Expo'98: receita para evitar a barafunda
usando o teletrabalho
O «pai» do teletrabalho
abre a polémica sobre a preparação da área metropolitana de Lisboa para
o impacto diário da afluência aos jogos. Aconselha a que se pense, desde
já, no problema, e que não se guarde
para "improvisações" à última hora.
Jack Nilles em Los Angeles, Agosto de 1997
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Publicado
na rubrica Forum do caderno XXI em versão mais reduzida
Tradução de Rui de Carvalho (rcarvalho@mail.telepac.pt)
Recuemos a tempos remotos, por volta de 1982, quando em Los Angeles se faziam
planos para organizar os Jogos Olímpicos de 1984. Como futurista profissional,
uma das minhas preocupações foram os eventuais problemas de trânsito.
Afinal, esperava-se que Los Angeles fosse visitada por milhões de pessoas
durante os Jogos Olímpicos, e a cidade já era conhecida por ter certos problemas
relacionados com o trânsito: enormes engarrafamentos, neblina provocada pelos
escapes, automobilistas irados e consequente balbúrdia.
Embora a região fosse famosa pelo seu extenso sistema de vias rápidas, era
evidente que só se pode meter um certo número de carros num determinado espaço.
Junte-se mais um milhão de carros, mais coisa menos coisa, e o resultado será
o caos completo.
Mesmo dispersar os Jogos por vários locais afastados podia não ajudar muito,
pois os carros continuavam a ter que chegar aos sítios. Além disso, não era
provável que os sistemas de transportes colectivos pudessem suprir as necessidades
de transporte sem enormes despesas em novos equipamentos que provavelmente
não teriam utilidade depois dos Jogos.
Os meus colegas previam um impasse total. Que fazer?
Los Angeles, 1984
Não é possível fazer as coisas como habitualmente onde quer que seja que se
juntem mais umas quantas dezenas de milhar de carros à equação. Algo tem de
ser mudado. De resto, há dez anos que vínhamos testando uma dessas formas
de mudança: se queremos juntar carros vindos de qualquer lado - sem reconstruir
totalmente a infra-estrutura de auto-estradas e estacionamentos - temos que
retirar carros que de outra forma estariam no local.
Mas, em tempo normal, a maioria dos carros nas zonas apinhadas pertence a
trabalhadores e não é grande ideia retirar os trabalhadores: os empregadores
tendem a queixar-se - tal como os empregados - quando não recebem os seus
pagamentos.
Logo, como se retiram os carros sem retirar os trabalhadores? Levá-los todos
a apanhar o autocarro ou o comboio? Óptimo, se isso for uma opção razoável.
Mas em Los Angeles, onde a norma é toda a gente levar o seu carro para o emprego,
isso não era uma opção razoável. Tinham sido gastos milhões de dólares em
projectos para implorar aos angelenos que deixassem o carro em casa. Qual
foi o resultado?
Em vez de 97 por cento dos trabalhadores seguirem sózinhos no seu carro, esse
número passou para 93 por cento. O que deixa uma quantidade de trabalhadores
e uma quantidade de carros a congestionar as áreas que precisamos de conservar
livres para quem vai assistir aos Jogos Olímpicos.
Recomendei que se fizessem duas coisas: alterar alguns horários de trabalho
e começar a telecomutar.
No primeiro caso, a ideia era ter os trabalhadores a entrar ou a sair a horas
que não interferissem com o trânsito próprio dos Jogos. No segundo caso, queríamos
que os empregados ficassem totalmente afastados dos carros trabalhando em
telecomutação doméstica (ou a pouca distância de casa). Continuavam a trabalhar
as mesmas horas, mas não nas regiões congestionadas. Todos ficariam contentes;
os turistas, os trabalhadores, os empregadores.
Porque haveria a telecomutação de funcionar? Simples. Porque 3 em cada 5 angelenos
são trabalhadores de secretária. A maior parte do seu trabalho é realizado
com um telefone ou com um computador. Para isso, não há nenhuma razão para
estarem num escritório do centro da cidade; poderiam estar em casa ou em qualquer
outro sítio onde a sua deslocação para o trabalho não criasse congestionamento
de trânsito.
Claro que, de vez em quando, também precisam de se encontrar com os colegas,
vendedores, ou clientes. A questão era marcar esses encontros de modo a minimizar
o conflito com o trânsito olímpico. Tudo o que era preciso era alterar a localização
do trabalho, não o trabalho em si.
Pois bem, funcionou. Não dispomos de avaliações precisas sobre quantos teletrabalhadores
e trabalhadores em horário flexível havia, embora muitas das grandes empresas
do centro da cidade tivessem feito ambas as coisas. Mas houve uma redução
de cerca de 4 por cento no tráfego de ponta em Los Angeles, durante os Jogos
Olímpicos - mesmo com a carga suplementar de atletas e espectadores - e o
trânsito fluía muito mais regularmente que antes dos Jogos.
A telecomutação foi um êxito. (Nota: No caso de estar confundido com a terminologia,
teletrabalho refere-se a qualquer forma de usar telecomunicações em lugar
das viagens relacionadas com o trabalho. Alguns teletrabalhadores fazem-no
globalmente. A telecomutação é a parte do teletrabalho que envolve redução
ou eliminação das deslocações diárias entre a casa e o local de trabalho principal.
Ou seja, a telecomutação concentra-se na redução das deslocações locais de
manhã e à noite - o principal objectivo para os Jogos Olímpicos. Todos os
telecomutadores são teletrabalhadores, mas nem todos os teletrabalhadores
são telecomutadores. Fixe?)
