer que as pessoas são o recurso mais importante da empresa sem o demonstrar com dados concretos», sublinha o executivo do BES. E agora que existe a prova irrefutável de que a formação contínua providenciada pelas empresas afecta profundamente a economia do país, Carlos Marques advoga que deverão ser criadas recompensas e castigos que incentivem e punam determinadas condutas. «Quem recebe dinheiro para dar formação e não o faz correctamente, deve ser obrigado a devolvê-lo», remata.

O ESSENCIAL SOBRE A FORMAÇÃO CONTÍNUA

O que é e para que serve?

Dirigida a gestores intermédios e trabalhadores, consiste em acções de formação curta presencial, com uma forte componente prática e experimental, realizada no local de trabalho e em regime de acompanhamento. É orientada para a resolução de problemas concretos e para percursos profissionais à medida das novas realidades empresariais.

Competências no...

...domínio geral

   - competências básicas: Saber ouvir, comunicar, escrever, raciocinar, traduzir e falar línguas

...domínio técnico

   - adopção e gestão de novas tecnologias de automação ou de informação e comunicação. Exemplos: Adaptação da tecnologia à organização e aos recursos humanos, utilização de novas tecnologias, gestão e manutenção dos equipamentos
   - desenvolvimento de novos produtos e projectos. Exemplos: Desenho e concepção de produtos e projectos, novas utilizações, recombinação de tecnologias e materiais, novos processos de produção e prestação de serviços
   - entrada em novos mercados. Exemplos: exploração de novas oportunidades, adaptação de produtos e mercado, adaptação da estratégia e mercado
   - resolução de problemas técnicos concretos, a nível de tecnologias, produtos e mercados

...domínio organizativo

   - gestão de equipas
   - orientação de reuniões
   - gestão de negociações
   - gestão da informação e do conhecimento
   - ligação a redes e parcerias
   - técnicas de experimentação organizacional

...domínio das relações humanas

   - participação
   - trabalho em equipa
   - autonomia
   - flexibilidade
   - polivalência
   - adaptabilidade
   - autocontrolo
   - autoconfiança

Fonte: Rui Moura
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