Pleno emprego frágil

por Ruben Eiras

Apesar da situação de pleno emprego em que vive hoje Portugal, a sua manutenção permanece numa base muito frágil. De acordo com os últimos dados do sistema de indicadores de alerta de Abril de 1999, elaborado pelo Departamento de Estatística do Trabalho, do Emprego e da Formação Profissional (DETEFP - www.detefp.pt) do Ministério do Trabalho e Solidariedade, o desemprego irá alastrar-se no Interior do país e a sectores de actividade não tradicionalmente afectados por este fenómeno.

Segundo aquele documento, no que diz respeito aos sectores que evidenciam maiores sintomas de crise, os correios, as telecomunicações, a pesca, o fabrico de material de transporte e a construção são os que se posicionam nos lugares cimeiros.

A estas actividades vieram agora juntar-se o fabrico de instrumentos científicos e a indústria das peles - com previsão de redução de emprego por diminuição do volume de negócios e de quota de mercado -, o fabrico de máquinas e equipamentos, devido a atrasos no pagamento de encargos e aumento da subcontratação, e na indústria de vestuário e artigos de pele, por redução e previsão de redução de pessoal ao serviço e atrasos no pagamento de encargos.

Continuam ainda a posicionar-se em lugares de potencial crise a indústria têxtil e as indústrias metalúrgicas de base. Todavia, contrariamente ao sucedido em inquéritos anteriores, deixaram de se situar em posições de potencial crise as seguintes actividades: serviços, indústrias alimentares, transportes e armazenagem, indústrias de bebidas, fabrico de pasta, papel, cartão e produção e distribuição de electricidade, gás e água.

No que toca à redução de emprego, nota-se uma situação curiosa. Os sectores de transporte e armazenagem, produção e distribuição de electricidade, gás e água, fabrico de coque, refinarias e petróleo e actividades financeiras são aqueles que mais reduziram o pessoal ao serviço no período de referência do inquérito. «Este facto significa que nem sempre existe correlação entre redução de emprego e má situação económico-financeira das empresas», lê-se no documento.

Em situação inversa, encontram-se as actividades de fabrico de instrumentos científicos, fabrico de máquinas e equipamentos, fabrico de artigos de borracha e matérias plásticas e de imobiliário e serviços prestados às empresas - que embora tenham registado um aumento de emprego - ocupam posições de potencial crise, derivado principalmente dos valores desfavoráveis no atraso nos pagamentos e na previsão de diminuição do volume de negócios e de quota de mercado.

Quanto às regiões, retomou posição de destaque a Beira Interior Norte, dado o forte crescimento nas respostas que prevêem que a situação vai piorar, com diminuição do volume de negócios, da quota de mercado e das horas de trabalho no semestre seguinte ao período de referência, a par com a inexistência de investimentos de expansão a curto e médio prazos e a previsão de alguns casos de suspensão de actividade a médio prazo.

Por motivos semelhantes, a Cova da Beira mantém situação cimeira. Os mesmos aspectos focados para a Beira Interior, ainda que de forma mais atenuada, em conjunto com o aumento verificado na redução de emprego, levam a que o Alentejo Central se mantenha em potencial situação de crise.

As restantes regiões pertencentes ao conjunto das mais fustigadas pelo desemprego - Pinhal Interior Sul, Serra da Estrela e Beira Interior Sul - passaram a situar-se em zona que não prenuncia potencial situação de crise, muito embora se notem alguns problemas de atrasos em pagamentos nas duas primeiras e de redução de emprego no última. A região do Minho Lima melhora em todas as variáveis.

Em sentido contrário, passaram para zona de potencial crise, um grupo constituído pelo Tâmega, Baixo Vouga, Baixo Mondego e Alto Trás-os-Montes. As razões para essa mudança advêm de problemas financeiros com atrasos no pagamento de encargos, acrescentando-se a redução de emprego nos três últimos.

O outro grupo é formado pelas regiões de Entre Douro e de Vouga e Oeste, onde os motivos de alteração da situação se devem fundamentalmente à previsão de que, nos seis meses seguintes a Abril de 1999, a situação iria piorar, com redução de volume de negócios e de quota de Mercado, a par com a inexistência de investimentos de expansão.

Recorde-se que o último relatório do Instituto Nacional de Estatística revelou que o número de desempregados inscritos nos centros de emprego está a aumentar desde Maio deste ano e que a economia está a desacelerar. A taxa de desemprego, sem correcção sazonal, foi de apenas 3,8% em Setembro, mas a síntese de conjuntura alerta para o facto de haver um crescimento homólogo de 6,2% no número de inscritos nos centros de emprego. Embora este indicador não permita calcular a taxa de desemprego, indica o número de pessoas sem trabalho. Corrigido de sazonalidade, o número absoluto aumentou de 320 mil inscritos nos centros de emprego em Maio para 329 mil em Setembro. Isto quer dizer que o abrandamento económico estará a criar empregos a um ritmo mais baixo.

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