Atlanta, 1996
Toca a avançar 12 anos. O pessoal de Atlanta estava decidido a fazer com que
os Jogos Olímpicos de 1996 corressem tão bem como os de Los Angeles, em 1984.
Tal como em Los Angeles, esperavam centenas de milhar de visitantes durante
um curto período de tempo.
Pior ainda, os locais dos Jogos estavam muito mais concentrados do que em
Los Angeles, e o sistema de vias rápidas em redor de Atlanta é muito menos
extenso que o de Los Angeles. Logo, a menos que as coisas fossem muito, muito
diferentes do habitual, haveriam de cair numa embrulhada total. A tarefa de
afastar os trabalhadores dos seus carros começou a sério no início dos anos
90.
Diversos grupos cívicos juntaram-se para ajudar a evitar o desastre eminente.
Um deles foi o Conselho Consultivo da Telecomutação Metropolitana de Atlanta
(CCTMA), um dos representantes regionais da AIT, a Associação Internacional
de Teletrabalho. (A propósito, a AIT nascera no período de planeamento pré-Olímpico
de Los Angeles).
A missão do CCTMA era fazer chegar a mensagem da telecomutação às empresas
locais, de modo que elas encarassem a adopção da telecomutação para os seus
trabalhadores - pelo menos durante os Jogos. Um elemento decisivo no esforço
de redução do tráfego foi a Câmara de Comércio Metropolitana de Atlanta.
Durante os dois anos que precederam os Jogos Olímpicos, a Câmara patrocinou
uma série de seminários sob o lema «Trabalhar como Habitualmente», explicando
de que forma as empresas podiam usar a telecomutação, as deslocações em conjunto,
as horas flexíveis e outras opções para manterem os seus trabalhadores em
acção sem agravar os problemas de trânsito. A ênfase destes seminários centrou-se
nas empresas localizadas no interior do «anel», um círculo com um raio de
2 quilómetros em redor do centro de Atlanta (onde estavam situados 20 locais
dos Jogos, a principal Aldeia Olímpica, o Centro de Imprensa, o Centro de
Emissões Internacionais e o hotel Família Olímpica). Como resultado desses
seminários, 1700 empresas criaram programas deste tipo.
O CCTMA patrocinou uma série de encontros intitulados «Telecomutar os Jogos»,
destinados a abordar as questões levantadas durante os seminários. Estes encontros
ajudaram a explicar de que forma a telecomutação poderia contribuir para tornar
as empresas ainda mais produtivas, para além de as manter a funcionar durante
os Jogos Olímpicos.
Vejamos alguns resultados de toda esta preparação:
1) Não houve violações dos regulamentos sobre qualidade do ar durante
os Jogos, apesar de todas as condições atmosféricas - excepto o congestionamento
de trânsito - serem as ideais para dar origem a elevados teores de ozono (Divisão
de Protecção Ambiental da Geórgia);
2) As deslocações locais foram reduzidas em 50 por cento durante os
Jogos, com a telecomutação a ser responsável por cerca de um terço dessa redução
de tráfego (Direcção de Transportes do Comité Olímpico de Atlanta);
3) Durante os jogos, 200 mil habitantes de Atlanta telecomutaram pelo
menos parte do tempo (BellSouth);
4) Tanto os empregadores como os seus empregados telecomutados ficaram
satisfeitos com os resultados; 60 por cento dos telecomutadores sentiram-se
mais produtivos, 79 por cento acharam isso mais satisfatório, e 50 por cento
disseram ter poupado mais de 10 dólares por cada dia em que telecomutaram
(Universidade Estadual da Geórgia).
Lisboa, 1998
A ponte Vasco da Gama está concluída, tal como a passagem do caminho de ferro
na Ponte 25 de Abril. A Estação do Oriente faz a ligação entre a rede ferroviária
e o local da Expo'98. A CREL e a CRIL estão prontas, permitindo evitar as
artérias congestionadas. Mesmo com 200 mil visitantes por dia na Expo, os
engarrafamentos das horas de ponta não passam de uma recordação longínqua.
A sério?
Não levem a mal que tenha algumas dúvidas.
Vejamos os números, fazendo uma comparação entre os Jogos Olímpicos de Atlanta
e a Expo'98. Os custos das novas construções são sensivelmente os mesmos (700
milhões de dólares em Atlanta, 702 milhões em Lisboa). Embora se esperem quatro
vezes mais visitantes na Expo 98 (8 milhões) que em Atlanta (2 milhões), é
num período de tempo muito mais longo, de modo que apenas se espera metade
dos visitantes por dia (58 mil em Lisboa contra 118 mil em Atlanta).
Se as estimativas para a Expo forem conservadoras, então o número de visitantes
diários poderá andar muito mais próximo do de Atlanta. As receitas com a venda
de bilhetes não diferem muito: 430 milhões de dólares em Atlanta contra 372
milhões em Lisboa.
Além disso, a minha experiência em Los Angeles e muitas outras cidades leva-me
a crer noutra lei empírica da humanidade: o tráfego cresce sempre até exceder
o que quer que seja que esteja disponível.
Ou seja, o local da Expo'98, embora ao contrário de Atlanta não se situe no
centro, vai gerar tráfego para o centro de Lisboa a ponto de serem muito prováveis
graves problemas no trânsito quotidiano. A força de trabalho em Lisboa é muito
semelhante - em termos do trabalho que executa - às de Los Angeles e Atlanta.
Logo, é muito importante para Lisboa encarar a telecomutação, não como táctica
de sobrevivência para a Expo'98, mas igualmente para um futuro pacífico e
próspero.
Pensem nisso.